23 de mar. de 2012

Imposição simbólica


Ou: “Por que TODOS são obrigados a deparar-se com um Jesus morto até numa sala pública?”

Impor-se aos outros é especialidade da Igreja Católica. Falo de cadeira. Como batizado, comungado e crismado dentro de um dos aparato ideológico mais poderosos do planeta, quase onipresente em países como o Brasil, onde, no passado, o Estado se associava ao Vaticano.

A inquisição é só um exemplo dessa imposição histórica do catolicismo. Ai de quem questionar, mesmo que sem querer, os seus ditames, as suas manifestações. Não pouca gente foi brutalmente torturada e morta por (bastava) suspeita de algum “heresia”. Usar ervas medicinais para curar doenças já poderia significar ser taxada de bruxa e ir parar no meio de uma fogueira armada e ateada a mando de autoridades papais. Giordano Bruno, pensador e cientista, não escapou da execução sumária, assim como tantos outros grandes homens e mulheres que divergiam do "poder único e total".

E os inquisitores continuam por aí. Em nome do humilde e tolerante Jesus, desqualificam quem ousar reivindicar o que é lei e denunciar o que atenta contra o direito de não ser permanentemente objeto do propagandismo confessional através de, por exemplo, crucifixos, estátuas e quadros em salas e outros locais públicos – caso das dependências do judiciário, que são custeadas por mim e por milhares que não professam religião simbolizada por uma cruz...

Os inquisitores do século XXI, agora já bastante desmoralizados, ameaçam, não obstante, com um apocalipse moral para breve em caso de retirada de tais aparatos, e reivindicam o respaldo de uma maioria numérica para justificar a sua imposição simbólica, chamando isso de “direito”. Falam em degradação humana, como se o atoleiro da civilização não fosse forjado em mais de 2 mil anos de domínio quase absoluto do cristianismo católico em nações como a brasileira.

Se a crença é tão consolidada entre o povo, porque uma reação tão indignada com a possibilidade de retirada de crucifixo de um local público? Para se manifestar a fé é preciso tanta ostensividade visual? Onde fica o respeito aos milhões que têm outra fé que não a cristã que necessita de um crucifixo na parede de uma sala? Onde está o respeito aos agnósticos, ateus e outras pessoas que não se filiam a religião alguma?

Repetindo-me: pode-se desrespeitar essa “minoria” em nome dessa suposta “maioria” de cristão que se apegam à exposição de simbolismos materiais em lugares que são de TODOS, TODOS, e não de uma parcela, mesmo que maioria numérica? Democracia é isso? Patrolar a minoria, que deve ficar resignada em sua inferioridade numérica? Em algum momento eu votei para ter o crucifixo exposto atrás dos funcionários públicos do judiciário, onde tudo é pago por TODOS, TODOS, e não só pela parcela católica da população brasileira? Tenha-se santa paciência com tal afronta e arrogância!

Enfim, que fezinha mais rala é essa que se abala com a possibilidade de não ver em todos os lugares um crucifixo? Isso não lembra a passagem bíblica do bezerro de ouro? Não é mais um bezerro de ouro, mas, da mesma forma, trata-se de um objeto material de culto...

Admiro pessoas dedicadas à religião, mas aquelas onde a sua fé não lhes tolda o horizonte, não lhes torna fundamentalista, e onde as outras pessoas têm o sagrado direito de divergir – como foi o caso de Jesus em seu tempo, conforme os contos evangélicos.

12 de mar. de 2012

Religião e especismo

Segue uma costura de e-mails de um pequeno debate via uma lista de amigos:

Falando em homenagem a Iemanjá, fiz um comentário no ano passado sobre a infeliz visão da praia (em Rainha do Mar) que tive na manhã do dia 1º janeiro de 2011, após homenagens de fins de ano que usam as águas do oceano. Na areia, “vomitado pelo mar”, se encontravam sabonetes, frascos de perfume e vários outros “aparatos” altamente poluentes – algo que eu acho inadmissível em tempos onde a consciência ambiental é indispensável para a sobrevivência do próprio planeta. Até “apelei” para que os líderes religiosos/espiritualistas estimulassem rituais que dispensem objetos não biodegradáveis. Acho que homenagens religiosas que poluem, na verdade, hoje são “ofensas” aos seres/forças ligados a elementos da natureza como o mar, as águas etc.

Aliás, se eu fosse um babalorixá, como o foi o fotógrafo e etnógrafo francês Pirre Verger, eu aboliria também TODOS os sacrifícios de animais. Sei que é a maior polêmica. Mas em nome do respeito às tradições, não se pode, por exemplo (e nada ver com babalorixá), ficar aceitando coisas como a extirpação de clitóris de garotas pubescentes, como acontece em alguns lugares do mundo, entre outras barbaridades. Animais, para mim, são seres sencientes, ou seja, muito semelhantes (para não dizer iguais) aos humanos, quer dizer, com sensibilidade a dor, portanto, sofrem, têm medo, saudade – como podem comprovar aqueles que lidam amorosamente com animais doméstico e até “os de corte” – além do que já nos diz a neurociência animal.

Por mais restrições que eu tenha a várias vertentes do cristianismo, ao menos os rituais de sacrifício – tão presentes no Velho Testamento – foram substituídos, em muitos casos, pelos simbolismos do vinho (bebe-se o sangue) e da hóstia (canibaliza-se o corpo de Cristo). Assim, não se sangra animal, nem ingere-se carne humana – como o faziam os astecas em seus rituais. (Já pensaram se os descendentes indígenas na América Central reivindicassem o direito de seguir a tradição de seus antepassados??)


Está na hora de uma reconfiguração, creio eu. Até mesmo a religiosidade pode incorporar as novas compreensões humanas. Sugiro que ao invés de matar um cabrito ou bezerro, a pessoa corte o seu próprio braço e ofereça às deidades... O sangue vai ser muito semelhante, assim como a dor...


Reforço: não falo “só” das religiões de matriz africana. No Brasil é, provavelmente, a vertente religiosa que mais faz uso de sacrifício de animais, mas isso existe dentro do judaísmo e do islamismo (para falar dos monoteísmos), entre outros milhares de outros cultos existentes no mundo.

Comer animais é algo que se pode admitir, considerando que somos omnívoros, biologicamente adaptados para obter e digerir carne. Em alguns lugares, os vegetais são praticamente inexistentes, como em pontos do ártico ondem vivem esquimós; eles dependem completamente da carne – e vísceras, ossos, peles, gordura etc. – para sobreviverem.

Nos sacrifícios rituais, na minha visão, o bicho é morto sem que haja, digamos assim, uma “necessidade concreta”; o sangue “desperta” uma força que poderia ser “despertada” por outro elemento simbólico ou ato ritualístico sem a morte real do animal.


Como fiquei sabendo, é ótimo que já há uma preocupação entre lideranças religiosas afros. Nos movimentos que questionam a morte e exploração de animais pelos humanos (os veganos à frente) se usa o termo ESPECISMO, similar a RACISMO; assim como certos grupos humanos se achavam no direito de escravizar outros grupos, considerando-os “inferiores”, nós continuamos submeter os animais aos nossos caprichos, ou seja, explorando-os ao ponto de matá-los – até por “razões espirituais”! A arrogância humana não tem limites; nos achamos os dono de tudo no universo, criando teorias que nos põem no ápice da criação e nos autoriza a sacrificar outros seres em nome de concepções abstratas.


Eu sou pouco conhecedor (para não dizer ignorante) da religiosidade e cultos afros, mesmo que conviva com devotos desde piá, tenha frequentado terreiros e lido algumas coisas esparsas sobre o assunto (citei o Pierre Verger, por exemplo).


Pois é. Falei que a questão (sacrifício de animais) é polêmica. Sim, dá para usar a “defesa dos animais” como um instrumento/escudo para exercer o racismo contra os cultos de matriz afro. Creio que não é o meu caso e não deve ser o de muita gente sinceramente preocupada em fazer valer uma perspectiva menos antropocêntrica e de respeito à vida de todos os seres sencientes, superando o especismo, o “racismo” contra os animais – tidos como “inferiores” e passíveis de morte, como já aludi.

Ter cuidados com o bem-estar e a diminuição do sofrimento dos animais a serem abatidos já é bom. Mas continua sendo uma arbitrariedade dos homens/mulheres sacrificar um outro ser para satisfazer algum preceito religioso ou gula (aquilo que ultrapassa a necessidade nutricional – no meu conceito). Penso que se deve evitar o fundamentalismo religioso, o dogmatismo, tanto quanto se evitar o preconceito racista e outros. Com toda certeza, os rituais, a maneira de conduzir a religiosidade humana foi se alterando ao longo do tempo e sempre será assim – “uma metamorfose ambulante”.

Bem, o debate é infindável e precisamos de pessoas que tenham conhecimentos profundos sobre história das religiões, teologia, ética, biologia animal (humanos inclusos) etc. Não pode ser um debate somente entre religiosos, mas incluir outros campos do conhecimento humano e perspectivas de existência.


Desculpa se fiz alguém entender que os filiados a cultos de matriz afro são fundamentalista. Na minha argumentação, disse que se deve – de modo geral, referindo-se a todas as religiões e todas as pessoas (me incluindo, obvio) – evitar fundamentalismos, ou seja, as explicações dogmáticas, fechadas, sem chances para críticas.

O sacrifício de animais é uma questão, no meu entendimento, que exige uma compreensão não só da religiosidade (de matriz afro e outras que se usam do sacrifício), mas compreender também a postura de quem é contrário a morte e exploração – seja para qualquer fim – de animais, caso dos veganos, que são vegetarianos restritos. Contrapor-se argumentos, mantendo-se a abertura de um lado e outro (ou outros). Só assim há avanços, penso eu.

Não estou tendo grandes cuidados com as palavras e nem me detalhando. Como eu disse, o assunto é complicado e praticamente sem fim. Particularmente, digo mais uma vez, aboliria o sacrifício de animais nos cultos religiosos, mas entendo a enorme dificuldade de se chegar a esse termo por conta de tradições culturais que merecem o maior respeito. Mas esse mesmo respeito se deve a quem concebe os animais como seres senscientes, que não deveriam ser mortos por motivo religioso ou, mesmo, alimentar.

7 de fev. de 2012

Não é piada


Por duas vezes, recebi um e-mail que parece uma reação “bem humorada” (mas, para mim, extremamente problemática) às ações afirmativas voltadas à promoção da comunidade negra brasileira. São 17 “artigos” falando em cotas para “alemães”, penalidades a supostas ofensas raciais, dias comemorativos etc. Quando recebi, fiz um comentário e remeti-o como “resposta” a amigos. No segundo caso, expliquei à pessoa (uma professora) que estava reproduzindo o mesmo comentário, conforme segue abaixo.


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Olá, profa.

No mês passado um outro amigo também remeteu, através de uma lista de conversas via e-mail que eu participo, esse “projeto de lei”. Obviamente, se trata de um chiste, que pretende, com ironia, criticar as ações afirmativas vinculadas à promoção da população negra brasileira – mas que também envolve a população indígena, beneficiária nas reservas de vaga, como ocorre no ProUni, entre outros programas federais bastante exitosos.

Na ocasião que recebi o texto, enviei uma “resposta”, que vou colar mais abaixo. É um rápido e informal comentário feito para/entre amigos da supracitada lista, na maioria “leigos” no debate. Está longe de esgotar a questão, mas pode ser uma abertura para uma argumentação mais consistente sobre a procedência ou não do uso de cotas no Brasil.

Agradeço a tua atenção. Tudo de bom e fico à disposição.


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Hehe!!

Como disse o nosso camarada, como uma piada provocativa, fica bem. Mas vai até aí!

De fato, chamar alguém de "alemão porco" é racismo e se deve enquadrar o cara na hora, sem hesitação. Chamar o cara de "negro" como referência de origem étnico-racial (racial só existe em sentido ideológico, não biológico) não é ofensa alguma. Chamar o cara de "negro sujo" já é ofensivo e é passível de enquadrar como racismo ou, no mínimo, injúria. Há um mal entendido geral de que chamar alguém de negro é ofensivo, quando os próprios militantes se intitulam de “movimento negro”. Os equívocos já começam por aí e depois só pioram!!!

No item 03 usa-se a palavra "denegrir", ou seja, “torná-lo negro”, ou seja, rebaixá-lo, ofendê-lo... Sem querer, estão aí palavras que demonstram o nosso racismo institucionalizado, internalizado - como usávamos tranquilamente na infância a palavra "negrisse" para dizer que era algo exagerado e feio...

O racismo contra negros tem uma história longa, triste, cruel e massiva. Negros foram animalizados para justificar a escravização e viveram no Brasil, por quase 400 anos, abaixo do pau e do mais abjeto rebaixamento, além de uma exploração absurda do trabalho e outros sujeições indescritíveis, brutais. O passado não se apaga e, no caso, é uma maldição que ainda não expirou. Basta olhar as os estudos e estatísticas e ver os patamares socioeconômicos onde está a esmagadora maioria da população negra no Brasil – a maior nação negra após a Nigéria. Cito só dois estudiosos ainda referencias no assunto: Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes [foto acima]. Produziram estudos profundos e reflexões que todos deveríamos ter ao menos uma noção – para embasarmos nossas posições com mais dados e menos preconceitos e chavões reacionários.

As pessoas de “origem alemã” – uma designação imprecisa para uma população tão vasta e diversa (e considerando que a Alemanha sequer existia como país até 1870), que emigrou do norte da Europa aqui para a região, forçadas pela miséria crescente e tremendas injustiças sociais lá existentes, e, boa parcela, dentro de programas subsidiados com recursos do governo brasileiro (aliás, gerados pelo trabalho escravo), esses indivíduos e famílias recebiam, em suas primeiras levas aqui para Santa Cruz, em meados do século XIX, cerca de 72 hectares, além de ferramentas, utensílios, provisões de alimentos; aos negros após a abolição, o que lhes foi oferecido depois de gerações e gerações negras trabalhando feito bois de canga ou coisa pior?? Daí os efeitos sociais e culturais perversos, que não desaparecem facilmente. E então são necessárias ações que surtam efeito já, imediatamente; que o neguinho não precise esperar mais 100 anos para, por exemplo, se formar médico, engenheiro, professor universitários; políticas afirmativas como as cotas (alguns chama de “discriminação positiva”) é isso: "burlar" (ou vencer) as consequências funestas do passado de modo mais rápido, sem mais delongas. (Depois de equalizada e construída uma igualdade de fato, extingue-se a ação.)

E não se pense que o pobre branco é igual ao pobre negro; o negro pobre tem um "plus" de adversidade para enfrentar desde o nascimento – justamente o racismo. Para quem duvidar, posso remeter um estudo local, aqui de Santa Cruz do Sul, feito pelo historiador Alan Seitenfus, “Mobilidade social e processo de (re)democratização do Brasil”, traçando comparativos entre a mobilidade socioeconômica de brancos e negros da mesma classe – e aí se verá quanta diferença faz a cor da pele e o cabelo pixaim...

Enfim, não se criou políticas afirmativas, caso das cotas, baseando-se numa vontade de “ser bonzinho com os negros”. No frigir dos ovos, toda a população brasileira se beneficia com a equalização étnico-racial, diminuindo-se disparidades e conflitos advindos dos fossos (fossas?) sociais. Não dá mais para aceitar que, como acontece em quase todas as universidade brasileiras, onde, em seu quadro de professores, um número tão diminuto de docentes seja de pessoas negras, estando longe de refletir o percentual de afrodescendentes existentes em nível local e nacional. Será que isso acontece por “pura” incapacidade, falta de vontade da “negrada”? Eu penso que não. É o racismo agindo pelos seus sutis, mas poderosos filtros.

No Brasil temos um “apartheid” mais eficiente do que o havido na África do Sul e EUA – porque "cordial" e "não dito". E isso não se rompe só com palavreados, grandiloquências ditas do alto de nossa brancura e seus privilégios (naturalizados), de que “TODOS SOMOS IGUAIS”. É preciso considerar os fatos, os números e a história, e agir aqui e agora para diminuir injustiças e sofrimentos.

Abraços!

3 de fev. de 2012

Tradicional desde agora


A expressão reputada ao historiador Hobsbaw, “a invenção das tradições” (na verdade, título de uma obra sua em co-autoria), chama atenção pelo seu aparente paradoxo e por sua hodierna procedência quando analisamos vários fenômenos socioculturais (e não só questões ligadas a macropolítica), repercutindo nas identidades de pessoas e comunidades. Alguns desses fenômenos são bem prosaicos. Já mencionei outras vezes, mas volto ao campo da “gastronomia típica” a partir, também, de uma leitura de jornal, no caso, um reportagem no caderno Gastronomia de Zero Hora, edição de 20 de janeiro de 2012.

Com o título “Uma cantina italiana”, trata da “Culinária caseira e biscoitos [que] resgatam [a] gastronomia dos imigrantes italianos” em uma localidade interiorana do município de Severino Almeida, no Rio Grande do Sul. No “farto cardápio da Cantina”, frequentada por muitos turistas, vários com ítalo-descendência, há “outra especialidade típica da região, os biscoitos italianos”.

As guloseimas, que se poderiam acreditar fruto de receitas tradicionalísssimas, próprias da referida comunidade ítalo-brasileira desde tempos quase imemoriais, na verdade são “invenções” bastante recentes. Conforme nos conta a reportagem, “Três meses de pesquisa na Itália” deram subsídios a confeiteira da família proprietária da Cantina criar “uma linha de biscoitos [...] com 10 sabores que remetem a regiões italianas” (do país Itália de hoje, frise-se). A reportagem menciona o sucesso que as iguarias têm obtido, ultrapassando as fronteiras do pequeno burgo gaúcho.

Ou seja, há poucos anos atrás, em uma viagem a Itália, recolheram-se ideias e, de volta ao Brasil, criou-se uma linha de biscoitos que não havia, que nunca foram feitos e degustados nas colônias de ítalo-descendentes ao longo das suas histórias iniciadas no século XIX no Estado (RS). Mas que agora, por meio da experiência no estrangeiro e empenho da confeiteira da Cantina em Severino Almeida, se tornaram “especialidades típicas”... Mas "típicas" não no sentido de “antigas”, e , sim, de característico de um processo de “invenção da tradição”, sendo algo que potencializa as vendas dos confeitos, que se tornam elementos distintivos, portadores de um lustro histórico e identidade étnica valorizada. Poderíamos dizer que é um embuste, mas que funciona...

31 de jan. de 2012

Crack? E o álcool??

Segue parte de uma das reportagens da revista Em Discussão! de agosto de 2011, publicação do Senado Federal. Um exemplar chegou em minhas mãos. É um número especial tratando da “dependência química e ameça do Crack”.

Me chamou a atenção para a abordagem bastante corajosa. Primeiro, por dizer que há um alarmismo exagerado sobre o crack; segundo, por levantar o problema de uma droga muito mais capciosa, a começar pelo seu comércio praticamente livre e o estímulo massivo ao consumo: o álcool.

Fiz uns destaques (negrito) no texto. Retirei-o da internet. Dá para acessar na íntegra a revista:

http://www.senado.gov.br/NOTICIAS/JORNAL/EMDISCUSSAO/


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Álcool é uma droga mais problemática que o crack, dizem médicos

Chamados ao Senado para falar sobre problemas com drogas, especialmente o crack, médicos e psiquiatras, além de todos os representantes das comunidades terapêuticas, foram unânimes em alertar que o grande peso para a saúde pública é a dependência de álcool.

“Embora ainda não tenhamos dados confiáveis sobre o crack, o aumento da visibilidade não corresponde à magnitude do problema. Os problemas relacionados ao álcool são, de longe, muito mais significativos. O número de pessoas envolvidas e o custo econômico em relação ao álcool são infinitamente superiores aos do crack”, afirmou o psiquiatra Roberto Kinoshita, coordenador da área de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde.

“Notoriamente, o álcool representa a maior preocupação em relação à drogadição, por uma questão estatística irrefutável”, reforçou o vice-presidente do CFM, Carlos Vital Corrêa Lima.

“Acho que pedagogia é adotar a mesma atitude diante da substância predominante dos adultos [álcool]”, sugere o psiquiatra Carlos Alberto Salgado. Ele considera um paradoxo a sociedade brasileira se indignar tanto com a presença e a disponibilidade brutal do crack e ter uma atitude permissiva com relação ao álcool. Salgado lembra que, além dos danos causados ao organismo, o álcool é responsável por grandes prejuízos à sociedade, como no caso dos milhares de acidentes e vítimas fatais, causados por motoristas bêbados, principalmente nos feriados nas estradas brasileiras.

As afirmações se sustentam em todos os levantamentos realizados, que apontam o álcool como a droga mais consumida. Em 2007, Senad e Unifesp fizeram o 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População, segundo o qual a primeira experiência com álcool ocorre antes dos 14 anos. Cerca de 16% dos adolescentes entrevistados relataram beber pesado, o que aumenta riscos sociais e de saúde.


Alarmismo em relação ao crack só atrapalha, opinam especialistas

Enquanto a percepção do aumento do consumo de crack está estampada na imprensa, médicos que compareceram à subcomissão do Senado ponderaram que o alarmismo diante do crescimento do uso da droga não é necessário. Mais que isso, com base em dados sobre o consumo do crack em outros países, eles sugerem que pode haver estabilização do número de usuários no Brasil.

O psiquiatra Esdras Cabus Moreira citou estudo da Universidade Johns Hopkins (EUA) mostrando que as curvas de uso de crack e cocaína nos Estados Unidos vêm declinando, com tendência a se estabilizar, mesmo sem que se tivesse encontrado uma estratégia eficaz de prevenção ou de tratamento. Sendo assim, não seria preciso um alarmismo brasileiro sobre esse assunto.

Também os médicos Roberto Kinoshita e Carlos Alberto Salgado repetiram à subcomissão que um alarmismo com relação ao crack pode prejudicar a concepção de políticas públicas para combater a droga e, principalmente, tratar a dependência química de uma forma geral.


Medidas adequadas

Como exemplo do mal que o alarmismo pode fazer, Esdras citou a lei aprovada pelo Congresso americano durante a expansão do crack no país. Lá, os parlamentares foram informados que a droga era mais danosa e trazia mais violência e crime que a cocaína e, então, endureceram as leis para punir usuários. A partir daí, se uma pessoa fosse flagrada com 5 g de crack e outra com 500 g de cocaína, as duas, apesar de o princípio ativo ser o mesmo, ficariam sujeitas a sentença semelhante. O alarmismo americano tinha criado um forte desequilíbrio.

“Isso gerou crescimento enorme de pessoas presas no sistema penal americano e gerou disparidade racial grande nas prisões. Pelo alarde da mídia, pensava-se que o crack tinha relação grande com a violência. Mas as estatísticas de crime de violência de crack e cocaína não mostravam diferenças tão grandes que justificassem que o porte de 100 g de cocaína e de 1 g de crack levassem à mesma pena”, analisou Esdras.

Roberto Kinoshita acha que apenas com evidências científicas os agentes públicos terão a firmeza necessária para dimensionar e enfrentar a questão com medidas apropriadas. Para ele, é importante “não minimizar, mas sem alarmismo que possa gerar pânico e medo”.

“Uma sociedade que vive com medo, insegurança, sentimento de impotência, corre risco. Acuada, tende a abdicar de direitos por soluções de força, de menos civilidade. Esse talvez seja o maior risco que esse fenômeno traz”, analisa Kinoshita. [...]


FONTE: http://www.senado.gov.br/NOTICIAS/JORNAL/EMDISCUSSAO/dependencia-quimica/aumento-do-consumo-de-drogas/alcool-e-uma-droga-mais-problematica-que-o-crack-dizem-medicos.aspx

20 de jan. de 2012

Apocalypse Now


Bem ao contrário do que dizem os catastrofistas, os apocalípticos, esse pessoal sempre de plantão, apavorado e apavorando outros com alarmes sobre um iminente (agora sim!) “fim do mundo”; dizendo que a humanidade vive um período de violências nunca antes acontecidos, com calamidades, conflitos e mortes absurdamente altos e inigualáveis em toda a história dos seres humanos no planeta; bem ao contrário disso, há muitos indícios de que o que ocorre de fato é o contrário.

Observo que muitos desses “profetas” frequentemente estão de mal com o seu tempo, nostálgicos de uma época de ouro perdida (na sua infância ou num passado recente, às vezes puramente ficcional), e sedentos de um fim para suas angústias e frustrações, desejando, assim, um “choque total”, que “zere” a vida – deles mesmo e de todos os demais (já que, na verdade, “o inferno são os outros”).

Com os meus amigos “adeptos” de “O Fim Está Próximo” costumo contra-argumentar que houve períodos e acontecimentos históricos em que a situação foi muito mais terrível, dramática, “apocalíptica” do que o que assistimos nesses nossos anos de vida, ou seja, as décadas que vão dos anos de 1960 até os primeiros anos da segunda década do século XXI (pela contagem gregoriana, obviamente, e considerando a minha geração). Bastaria imaginar-se em meio aos conflitos vividos por milhões de pessoas nos anos da 2ª Guerra Mundial, por exemplo – campos de concentração, bombas atômicas, ataques de aviões à população civil, fome, desespero, assassinatos em alta escala, crueldades mil.

Mas há quem não se convença e continue aferrado em suas “esperanças” de que “a civilização está nas últimas”.

Pois em entrevista para a revista Veja de 04/01/12, o psicólogo canadense Steven Pinker (foto acima, em uma conferência), pesquisador e professor da prestigiosíssima Universidade de Harvard e autor de vários livros, diz que

“a humanidade passa por seu mais pacífico período histórico”.

Sobre a percepção/sensação de que vivemos, enquanto humanidade contemporânea, em meio a muita conturbação, ele observa que

“A mente humana é vulnerável a enganos e ilusões. Nossas impressões sobre o quão violento e cruel é um determinado episódio devem-se à nossa memória, que sempre é contaminada pelas emoções que sentimos quando presenciamos ou vivenciamos algo.”

Pinker quer evitar conclusões baseadas em “impressionismos”, em opiniões sem fundamento científico, que dão vazão a ideias fantasiosas:

“Com ajuda da alta tecnologia podemos agora não apenas teorizar sobre o grau de barbárie da pré-história, mas estimar com precisão o número altíssimo de pessoas que morriam massacradas por inimigos. Nada autoriza a ideia tão disseminada de que o passado humano foi bucólico, pastoril e pacífico. Há poucos séculos matavam-se pessoas com base em superstições avalizadas pela hierarquia religiosa, a escravidão era oficial e apenas discordar da opinião vigente podia equivaler a uma sentença de morte.”

A consolidação da democracia, do estado de direito, da ciência e do desenvolvimento intelectual – em que pese tantas falhas e desgraças ainda existentes e que tanto nos alarmam – têm diminuído a violência interpessoais e grupais (considerando, proporcionalmente, o tamanho da população humana nas diferentes épocas). Concluir que vivemos “tempos apocalípticos”, onde há um “completo desrespeito na convivência”, pode ser até interessante para tomarmos atitudes que não reforcem isso. Mas objetivamente, considerando um todo e não a nossa própria sensação, afirmar que “é o fim da picada” é alarmismo sem consistência.

Na Wikipedia tem um artigo sobre Pinker, com mais detalhes sobre suas biografia e bibliografia, além de links – até mesmo para a entrevista na Veja:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Steven_Pinker

***Uma citação do autor retirada da entrevista e que achei interessante de um modo bem amplo, além do assunto em questão:

“O cérebro humano evolui de forma a sempre advogar a favor de si próprio. Somos os mais devotos defensores de nós mesmo. A primeira reação ao sermos confrontados com o fato de termos feito algo ruim é tentar nos convencer e aos outros de que aquilo não foi tão grave. A segunda é transferir a responsabilidade”.

Nostalgia - com Bowie e Pat


Venho todos os dias pro trabalho escutando a Atlântida. Não é exatamente uma escolha. O rádio que temos no carro é dos mais vagabundos e está com problemas desde que compramos o carro (o rádio veio de “brinde”). Como sou muito “descansado”, vou deixando assim. E assim escuto vários dias da semana, lá pelas 7 e meia, 8 horas da manhã, o programa apresentado pelo “Mr. Pi”, Porã e Cagê. O Cagê já escutava algumas vezes na Itapema – ele apresenta um programa de rock e blues dos mais interessantes. O Pi também, em algumas madrugadas, com sua fauna de convidados e filosofanças. Esses três radialistas têm história, como vocês sabem. E o som na Atlântida nesse horário matutino acaba por ter uns diferenciais bem marcantes em relação ao restante da grande parte da programação dessa FM da RBS. Tocam Led, Police, AC, Hendrix, Rush, Cure, Caetano, Chico Buarque – em plena manhãzinha. Claro que também toca uns sons do Jota Quest, por exemplo, que não curto e acho uma cópia mal-feita do Coldplay (mas devo alertar que não saco coisa alguma de música; opino baseado no meu [mal] gosto momentâneo ou alguma intuição sonora, digamos assim). Além do popurri de canções, o trio dá um dinamismo ao rádio, e que é a grande diferença do escutar-se uma lista gravada num pendrive, ou seja, ter pessoas ao vivo, interagindo contigo... (O chato é ter que levar junto na programação tanta propaganda-lixo nos “shows do intervalo” – show de horripilação e enfiação de poluição estética e ideológica, com honrosas exceções.)

Tudo isso pra dizer que esses dias eles tocaram um clássico “oitentista” do Bowie e Pat Metheny Group, This Is Not America. Meudeus!! Quanto tempo não escutava aquilo. Totalmente 1985, lembrando muito Bryan Ferry também. E me veio uma avalanche de lembranças. Como esses caras são bons fazendo pop! Bowie e Pat são fundamentais na cultura musical contemporânea – ao menos na minha parca concepção.

A canção fez/faz parte da trilha sonora do filme (que nunca vi e nem sabia coisa alguma dele) A Traição do Falcão (The Falcon and the Snowman, EUA, 1985), estrelado por Sean Penn (novinho!), entre outras pessoas de referências do cinemão americano e mundial. A trilha do filme é do Pat Group e existe um álbum (com o mesmo título do filme - na ilustração da postagem) onde está em destaque o This Is Not...

Segue um endereço do Youtube com a canção em sua versão original, onde vai rolando imagens do filme. Tem outras, até uma ao vivo do Bowie e sua banda (formação mais recente). Mas fico com a da gravação original, por ter todo o climão, as sonoridades dos meados de 1980 - uma época onde eu e meus amigos de então estávamos no auge da juventude, já entrando, devagarinho, no mundo adulto, cheios de hesitações e expectativas...

http://www.youtube.com/watch?v=MJRF8xGzvj4/