20 de jul. de 2011

Bjork e Wilson


Pois a cantora islandesa Bjork (que também ficou famosa estrelando o filme Dançando no Escuro) está lançando um projeto musical que promete ser revolucionário no mundo da música. Li isso no Segundo Caderno de ZH da semana passada. O projeto dela se chama Biophilia. E é aí que está: a palavra “biofilia”, num sentido geral, significa “amor pelas coisas vivas”. Segundo a reportagem, “a hipótese da biofilia sugere que os seres humanos têm uma afinidade inata com o mundo natural – as plantas, os animais e até mesmo o clima”. Academicamente, remete a um autor, Edward Osborne Wilson (fotinho ao lado), 82 anos, biólogo norte-americano, doutor em Biologia pela Harvard, famoso por desenvolver trabalhos sobre o comportamento animal (ele é especialista em formigas e sua comunicação por feromônios...), o que inclui os humanos nesse rol, afinal, somos um dos tantos mamíferos do planeta, devendo a uma cadeia evolutiva megagigatesca e hipercomplexa a nossa existência e sobrevivência com relativo sucesso.

Ao pesquisador (entomologista, mais especificamente) é creditada a popularização do termo “biodiversidade” e ao desenvolvimento de uma disciplina científica, a Sociobiologia – abordagem polêmica, que considera determinações biológicas na constituição das sociedades humanas e seus comportamentos sociais. Para a Sociobiologia, há fatores genéticos bastante determinantes da sociabilidade de diversos grupos de animais, frutos do longuíssimo processo evolutivo dos seres vivos na Terra, introduzido vários questionamentos dentro das Ciências Sociais e da Psicologia "tradicionais".

O assunto tem voltado a me intrigar bastante, tanto que me meti na leitura de Da natureza humana, do próprio Wilson, obra publicada originalmente no final dos anos de 1970 - e que funciona como uma ampla introdução à Sociobiologia, após outros livros do autor já terem apresentado a proposta sociobiológica para a análise das sociedades humanas.

Isso tem sido bem estimulante! Agradeço a Bjork a referência que me levou ao Wilson!

Sobre o projeto da cantora, segue a versão online da reportagem mencionada:

http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/segundocaderno/19,1033,3383118,Cantora-Bjork-aposta-em-tecnologia-e-natureza-em-novo-projeto.html

E. O. Wilson mantém uma fundação com objetivos bem práticos/pragamáticos:

http://www.eowilson.org

6 de jul. de 2011

Aviões agrícolas em Linha Santa Cruz: nem anjos e nem demônios


Mais uma vez, muito bacana a mobilização comunitária em torno da instalação de uma empresa de aviação agrícola no Bairro Linha Santa Cruz. Principalmente pelo seu aspecto geral, de contrariedade a intoxicações por químicos agrícolas, chamando a atenção de todos para os cuidados com o meio ambiente. Mas...


Confesso que já fui bem mais ferrenho “anti-agrotóxico”. Continuo com minhas restrições e preferindo sempre produtos orgânicos e uma agricultura ecologicamente correta. Sou até entusiasta de técnicas como a biodinâmicas, que têm uma outra abordagem sobre o solo, a vida vegetal e animal e suas correlações com o ser humano, o planeta e o sistema cósmico. Mas também observo que a indústria agro-química – até por pressão, e não por alguma consciência ambientalista súbita – já está tendo cuidados ambientais e cada vez mais direciona-se para a fabricação de produtos menos contaminantes do solo e das pessoas (de composição biodegradáveis, com menor toxidade e permanência no ecossistema etc.) – assim como deve e está acontecendo com todos os produtos fabricados e atividades humanas no planeta (e até fora dele!).

Em tese, a empresa de aviação agrícola que quer se instalar no aeroporto precisa ter todas as prevenções legais e licenciamentos dos órgãos competentes (e receber as devidas fiscalizações), além da responsabilidade social inerente a uma atividade do tipo, com tantos riscos. A mesma coisa deve ocorrer, por exemplo, com transportadoras de combustíveis. Caminhões-tanques contendo milhares de litros passam semanalmente por nosso bairro. Pressupomos que são empresas idôneas, licenciadas devidamente, sendo os veículos seguros e obedecendo todas as normas legais para evitar um acidente e consequente contaminação do solo pelo vazamentos de gasolina, álcool combustível, óleo diesel etc. – produtos altamente tóxicos e de uso poluente em nossos veículos (pelo escapamento do motor e vazamentos). Mas ninguém está pedimos o fechamento do Posto Wenzel (ou daquele que se localiza próximo a Linha Nova, além dos de Monte Alverne) por conta de um possível acidente com os depósitos e transporte dos líquidos inflamáveis; nem somos contrários aos veículos, oficinas, fábricas e revendas – mas somos favoráveis ao uso de bicicletas, por exemplo, e a criação de carros cada vez menos poluentes e de todos os cuidados para evitar acidentes e contaminações no transporte rodoviário, armazenamento em tanques e abastecimento nos postos.


Tenho receio de um certo obscurantismo ou “ideologização” do que é uma questão importante e causa justíssima. Por conta de um sectarismo do tipo “agroquímicos são do mal e então seremos sempre contras”, enxotamos empresas e abominamos técnicas de cultivo perfeitamente aceitáveis de um ponto de vista científico e ambiental. Químicos, engenheiros químicos, engenheiros agrícolas, agrônomos e mais variada e vasta gama de técnicos se dedicam à pesquisa de produtos para a “agricultura industrial”, tornando-a mais eficiente e menos letal. Confio num desenvolvimento ético, respeitando o meio ambiente e responsabilidade social com as gerações – “mesmo” nesta “ceara” da produção com herbicidas, fungicidas, adubos químicos etc. No atual modelo socioeconômicos, que – prevejo – perdurará por muitos anos, a agricultura em grandes extensões existirá e não prescindirá de técnicas agrícolas baseadas na ampla mecanização – como os aviões agrícolas – e insumos químicos.


*O próprio secretário do meio ambiente de Santa Cruz, em entrevista ao Riovale Jornal de 28/06/11, diz que “entende a preocupação dos moradores, mas a empresa possui todos os requisitos necessários para operar”. “Pedimos todos as licenças necessárias e todas atendem as exigências”, incluindo as da Fepam (Fundação de Proteção Ambiental do RS), “um dos órgãos mais exigentes que existe em nosso estado”, completa o secretário. Ou seja, a preocupação e mobilização do grupo é muito válida, mas as autorizações e precauções estão oficialmente atendidas para o funcionamento correto da empresa – assim como deve acontecer com o transporte, abastecimento e armazenamento em Postos de Combustível do bairro e seu entorno, estabelecimentos que trabalham diariamente com produtos tóxicos de alta periculosidade (inflamáveis e poluentes, inclusive).

**O fluxo de aeronaves já é em si algo que se faz com risco – assim como o é o transporte pelas ruas e estradas. Vazamentos de produtos poluentes dos tanques – ou no processo de abastecimento de combustível – e acidentes graves são hipóteses sempre presentes. Então, a instalação de uma linha aérea entre Santa Cruz e Porto Alegre deveria ensejar também uma mobilização... Na verdade, os pequenos e grandes aeroportos que conheço estão em áreas de uma densidade populacional cada vez maior (o Aeroporto Salgado Filho é um exemplo disso, outrora construído em área afastada da aglomeração urbana). Idealmente, deveriam ser construídos e mantidos em áreas com grande limitação de moradia e de outras instalações urbanas.


***Me disseram que a aviação agrícola é uma dos meios mais eficientes em termos econômicos e ambientais para pulverizações em grandes áreas.

22 de jun. de 2011

A história não contada da “rua mais antiga de Santa Cruz”

Um trabalho de levantamento histórico muito interessante é o realizado por Armindo L. Müller, pesquisador diletante e pastor luterano. Em seu Dicionário Histórico e geográfico da região de Santa Cruz do Sul (Edunisc, 1999), traz muitas informações que, por sua vez, poderiam ser desdobradas em muitos outros trabalhos de historiografia e análise social local e regional. É deste pequeno livro, publicado pela Editora da Unisc em 1999, que retirei alguns dados para tecer o seguinte comentário:

A chamada via mais antiga de Santa Cruz do Sul, hoje Rua José Germano Frantz, foi obra empreendida por Delfino dos Santos Moraes, capataz do fazendeiro e tenente-coronel Abel Corrêa da Câmara – nome de onde se deriva a designação original “Picada do Abel”, mais tarde Picada Velha e, finalmente, Linha Santa Cruz. Nos trabalhos de abertura e demarcação, agregados, contratados e escravos sob comando de Delfino devem ter sido mobilizados, sendo todo trabalho às expensas dos cofres públicos da então Província do Rio Grande de São Pedro (e dizem que foi uma bolada grande). A empreitada começou a ser definida em 1847, mas só terminada no final de 1849, quando os primeiros colonos estavam sendo assentados nos lotes, incluindo ali o homenageado, Sr. Frantz. Mais anteriormente ainda, a via foi uma trilha indígena, ligando a região serrana do Vale do Rio Pardo e banda acima (Soledade, Cruz Alta etc.), passando pelo Faxinal do João Faria (onde surgiu a cidade de Santa Cruz), até Rio Pardo (Rio Jacuí), por onde circulavam indígenas da região, incluindo ervateiros guaranis assentados – já no século 18 – na Aldeia São Nicolau, nos arredores da cidade de Rio Pardo.


Já os lotes, foram demarcados pelo engenheiro Frederico Augusto de Vasconcelos Pereira Cabral, nome que não deixa dúvida da sua origem lusitana. Subcontratou os serviços de Guilherme Werlang e Francisco Dilemburg, teuto-desecndentes residindo no Brasil. Mais uma vez, os recursos para os trabalhos são governamentais e, muito provavelmente, usando-se mão de obra escrava para os “serviços mais pesados” (ao brancos, só cabia o mando).

Temos aí, numa via municipal, uma multiplicidade de relações sociais e históricas, envolvendo protagonistas de várias etnias e origens nacionais – comumente, muitos deles, invisibilizados injusta e erradamente, porque empobrecem a história santa-cruzense diversa e complexa.


*A rigor, aliás, a “via mais antiga de Santa Cruz” não é aquela cujo trecho se chama hoje Rua Germano Frantz. Vias que ligavam internamente as instalações (sobrado do dono, casas dos agregados, senzala, estrebarias, pastos, lavouras, olaria, armazéns etc.) do povoado do Faxinal do João Faria e, deste, a Rio Pardo, então sede da região, e a outras localidades próximas – arraiales, fazendas, rancharias avulsas e armazéns existentes em caminhos –, já instaladas antes da introdução de colonos germânicos em 1849; são vias mais antigas e usadas muito antes de qualquer início de assentamentos de colonos da Prússia, Silésia, Boêmia e outras localidades europeias do norte (lembrando que a Alemanha, propriamente, ainda não existia como estado-nação antes de 1871).


**O trecho ainda não calçado da Germano Frantz – apenas um ou dois quilômetros paralelos a Av. Orlando Oscar Baumhardt, mantendo a ligação da esquina do “Mercado Recanto” (ou a entrada ao Seminário São João Batista) até próximo ao “Mercado da Lili” (ou a velha fábrica de sapatos coloniais) –, mesmo com os loteamentos que dela se bifurcam, guarda uma espécie de encanto colonial em sua sinuosidade, aclives e declives, pedregulhos, passagens por arroios, charcos, matos, vistas de casas antigas, nesgas de lavouras e campos onde pastam bois e cavalos. Seria muito interessante que a pavimentação e o uso do entorno preservasse essas características autenticamente coloniais. Ao invés de asfalto, quem sabe um calçamento com pedras ou bloquetes na cor do solo avermelhado? Uma lei poderia regulamentar as construções e terraplenagens neste trecho, além de se tombarem casas e outras instalações, num programa de incentivo (subsídios concretos) aos proprietários, ou desapropriações. Neste trecho, há áreas onde se poderia instalar-se um parque público para o lazer da população local e preservação ambiental.

***A denominação Linha Santa Cruz – e do próprio município de Santa Cruz – alude à Fazenda ou Estância de Santa Cruz, localizada na região serrana do Vale do Rio Pardo (ou Centro-Serra), hoje parte do município de Lagoão (conforme Müller). A chamada Picada do Abel, finda sua abertura em 1849, com o incremento do movimento entre a serra, as comunidade de imigrantes, o Faxinal do João Faria e a sede regional, a cidade de Rio Pardo, passa, mais tarde, a ser conhecida como Linha Santa Cruz, por ser via de acesso à Fazenda de Santa Cruz – numa época em que as fazendas eram os núcleo populacionais mais densos e economicamente mais importantes, por conta da liderança social e política de seus donos (o proprietário da Fazenda da Santa Cruz era parente do presidente da Província...) e local de troca, compra e venda de mercadorias. Especula-se que, por suas vez, o nome “Fazenda de Santa Cruz” viria de uma antiga e grande cruz (“curuzu”), posta por indígenas missioneiros no alto de um pinheiro, a fim de indicarem a sua fé e servir de guia em suas andanças em tempos do domínio jesuítico na região do Vale do Rio Pardo – em torno de 1630, ou seja, cerca de 220 anos antes da introdução de imigrantes germânicos na região e 120 anos antes da instalação de súditos portugueses e trabalhadores negros escravizados no Vale do Rio Pardo.

9 de jun. de 2011

Um fantasma racista assombra concursos de beleza


Na minha opinião, concursos de beleza focados em um perfil étnico-racial são extremamente problemáticos. Retirando-se outras questões, como a da “mulher objeto” e a ditadura do padrão estético (magra, alta, jovem etc.), há o componente da discriminação fenotípica – um caminho ao racismo. Se o concurso é “Beleza Negra”, não entram brancas; se é “A Mais Bela ítalo-descendente”, retira-se as demais moças de outras nacionalidades.

No caso do “Miss Germany no Brasil”, pelo que li na imprensa local, o pré-requisito básico é que as concorrentes sejam descendentes alemãs até a terceira geração. Todas muito jovens (de 15 a 25 anos), com os cabelos loiros e pele claríssima, encarnam o estereótipo da “legítima moça alemã” – desconsiderando, aliás, que, na própria Alemanha, o perfil populacional tem um fenótipo muito mais diversificado, com a incorporação de inúmeras origens étnicas, configurando múltiplas cores de pele, tipos de cabelo, cor de olhos, formas de narizes, bocas etc.

O que mais me preocupa – até porque isso ignorado, nem passa pela cabeça dos promotores de tais concursos – é a ideia de “pureza racial” que está na base desses eventos; exige-se a exclusividade (só brancas, só negras, só “germânicas”, só “italianas”), ou seja, a “não-mistura racial”, quando vivemos num mundo cada vez mais a miscigenado e aberto a diversidade. Pode acontecer que, os pais que mantém características associadas a descendências (“alemães”, “italianos”, “africanos”...) e querem que suas filhas um dia concorram em tais certames, terão de buscar seus pares sexuais-reprodutivos entre símiles étnico-raciais. Caso contrário, caso a criança absorva certas cargas genéticas, ficará “imprestável” para concursos etnicamente fechados...

Acho que se deve entender ou relativizar certos casos, como, por exemplo, a escolha da “Mais Bela Negra” de Santa Cruz. O evento foi criado como alternativa a concursos onde as moças negras sequer cogitam em se inscrever, caso da “eleição das soberanas” da Oktoberfest local – a festa onde a “beleza máxima” santa-cruzense é representada por moças brancas. Há, assim, no “Mais Bela Negra”, uma compensação, buscando valorizar também a beleza de mulheres negras, ordinariamente, como já disse, impedidas – implícita ou explicitamente – de participar do certame (estético feminino) por seu explícito “corte étnico”.

23 de mai. de 2011

Casamento gay e castidade


Em nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), saída em 13 de maio último, repudiando a aprovação do Supremo Tribunal Federal (STF) à união estável entre homossexuais, é dito que “A diferença sexual é originária e não mero produto de uma opção cultural”.

Também pode ser dito que o celibato não é natural, posto que o exercício da sexualidade é um impulso inerente ao ser humano, constituindo-o; está em sua origem, não revogável e cuja repressão pode acarretar comportamentos socialmente execráveis, aberrantes, patológicos, caso da pedofilia. Ou, o que é bem menos grave, há um outro possível subproduto dessa “economia sexual artificial”: o afloramento de relações sexuais – homo ou heterossexuais – clandestinas, marginais, contando com a complacência de vigilâncias institucionais, incapazes de frear de todo “o que Deus deu aos humanos”: o corpo e a energia que os levam a busca satisfação sexual.

O celibato é uma opção cultural (“não natural”) tanto quanto o é a união homoafetiva – assim como qualquer tipo de casamento é algo culturalmente instituído, e não "da natureza". Invocar a autoridade das palavras bíblicas também é um ato puramente cultural – começando por exigir a compreensão de uma língua e a manipulação de formas de registros puramente humanos (pergaminhos ou livros, por exemplo). De modo amplo, se poderia dizer que “Deus é cultura”. Nós o inventamos e o inventamos de inúmeras formas ao longo da história da humanidade (nem por isso acaba-se o mistério profundo da existência e as possibilidades que transcendem o "racional").

A monogamia, ou melhor, o casamento monogâmico, também seria uma estrutura “natural”, “um princípio fundamental do Direito Natural”, conforme a nota da CNBB (para mim, eivada de posições fundamentalistas, abrandadas, agora, por uma “tolerância” à homossexuais; um “respeito” aos homossexuais). Mesmo que a própria Bíblia tenha inúmeras referências à poligamia, caso a dos patriarcas bíblicos, sem contar os múltiplos estudos antropológicos e de história, demonstrando a diversidade de configurações familiares para além do “modelo” monogâmico “papai, mamãe e filhinhos” – um arranjo relativamente recente, aliás, ligado à constituição do Estado, da propriedade privada, do capitalismo contemporâneo, conforme nos apresentou Engels (ilustração acima - Frederich era o primeiro nome do barbudo) no antológico “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, publicado em 1884. Mesmo com isso tudo – ao arrepio de todas indicações e limites da família monogâmica no passado e na contemporaneidade (onde coexistem diversos arranjos familiares em que as crianças se desenvolvem) –, insiste-se que tal instituição socialmente construída corresponderia “a eternos desígnios de Deus”...


*No “Prefácio à quarta edição” de “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, datada de 1891, Engels fala dessa conceituação fundantalista (fundada em escritos religiosos, ou seja, na Bíblia, coletânea literária tida como inquestionável) sobre família, como se fosse um entidade "natural" e “ahistórica”:


“Até o início da década de sessenta [1860], não se poderia sequer pensar numa história da família. As ciências históricas ainda se encontravam, nesse domínio, sob a influência dos Cinco Livros de Moisés. A forma patriarcal da família, pintada nesses cinco livros com maior riqueza de minúcias do que em qualquer outro lugar, não somente era admitida, sem reservas, como a mais antiga, como também se identificava – exceptuado-se a poligamia – com a família burguesa de hoje [1891], de modo que era como se a família não tivesse evolução alguma através da história.”


**Friederich Engels (1820-1895), intelectual alemão da mais alta importância mundial, escreveu um volume muito importante de obras – individualmente e em dupla com seu grande companheiro de pensamento e luta, Karl Marx (chegando a eclipsar-se no esforço de projetar a obra do amigo e correligionário), além de ser seu editor até a posteridade. Mesmo que consideremos limites e contextos próprios da época, seus escritos possuem reflexões, argumentações e informações preciosas para se desenvolver uma visão ampliada da sociedade, da economia, do pensamento e da história humanas. Engels é uma daqueles pensadores-ativistas que fez muita diferença no mundo em que vivia – e ainda o faz – com uma criticidade que revolucionou o modo de compreender muitas coisas. Os insucessos e tragédias do "comunismo real" também não desabonam os esforços de escritor, polemista e militante socialista. Sim, devemos considerar uma multiplicidade de compreensões cosntruídas por pensadores que sucederam Engels na tentativa de "decifrar o mundo". Mas dentro da busca de conhecimento sobre a vida social humana, ninguém deveria deixar de "beber" - ao menos alguns goles - da biografia e bibliogradia do genial e corajoso Friederich.

16 de mai. de 2011

Choperias e drogarias


Interessante que, na contramão de críticas ao álcool e campanhas contra o seu consumo, tenham surgido tantas choperias por este Brasil afora. Em Santa Cruz, faz poucos dias, mais uma choperia foi inaugurada (devemos ter umas cinco, fora outros locais que têm máquinas de chope). Ou seja, locais onde a principal atividade, por onde tudo gira, é o consumo de bebida alcoólica, no caso, o milenar fermentado amarguento com poderes enebriantes servido em copos e canecos. O que, por um lado, é condenado – nas restrições e avisos de cuidados à saúde –, por outro – na profusão de choperias apresentadas como locais aprazíveis –, recebe um e status de boa sociabilidade, muita diversão e relax; são locais requintados, charmosos, badalados, de grande afluxo de pessoas – pessoas descoladas, jovens ou de espírito jovem, a fim de uma conversa espirituosa e flertes diversos; são dessas típicas instituições públicas e privadas – como as praças, avenidas, igrejas, shoppings, salões de baile – onde se exercita o atávico hábito do encontro social, como já o foram, mais intensa e antigamente, as (num exemplo mais próximo) cafeterias e as casas de chás. Obs.: talvez o exemplo mais próximo ainda seja das antigas casas onde se consumia o ópio (segue um complemento abaixo sobre isso).

Ocorre que o chope, como bebida, não é comparável – assim como a cerveja – ao um pingado ou uma taça de chá preto. O efeito alterador dos sentidos e da consciência é bem diferente do estímulo da cafeína. Pode ser fatal. Se não no curto prazo – quando o cara perde a direção no automóvel e se espatifa num poste (quando não atropela pedestres) ou se envolve em uma discussão tão besta quanto sangrenta –, no longo prazo mata seguidamente, quando aparecem doenças decorrentes, entre elas, a cirrose hepática e a terrível dependência química. Entre o tomar um chopinho com os amigos e a decadência do alcoolismo tem um “pulo do gato” bem sutil, indefinível, sorrateiro...


É sintomático que choperias e farmácias estejam em proliferação pelas cidade. Somos uma sociedade que precisa de drogas – incluindo especialmente (e massivamente) as chamadas legalizadas ou lícitas, como os calmantes e as pilsen.

*Eu não deixo de frequentar drogarias e choperias. Há remédios indispensáveis e não é ruim o cara tomar um chope e bater um papo. Minha preocupação é com a banalização do remediar-se e do embebedar-se, fazendo-se isso costumeiramente, como se fosse “natural”, apoiando-se numa propaganda intensa e numa disponibilidade assediante.


**Achei uma ótima síntese de informações para traçar um paralelo entre o consumo de álcool e do ópio, e das choperias e casas de ópio. Retirei do site do Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo (IMESC), órgão do governo do Estado de São Paulo. Vai aí:

Ópio

Aspectos históricos e culturais

O ópio ("suco", em grego) é obtido a partir de um líquido leitoso da cápsula verde da papoula (Papaver somniferum), planta que cresce naturalmente na Ásia. É também chamada de "dormideira", sendo originária do Mediterrâneo e Oriente Médio.

Quando seco, o suco passa a se chamar pó de ópio. O ópio é apresentado em barras de cor marrom e gosto amargo que podem ser reduzidas a pó. Quando aquecido, produz um vapor amarelo que é inalado. Pode ser dissolvido na boca ou ingerido como chá.

A papoula é legalmente cultivada, servindo de fonte de matéria-prima a laboratórios farmacêuticos. Contudo, em sua maioria, as plantações são ilegais e destinam sua produção ao comércio clandestino de ópio e heroína.

Entre os gregos antigos, o ópio era revestido de um significado divino como símbolo mitológico poderoso. Os seus efeitos eram considerados como uma dádiva dos deuses, destinada a acalmar os enfermos.

Na China, desde tempos imemoriais, a planta da papoula era símbolo nacional (tal como os ramos do café no Brasil). Parece que o ópio foi introduzido na China pelos árabes no século IX ou X.

As provas mais antigas do conhecimento do ópio remontam às plaquinhas de escrever dos sumerianos, que viveram na baixa Mesopotâmia (hoje o Iraque) há cerca de 7.000 anos.

O conhecimento de suas propriedades medicinais chega depois à Pérsia e ao Egito, por intermédio dos babilônios. Os gregos e os árabes também empregavam o ópio para fins médicos.

O primeiro caso conhecido de cultivo da papoula na Índia data do século XI. No tempo do império Mongol (século XVI), a produção e o consumo de ópio nesse país já eram fatos normais.

O ópio era conhecido também na Europa na Idade Média, e o famoso Paracelso o ministrava a seus pacientes.

Quando utilizado por prazer, era ingerido como chá. O hábito de fumar ópio conta umas poucas centenas de anos. Em muitas sociedades orientais tradicionais, recorre-se ao ópio contra dores nas enfermidades do corpo mas, também, como tranqüilizante. É também instrumento de relaxamento e de sociabilidade.

No século XIX, a "British East India Company" produzia ópio na Índia e o vendia para a China. A insistência do governo chinês em reprimir a venda e o uso da droga que se alastrava, levou a um conflito com a Inglaterra, conhecido como a "Guerra do Ópio". Os ingleses obrigaram a China a liberar a importação da droga e como resultado, em 1900, metade da população adulta masculina chinesa era descrita como dependente da droga.

Amplamente aceita como droga recreativa no Oriente, e comprado livremente na Inglaterra e Estados Unidos, até fins do século XIX, o ópio provocou o surgimento de "casas de ópio" na maioria das cidades européias. Foi somente no início do século XX que o seu consumo começou a ser proibido.

FONTE: http://www.imesc.sp.gov.br

6 de mai. de 2011

Invisibilização


No começo de abril, ao ler uma crônica em ZH da escritora Letícia Wierzchowski – que se notabilizou pela obra A Casa das Sete Mulheres, adaptada para a TV (Globo) na forma de uma mini-série –, resolvi enviar um e-mail a ela (uma pequena mensagem), que vai colado aqui mais abaixo.

Poucos dias depois, Letícia me respondeu, agradecendo as considerações e reconhecente que cometeu um lapso, que em outro momento pretende minimizar.

Ela foi muito gentil, mas estava um tanto chocada com a reação furiosa de outras manifestações recebidas pelo mesmo trecho que me ative.

Eu entendo a crítica indignada, que se manifesta com veemência, beirando a agressão ou/e histerismo. Mas, na minha (parca) experiência, não é algo que parece ter um efeito positivo frequente. Pelo contrário: pode reforçar na “pessoa-alvo” certas convicções que queremos criticar. A serenidade e o não-pedantismo quase sempre são os melhores caminhos para expor nosso ponto de vista, argumentar, questionar e, com isso, causar uma reflexão e, “quiça”, uma mudança de postura do nosso interlocutor.


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Em 04/04/2011, 16:32, Iuri João Azeredo escreveu:


Prezada Letícia,

Leio esporadicamente tuas crônicas em ZH. Gosto muito. E aproveito para te dar os meus parabéns por tua carreira e trabalhos tão prestigiados.

Algo que me chamou a atenção – um “detalhe” – na crônica “Dirigindo em Porto Alegre”, publicada em 31/03/2011. Foi a tua frase “Nós, descendente daqueles alemães, judeus, italianos, poloneses e portugueses que aqui, às margens deste estuário que gostamos de chamar carinhosamente de rio, fincaram pé e ergueram uma metrópole”.

Todos brancos... E os afro-descendentes? Mesmo presentes desde os primórdios da região, como trabalhadores escravizados e aquilombados, não ajudaram a construir nossa capital do Estado? Por que não mencioná-los?

Não só na tua crônica, mas, no geral, existe um processo de “invisibilização” da população negra no Brasil e, especialmente, no RS. Situação às vezes rompida “a ferro e fogo” pelo ativismo afro e dedicação de estudiosos, que se propõe a não conceber os afro-descendentes apenas como coadjuvantes, subalternos, marginais no processo de constituição do Rio Grande do Sul, da sua população.

Mencionas, por exemplo, com justiça, os judeus – mesmo que tal grupo tenha chegado a PoA bem após os negros, que ocupavam a área do hoje Bairro Bom Fim desde meados do século XIX.

Não quero soar “moralizante”, mas apenas observar que, em minha opinião, colaboramos para a marginalização de um povo, de uma etnia, pelo simples fato de “esquecê-la” ou ignorá-la, mesmo que de forma não intencional.

Claro que há outros povos não mencionados na tua “lista” na crônica – os povos indígenas, para falar nos nativos; os belgas, para voltar a falar de europeus, etc. De qualquer modo, fica aqui o meu registro.

Agradeço a tua atenção e desejo tudo de bom.

Iuri Azeredo – Santa Cruz do Sul