31 de jan de 2012

Crack? E o álcool??

Segue parte de uma das reportagens da revista Em Discussão! de agosto de 2011, publicação do Senado Federal. Um exemplar chegou em minhas mãos. É um número especial tratando da “dependência química e ameça do Crack”.

Me chamou a atenção para a abordagem bastante corajosa. Primeiro, por dizer que há um alarmismo exagerado sobre o crack; segundo, por levantar o problema de uma droga muito mais capciosa, a começar pelo seu comércio praticamente livre e o estímulo massivo ao consumo: o álcool.

Fiz uns destaques (negrito) no texto. Retirei-o da internet. Dá para acessar na íntegra a revista:

http://www.senado.gov.br/NOTICIAS/JORNAL/EMDISCUSSAO/


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Álcool é uma droga mais problemática que o crack, dizem médicos

Chamados ao Senado para falar sobre problemas com drogas, especialmente o crack, médicos e psiquiatras, além de todos os representantes das comunidades terapêuticas, foram unânimes em alertar que o grande peso para a saúde pública é a dependência de álcool.

“Embora ainda não tenhamos dados confiáveis sobre o crack, o aumento da visibilidade não corresponde à magnitude do problema. Os problemas relacionados ao álcool são, de longe, muito mais significativos. O número de pessoas envolvidas e o custo econômico em relação ao álcool são infinitamente superiores aos do crack”, afirmou o psiquiatra Roberto Kinoshita, coordenador da área de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde.

“Notoriamente, o álcool representa a maior preocupação em relação à drogadição, por uma questão estatística irrefutável”, reforçou o vice-presidente do CFM, Carlos Vital Corrêa Lima.

“Acho que pedagogia é adotar a mesma atitude diante da substância predominante dos adultos [álcool]”, sugere o psiquiatra Carlos Alberto Salgado. Ele considera um paradoxo a sociedade brasileira se indignar tanto com a presença e a disponibilidade brutal do crack e ter uma atitude permissiva com relação ao álcool. Salgado lembra que, além dos danos causados ao organismo, o álcool é responsável por grandes prejuízos à sociedade, como no caso dos milhares de acidentes e vítimas fatais, causados por motoristas bêbados, principalmente nos feriados nas estradas brasileiras.

As afirmações se sustentam em todos os levantamentos realizados, que apontam o álcool como a droga mais consumida. Em 2007, Senad e Unifesp fizeram o 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População, segundo o qual a primeira experiência com álcool ocorre antes dos 14 anos. Cerca de 16% dos adolescentes entrevistados relataram beber pesado, o que aumenta riscos sociais e de saúde.


Alarmismo em relação ao crack só atrapalha, opinam especialistas

Enquanto a percepção do aumento do consumo de crack está estampada na imprensa, médicos que compareceram à subcomissão do Senado ponderaram que o alarmismo diante do crescimento do uso da droga não é necessário. Mais que isso, com base em dados sobre o consumo do crack em outros países, eles sugerem que pode haver estabilização do número de usuários no Brasil.

O psiquiatra Esdras Cabus Moreira citou estudo da Universidade Johns Hopkins (EUA) mostrando que as curvas de uso de crack e cocaína nos Estados Unidos vêm declinando, com tendência a se estabilizar, mesmo sem que se tivesse encontrado uma estratégia eficaz de prevenção ou de tratamento. Sendo assim, não seria preciso um alarmismo brasileiro sobre esse assunto.

Também os médicos Roberto Kinoshita e Carlos Alberto Salgado repetiram à subcomissão que um alarmismo com relação ao crack pode prejudicar a concepção de políticas públicas para combater a droga e, principalmente, tratar a dependência química de uma forma geral.


Medidas adequadas

Como exemplo do mal que o alarmismo pode fazer, Esdras citou a lei aprovada pelo Congresso americano durante a expansão do crack no país. Lá, os parlamentares foram informados que a droga era mais danosa e trazia mais violência e crime que a cocaína e, então, endureceram as leis para punir usuários. A partir daí, se uma pessoa fosse flagrada com 5 g de crack e outra com 500 g de cocaína, as duas, apesar de o princípio ativo ser o mesmo, ficariam sujeitas a sentença semelhante. O alarmismo americano tinha criado um forte desequilíbrio.

“Isso gerou crescimento enorme de pessoas presas no sistema penal americano e gerou disparidade racial grande nas prisões. Pelo alarde da mídia, pensava-se que o crack tinha relação grande com a violência. Mas as estatísticas de crime de violência de crack e cocaína não mostravam diferenças tão grandes que justificassem que o porte de 100 g de cocaína e de 1 g de crack levassem à mesma pena”, analisou Esdras.

Roberto Kinoshita acha que apenas com evidências científicas os agentes públicos terão a firmeza necessária para dimensionar e enfrentar a questão com medidas apropriadas. Para ele, é importante “não minimizar, mas sem alarmismo que possa gerar pânico e medo”.

“Uma sociedade que vive com medo, insegurança, sentimento de impotência, corre risco. Acuada, tende a abdicar de direitos por soluções de força, de menos civilidade. Esse talvez seja o maior risco que esse fenômeno traz”, analisa Kinoshita. [...]


FONTE: http://www.senado.gov.br/NOTICIAS/JORNAL/EMDISCUSSAO/dependencia-quimica/aumento-do-consumo-de-drogas/alcool-e-uma-droga-mais-problematica-que-o-crack-dizem-medicos.aspx

20 de jan de 2012

Apocalypse Now


Bem ao contrário do que dizem os catastrofistas, os apocalípticos, esse pessoal sempre de plantão, apavorado e apavorando outros com alarmes sobre um iminente (agora sim!) “fim do mundo”; dizendo que a humanidade vive um período de violências nunca antes acontecidos, com calamidades, conflitos e mortes absurdamente altos e inigualáveis em toda a história dos seres humanos no planeta; bem ao contrário disso, há muitos indícios de que o que ocorre de fato é o contrário.

Observo que muitos desses “profetas” frequentemente estão de mal com o seu tempo, nostálgicos de uma época de ouro perdida (na sua infância ou num passado recente, às vezes puramente ficcional), e sedentos de um fim para suas angústias e frustrações, desejando, assim, um “choque total”, que “zere” a vida – deles mesmo e de todos os demais (já que, na verdade, “o inferno são os outros”).

Com os meus amigos “adeptos” de “O Fim Está Próximo” costumo contra-argumentar que houve períodos e acontecimentos históricos em que a situação foi muito mais terrível, dramática, “apocalíptica” do que o que assistimos nesses nossos anos de vida, ou seja, as décadas que vão dos anos de 1960 até os primeiros anos da segunda década do século XXI (pela contagem gregoriana, obviamente, e considerando a minha geração). Bastaria imaginar-se em meio aos conflitos vividos por milhões de pessoas nos anos da 2ª Guerra Mundial, por exemplo – campos de concentração, bombas atômicas, ataques de aviões à população civil, fome, desespero, assassinatos em alta escala, crueldades mil.

Mas há quem não se convença e continue aferrado em suas “esperanças” de que “a civilização está nas últimas”.

Pois em entrevista para a revista Veja de 04/01/12, o psicólogo canadense Steven Pinker (foto acima, em uma conferência), pesquisador e professor da prestigiosíssima Universidade de Harvard e autor de vários livros, diz que

“a humanidade passa por seu mais pacífico período histórico”.

Sobre a percepção/sensação de que vivemos, enquanto humanidade contemporânea, em meio a muita conturbação, ele observa que

“A mente humana é vulnerável a enganos e ilusões. Nossas impressões sobre o quão violento e cruel é um determinado episódio devem-se à nossa memória, que sempre é contaminada pelas emoções que sentimos quando presenciamos ou vivenciamos algo.”

Pinker quer evitar conclusões baseadas em “impressionismos”, em opiniões sem fundamento científico, que dão vazão a ideias fantasiosas:

“Com ajuda da alta tecnologia podemos agora não apenas teorizar sobre o grau de barbárie da pré-história, mas estimar com precisão o número altíssimo de pessoas que morriam massacradas por inimigos. Nada autoriza a ideia tão disseminada de que o passado humano foi bucólico, pastoril e pacífico. Há poucos séculos matavam-se pessoas com base em superstições avalizadas pela hierarquia religiosa, a escravidão era oficial e apenas discordar da opinião vigente podia equivaler a uma sentença de morte.”

A consolidação da democracia, do estado de direito, da ciência e do desenvolvimento intelectual – em que pese tantas falhas e desgraças ainda existentes e que tanto nos alarmam – têm diminuído a violência interpessoais e grupais (considerando, proporcionalmente, o tamanho da população humana nas diferentes épocas). Concluir que vivemos “tempos apocalípticos”, onde há um “completo desrespeito na convivência”, pode ser até interessante para tomarmos atitudes que não reforcem isso. Mas objetivamente, considerando um todo e não a nossa própria sensação, afirmar que “é o fim da picada” é alarmismo sem consistência.

Na Wikipedia tem um artigo sobre Pinker, com mais detalhes sobre suas biografia e bibliografia, além de links – até mesmo para a entrevista na Veja:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Steven_Pinker

***Uma citação do autor retirada da entrevista e que achei interessante de um modo bem amplo, além do assunto em questão:

“O cérebro humano evolui de forma a sempre advogar a favor de si próprio. Somos os mais devotos defensores de nós mesmo. A primeira reação ao sermos confrontados com o fato de termos feito algo ruim é tentar nos convencer e aos outros de que aquilo não foi tão grave. A segunda é transferir a responsabilidade”.

Nostalgia - com Bowie e Pat


Venho todos os dias pro trabalho escutando a Atlântida. Não é exatamente uma escolha. O rádio que temos no carro é dos mais vagabundos e está com problemas desde que compramos o carro (o rádio veio de “brinde”). Como sou muito “descansado”, vou deixando assim. E assim escuto vários dias da semana, lá pelas 7 e meia, 8 horas da manhã, o programa apresentado pelo “Mr. Pi”, Porã e Cagê. O Cagê já escutava algumas vezes na Itapema – ele apresenta um programa de rock e blues dos mais interessantes. O Pi também, em algumas madrugadas, com sua fauna de convidados e filosofanças. Esses três radialistas têm história, como vocês sabem. E o som na Atlântida nesse horário matutino acaba por ter uns diferenciais bem marcantes em relação ao restante da grande parte da programação dessa FM da RBS. Tocam Led, Police, AC, Hendrix, Rush, Cure, Caetano, Chico Buarque – em plena manhãzinha. Claro que também toca uns sons do Jota Quest, por exemplo, que não curto e acho uma cópia mal-feita do Coldplay (mas devo alertar que não saco coisa alguma de música; opino baseado no meu [mal] gosto momentâneo ou alguma intuição sonora, digamos assim). Além do popurri de canções, o trio dá um dinamismo ao rádio, e que é a grande diferença do escutar-se uma lista gravada num pendrive, ou seja, ter pessoas ao vivo, interagindo contigo... (O chato é ter que levar junto na programação tanta propaganda-lixo nos “shows do intervalo” – show de horripilação e enfiação de poluição estética e ideológica, com honrosas exceções.)

Tudo isso pra dizer que esses dias eles tocaram um clássico “oitentista” do Bowie e Pat Metheny Group, This Is Not America. Meudeus!! Quanto tempo não escutava aquilo. Totalmente 1985, lembrando muito Bryan Ferry também. E me veio uma avalanche de lembranças. Como esses caras são bons fazendo pop! Bowie e Pat são fundamentais na cultura musical contemporânea – ao menos na minha parca concepção.

A canção fez/faz parte da trilha sonora do filme (que nunca vi e nem sabia coisa alguma dele) A Traição do Falcão (The Falcon and the Snowman, EUA, 1985), estrelado por Sean Penn (novinho!), entre outras pessoas de referências do cinemão americano e mundial. A trilha do filme é do Pat Group e existe um álbum (com o mesmo título do filme - na ilustração da postagem) onde está em destaque o This Is Not...

Segue um endereço do Youtube com a canção em sua versão original, onde vai rolando imagens do filme. Tem outras, até uma ao vivo do Bowie e sua banda (formação mais recente). Mas fico com a da gravação original, por ter todo o climão, as sonoridades dos meados de 1980 - uma época onde eu e meus amigos de então estávamos no auge da juventude, já entrando, devagarinho, no mundo adulto, cheios de hesitações e expectativas...

http://www.youtube.com/watch?v=MJRF8xGzvj4/