6 de jun. de 2012
A Vila
Vindo para o trabalho, quase sempre passo em frente a um dos mais antigos e “luxuosos” condomínios fechados da cidade. Há anos fico meditando sobre a situação das pessoas montarem uma espécie de cidade paralela, murada, com equipamentos de segurança e guarda permanente, controlando totalmente a entrada e saída de todos (uma polícia privada, como tudo o mais). Dentro daquele espaço, não há cercas (a não ser as meramente estéticas) e as crianças brincam pelos gramados, calçadas e ruas com muita faceirice e a tranquilidade para os pais. É um mundo ideal – caso não pensemos muito no entorno, para aquilo que está além do “fosso dos jacarés”; as ameaças crescentes, a hostilidade cada vez mais aguda das ruas, das praças públicas, das escolas públicas... É por isso que, para se sair de lá, não bastam automóveis “comuns”: terão que ser com os mais atuais recursos de segurança e conforto e, principalmente, de segurança; e nesse quesito, caminhonetes e outros de tamanho avantajado, de preferência blindados, com sistemas de rastreamento, etc. são os preferidos do “pessoal de dentro” (os incluídos), dá para observar.
Medo. Para escaparmos disso, criamos essas “ilhas” – ilhas artificiais, com toda comodidade, mesmo que cercada de tubarões, para usar outra imagem de animais agressivos (os jacarés aludem aos castelos medievais, de reinos cercados por bárbaros, vândalos e outros grupos).
Mas hoje o que me veio à mente ao avistar o topo das belas – e caras – casas de sonhos (já que o muro alto não permite uma visão maior) foi o filme do diretor indo-americano M. Night Shyamalan, A Vila. Tornado cult por filmes como Corpo Fechado, 6º Sentido, Sinais... os últimos filmes Shyamalan não tiveram o mesmo impacto. Eu gostei de todos – sempre há algo “fora do comum” no seu cinema pop. Mas o meu preferido, depois a A Dama na Água, é este A Vila.
A Vila retrata uma comunidade clássica do Estados Unidos do século XIX. Pulando muitos e muitas partes, se verá tratar-se de um “mundo artificial”, mantido por um pacto dos fundadores e mecanismos que impedem qualquer “desconfiança". É o caso da história sobre um terrível monstro a espreita no além-fronteira do povoado e o desvio de rotas no espaço aéreo sobre “a vila”.
Mesmo com todos os cuidados, acontecimentos imprevistos forçam o contato com a “realidade maior” – adiante do muro -, e então todo o bucolismo passadista cai por terra...
Volta e meia, as “Vilas” da cidade sofrem interrupções na anestesia social dada pelo isolamento, pela contenção (um presídio de luxo, se poderia dizer). O drama externo, a violência cotidiana, aparece de diversas formas – endógena e exogenamente (um acontecimento interno ou uma “invasão” jamais esperada).
Fica uma dica e uma possibilidade de reflexão.
SINOPSE
A Vila (The Village, EUA, 2004)
Diretor: M. Night Shyamalan
Em 1897 uma vila parece ser o local ideal para viver: tranquila, isolada e com os moradores vivendo em harmonia. Porém este local perfeito passa por mudanças quando os habitantes descobrem que o bosque que o cerca esconde uma raça de misteriosas e perigosas criaturas, por eles chamados de "Aquelas de Quem Não Falamos". O medo de ser a próxima vítima destas criaturas faz com que nenhum habitante da vila se arrisque a entrar no bosque. Apesar dos constantes avisos de Edward Walker (William Hurt), o líder local, e de sua mãe (Sigourney Weaver), o jovem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) tem um grande desejo de ultrapassar os limites da vida rumo ao desconhecido. Lucius é apaixonado por Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), uma jovem cega que também atrai a atenção do desequilibrado Noah Percy (Adrien Brody). O amor de Noah termina por colocar a vida de Ivy em perigo, fazendo com que verdades sejam reveladas e o caos tome conta da vila.
FONTE: www.adorocinema.com
24 de mai. de 2012
Sobre a final do último Gauchão
Apesar de colorado desde os meus “primórdios”, torci para o Caxias nas partidas decisivas do Gauchão (torci é modo de dizer; na verdade, acompanhei por alto os jogos). Já faz alguns anos, tenho meus critérios bastante “fluídos” para torcer em competições de futebol e outros certames. Por exemplo, na Copa do Mundo passada, meu time foi o Uruguai (esse país que acho tão simpático), e fiquei muito contente que eles chegaram bastante longe na competição – mais longe, aliás, que o “todo poderoso” Brasil... (Eu comentei também que uma empresa gaúcha de calçados, a Pegada, patrocinou, com baixos custos, os sapatos que a desacreditada delegação uruguaia usaria fora de campo; com a projeção da “celeste”, a empresa viu o seu merchandising frutificar como nunca! Enquanto os patrocinadores da seleção brasileira...)
Torcer para o Caxias é decentralizar o futebol da capital e do megaclubes como o Inter e o Grêmio, seu cartolas e demais mercenários. Mesmo que o Caxias não seja um Guarani de Venâncio ou Avenida de Santa Cruz da vida, muito menos alguma coisa como os times amadores do interior do município, onde todos jogam, de fato, por “amor à camiseta”, o time da serra gaúcha é um Davi perto de um Golias. Li no jornal que toda a folha de pagamento de jogadores do Caxias é 1/3 do que ganha o D’Alessandro...
Torcer pelo Inter é torcer pelo time que teria obrigação de ganhar, tal a superioridade dos milhões investidos – o futebol como um negócio, e negócio escuso muitas vezes, emocionando torcedores fiéis (e a palavra aqui é boa, porque também se refere a igrejas e a facções religiosas fundamentalistas) e enchendo o bolso de boçais. O Caxias ganhando, projetaria vários talentos interioranos e marginais do futebol, quebrando, também, ao menos um pouco, esse revezamento “Inter-Grêmio”, que acaba dificultando sugando o surgimento de outros times de importância (até pela compra de jogadores, que, mal se destacam, já são levados pelos dois adiposos clubes da capital).
Pode ser meio imbecil esses raciocínios, mas também é um jeito de não se angustiar (como acontecia comigo na pré-adolescência) com alguma coisa que não passa de uma simulação de guerra tribal; como somos – ainda que de modo atrofiado –, caçadores-coletores, temos necessidade de rituais e uma boa pancadaria de vez em quando... (Me parece fundamental saber diferenciar o que é um meio lúdico de dissipação e o que são questões vitais da vida do indivíduo e da sociedade... O futebol não precisa ser o cachimbo de crack que sempre voltamos a acender viciosamente. Futebol é, em essência, uma brincadeira para qualquer idade.)
Torcer para o Caxias é decentralizar o futebol da capital e do megaclubes como o Inter e o Grêmio, seu cartolas e demais mercenários. Mesmo que o Caxias não seja um Guarani de Venâncio ou Avenida de Santa Cruz da vida, muito menos alguma coisa como os times amadores do interior do município, onde todos jogam, de fato, por “amor à camiseta”, o time da serra gaúcha é um Davi perto de um Golias. Li no jornal que toda a folha de pagamento de jogadores do Caxias é 1/3 do que ganha o D’Alessandro...
Torcer pelo Inter é torcer pelo time que teria obrigação de ganhar, tal a superioridade dos milhões investidos – o futebol como um negócio, e negócio escuso muitas vezes, emocionando torcedores fiéis (e a palavra aqui é boa, porque também se refere a igrejas e a facções religiosas fundamentalistas) e enchendo o bolso de boçais. O Caxias ganhando, projetaria vários talentos interioranos e marginais do futebol, quebrando, também, ao menos um pouco, esse revezamento “Inter-Grêmio”, que acaba dificultando sugando o surgimento de outros times de importância (até pela compra de jogadores, que, mal se destacam, já são levados pelos dois adiposos clubes da capital).
Pode ser meio imbecil esses raciocínios, mas também é um jeito de não se angustiar (como acontecia comigo na pré-adolescência) com alguma coisa que não passa de uma simulação de guerra tribal; como somos – ainda que de modo atrofiado –, caçadores-coletores, temos necessidade de rituais e uma boa pancadaria de vez em quando... (Me parece fundamental saber diferenciar o que é um meio lúdico de dissipação e o que são questões vitais da vida do indivíduo e da sociedade... O futebol não precisa ser o cachimbo de crack que sempre voltamos a acender viciosamente. Futebol é, em essência, uma brincadeira para qualquer idade.)
11 de mai. de 2012
Glória
Num daqueles acasos (talvez não seja o termo adequado), depois de ter postado um comentário sobre a fé depositada em relíquias, no caso, as capelinhas de Shoenstatt, que remete ao culto da Virgem Maria, ícone religioso católico recorrente em aparições, sendo uma das mais famosas aqui no Brasil a de Fátima (Nossa Senhora de Fátima), pois depois disso me deparo com uma interessantíssimo artigo “A ciência da glória”, publicado na Scientific American Brasil, edição 117, de fevereiro 2012.
No artigo, o professor de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, H. Moysés Nussenzveig, ganhador do prêmio Max Born da Optical Society of America, desenvolvendo “abordagens teóricas inovadoras numa ampla gama de fenômenos ópticos e atualmente pesquisa biofísica celular”, apresenta uma síntese, justamente, de um fenômeno atmosférico que causa impressionantes visualizações, chamado de “glória” – em alusão, sim, às pinturas e relatos de formas corporais iluminadas, em especial na cabeça (aurelas), caso dos “santos” em várias iconografias religiosas de várias crenças, não só cristãs.
O objetivo da matéria do físico brasileiro Nussenzveig não é desmistificar aparições de virgens e outras deidades (ele nem toca nesse assunto), mas de entender cientificamente “Um dos mais belos fenômenos na meteorologia [e que] tem uma explicação surpreendentemente sutil” e, assim, auxiliar “a prever o papel que as nuvens terão na mudança climática”. Entretanto, eu fiquei a pensar (como dizem os lusitanos) que quantas e quantas “aparições” podem ser explicadas como visualizações desse fenômeno físico-químico ocorrendo em determinadas condições atmosféricas e posicionamentos visual da(s) pessoa(s).
Observem a ilustração de Alfred T. Kamajian que reproduzo (divulgação) abaixo e está na matéria, acessível pelo link
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/a_ciencia_da_gloria.html
Comparem com a ilustração da aparição da Nossa Senhora de Fátima...
E tirem suas própria conclusões...
Pessoas já sensibilizadas/educadas/instruídas pela educação religiosa, vendo figuras de santos e santas, em um certo dia local “propícios”, vêm a projeção – com halos coloridos, neblina e sombras – de seus próprio corpos “no ar”... Imediatamente associam aquilo a uma divindade, desencadeando reações emocionais das mais diversas... Não será muito difícil que concluam que a imagem esteja “falando com elas”, dando à observação de um fenômeno puramente ótico-atmosférico atributos “extras”, advindo da imaginação (mantos cintilantes, rostos lívidos, lágrimas copiosas, vozes tristes etc.).
E mais: a mesma situação de visualizações “incrementadas” pela emotiva imaginação não pode ser dita sobre os “contatos imediatos” com figuras prateadas ou cinzas saídas de discos voadores?
Vejam a ilustração...
Mais uma ligação – para mim ao mesmo tempo interessante e triste – entre ufologia e misticismo religioso. A ufologia como uma continuidade do messianismo religioso, e não uma investigação pautada na objetividade científica, calcada nos conhecimentos e tecnologias de investigação mais avançados. Continuamos, numa contradição de palavras, “beatos ufológicos”...
***Num site devoto da Nossa senhora de Fátima localizei um histórico dos acontecidos, que culminaram num novo culto a essa figura polinômica, que teria sido a mãe de Jesus Cristo.
As três crianças costumavam apascentar as suas ovelhas em propriedades da família. Um dia, pela primavera de 1916, tiveram de se abrigar de uma chuva passageira, numa pequena caverna a que chamavam “loca do Cabeço”. Aí continuaram a brincar pelo dia afora, até que sentiram um vento forte sacudir as árvores e, ao levantarem os olhos, vêem encaminhar-se para elas “um jovem dos seus 14 ou 15 anos, mais branco que se fora de neve” – como o descreveu Lúcia, que narrou assim a aparição:
“Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: ‘Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (...). Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.’ Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: ‘Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas’. E desapareceu.”
Percebam que no próprio relato cita-se condições ambientais (caverna no campo) e atmosféricas (chuva passageira, vento forte), cuja combinação – junto com a posição das crianças – poderia, somado a predisposições psicológicas, produzir a “aparição”, no caso, de um jovem “anjo” - “mais branco que se fora neve”.
Na última “aparição”, o texto diz o seguinte:
Abrindo as mãos – continua a narração de Lúcia – fez com que elas refletissem no Sol, e, enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol. (...) Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!”
Chegara o grande momento do milagre! O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: “O sol, momentos antes, tinha rompido a densa camada de nuvens (...). Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas sem magoar. (...) Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...). Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...). Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...”
Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, às três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem. Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: “Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.”
Os incrédulos explicaram que tudo isso era um caso de “histeria em massa”. Mas quando depois se soube que o fenômeno fôra visto e registrado por grupos independentes localizados até cinqüenta quilômetros longe de Fátima, os críticos incrédulos se calaram.
Que “os críticos incrédulo se calaram”, duvido muito. A narração novamente se refere a situações ambientais e atmosféricas peculiares (o “sol rompendo imensa camada de nuvens”; “o sol encarado através do nevoeiro”), afora, novamente, uma predisposição coletiva (“gritos de angústia, “multidão jubilosa e aterrada”) para transformar, como se diz, “uma lagartixa em jacaré”... A hipótese da “histeria em massa” para mim é muito boa: produto de fenômenos atmosféricos perfeitamente naturais, catalizado por expectativas, emoções “a flor da pele”, induções religiosas.
No artigo, o professor de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, H. Moysés Nussenzveig, ganhador do prêmio Max Born da Optical Society of America, desenvolvendo “abordagens teóricas inovadoras numa ampla gama de fenômenos ópticos e atualmente pesquisa biofísica celular”, apresenta uma síntese, justamente, de um fenômeno atmosférico que causa impressionantes visualizações, chamado de “glória” – em alusão, sim, às pinturas e relatos de formas corporais iluminadas, em especial na cabeça (aurelas), caso dos “santos” em várias iconografias religiosas de várias crenças, não só cristãs.
O objetivo da matéria do físico brasileiro Nussenzveig não é desmistificar aparições de virgens e outras deidades (ele nem toca nesse assunto), mas de entender cientificamente “Um dos mais belos fenômenos na meteorologia [e que] tem uma explicação surpreendentemente sutil” e, assim, auxiliar “a prever o papel que as nuvens terão na mudança climática”. Entretanto, eu fiquei a pensar (como dizem os lusitanos) que quantas e quantas “aparições” podem ser explicadas como visualizações desse fenômeno físico-químico ocorrendo em determinadas condições atmosféricas e posicionamentos visual da(s) pessoa(s).
Observem a ilustração de Alfred T. Kamajian que reproduzo (divulgação) abaixo e está na matéria, acessível pelo link
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/a_ciencia_da_gloria.html
Comparem com a ilustração da aparição da Nossa Senhora de Fátima...
E tirem suas própria conclusões...
Pessoas já sensibilizadas/educadas/instruídas pela educação religiosa, vendo figuras de santos e santas, em um certo dia local “propícios”, vêm a projeção – com halos coloridos, neblina e sombras – de seus próprio corpos “no ar”... Imediatamente associam aquilo a uma divindade, desencadeando reações emocionais das mais diversas... Não será muito difícil que concluam que a imagem esteja “falando com elas”, dando à observação de um fenômeno puramente ótico-atmosférico atributos “extras”, advindo da imaginação (mantos cintilantes, rostos lívidos, lágrimas copiosas, vozes tristes etc.).
E mais: a mesma situação de visualizações “incrementadas” pela emotiva imaginação não pode ser dita sobre os “contatos imediatos” com figuras prateadas ou cinzas saídas de discos voadores?
Vejam a ilustração...
Mais uma ligação – para mim ao mesmo tempo interessante e triste – entre ufologia e misticismo religioso. A ufologia como uma continuidade do messianismo religioso, e não uma investigação pautada na objetividade científica, calcada nos conhecimentos e tecnologias de investigação mais avançados. Continuamos, numa contradição de palavras, “beatos ufológicos”...
***Num site devoto da Nossa senhora de Fátima localizei um histórico dos acontecidos, que culminaram num novo culto a essa figura polinômica, que teria sido a mãe de Jesus Cristo.
As três crianças costumavam apascentar as suas ovelhas em propriedades da família. Um dia, pela primavera de 1916, tiveram de se abrigar de uma chuva passageira, numa pequena caverna a que chamavam “loca do Cabeço”. Aí continuaram a brincar pelo dia afora, até que sentiram um vento forte sacudir as árvores e, ao levantarem os olhos, vêem encaminhar-se para elas “um jovem dos seus 14 ou 15 anos, mais branco que se fora de neve” – como o descreveu Lúcia, que narrou assim a aparição:
“Estávamos surpreendidos e meio absortos e não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós, disse: ‘Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (...). Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.’ Depois de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse: ‘Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas’. E desapareceu.”
Percebam que no próprio relato cita-se condições ambientais (caverna no campo) e atmosféricas (chuva passageira, vento forte), cuja combinação – junto com a posição das crianças – poderia, somado a predisposições psicológicas, produzir a “aparição”, no caso, de um jovem “anjo” - “mais branco que se fora neve”.
Na última “aparição”, o texto diz o seguinte:
Abrindo as mãos – continua a narração de Lúcia – fez com que elas refletissem no Sol, e, enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projetar-se no sol. (...) Foi ao ver isto que exclamei: - Olhem para o sol!”
Chegara o grande momento do milagre! O Dr. Almeida Garrett narra o que presenciou nas seguintes palavras: “O sol, momentos antes, tinha rompido a densa camada de nuvens (...). Pude vê-lo semelhante a um disco de bordo nítido e aresta viva, luminosa e reluzente, mas sem magoar. (...) Também se não confundia com o sol encarado através do nevoeiro (...). Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fitar o astro (...) sem uma dor nos olhos (...). Este fenômeno (...) devia ter durado cerca de dez minutos. (...) Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. (...) Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada. De repente, ouve-se (...) um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e, sanguíneo, avança sobre a terra (...). São segundos de impressão terrífica...”
Enquanto a multidão assistia ao prodígio, entre jubilosa e aterrada, às três crianças eram dadas ainda as visões da Sagrada Família, de Cristo abençoando o povo e de novo a da Virgem. Sobre o milagre do sol, escreveu o Bispo de Leiria, mais tarde, em Carta Pastoral, estas palavras serenas e definitivas: “Este fenômeno que nenhum observatório astronômico registrou e, portanto, não foi natural, presenciaram-no pessoas de todas as categorias e classes sociais, crentes e descrentes, jornalistas dos principais diários portugueses e até indivíduos a quilômetros de distância, o que destrói toda a explicação de ilusão coletiva.”
Os incrédulos explicaram que tudo isso era um caso de “histeria em massa”. Mas quando depois se soube que o fenômeno fôra visto e registrado por grupos independentes localizados até cinqüenta quilômetros longe de Fátima, os críticos incrédulos se calaram.
Que “os críticos incrédulo se calaram”, duvido muito. A narração novamente se refere a situações ambientais e atmosféricas peculiares (o “sol rompendo imensa camada de nuvens”; “o sol encarado através do nevoeiro”), afora, novamente, uma predisposição coletiva (“gritos de angústia, “multidão jubilosa e aterrada”) para transformar, como se diz, “uma lagartixa em jacaré”... A hipótese da “histeria em massa” para mim é muito boa: produto de fenômenos atmosféricos perfeitamente naturais, catalizado por expectativas, emoções “a flor da pele”, induções religiosas.
25 de abr. de 2012
A fé e o caminhão
O jornal santa-cruzense Gazeta do Sul de 18/04/12, na sua página 12, publicou uma reportagem sobre as famosas capelinhas de Schoenstatt – uma delas, inclusive, circula lá por casa uma vez por mês mais ou menos.
Tudo começou com um comerciante, João Pozzobon, “um homem de muita fé”, que recebeu uma capela de irmãs da congregação Schoenstatt durante um retiro espiritual em Santa Maria no ano de 1950.
“Ele ganhou o presente [das irmãs Schoenstatt] como uma missão e, durante 35 anos, noite após noite, no inverno ou verão, levou a imagem de casa em casa, aos hospitais, escolas, presídios e outros.”
Chegou a criar calo no ombro, pois a capela original era pesada, 8 quilos, obrigando-o a usar tal apoio. Andava a pé por trechos de até 15km.
Mas uma coisa não deu bem certo...
“João morreu atropelado em 1985, quando se dirigia para a missa com a imagem”, diz a reportagem.
Putz!
Fiquei imaginando o seu Pozzebon, com a santa em baixo do braço ou no ombro, atravessando a rua, a igreja logo adiante... Num descuido, não vê o caminhão que vem em alta velocidade e BAMMM!!! Rolam no chão o devoto e a capela da santa espatifada...
Chega a ser tragicômico. Como isso pode acontecer? Onde estava as bênçãos e proteção do amuleto católico, tchê?! Para que serviram tamanha devoção do seu Pozzobon? A essa altura, era um devoto já idoso e.. não mereceria uma morte menos estúpida, brutal? Mais tranquila, durante o sono, sendo conduzindo pela mão da santa e anjos? Qual é a lógica disso? Como explicar, senão usando de subterfúgios do tipo “mas sua morte poderia ser ainda pior”... Mas pior que ser estupidamente atropelado?!
Eu até queria colar a reportagem aqui pra vocês, ou colocar o link, mas, não sei porquê, não foi publicada na versão eletrônica do jornal... Será que é porque a coisa ficou estranha? Revelar algo que contradiz a suposta proteção obtida pela fé na santa? De fato, ter mencionado o acontecido com o seu João desabona muito o amuleto!
A fé exige esforços de altíssima irracionalidade. Nega-se, assim, o que, acho eu, é a marca principal do animal humano, que lhe faz transcender – ao menos um pouco – a sua condição biológica, de ser da natureza, ou seja, nega-se o pensar racional, baseado em evidências sistemáticas, em comprovações fidedignas. Entretanto, vigora o obscurantismo, apesar de todas as evidências que minam as inúmeras crendices, lendas e explicações sem pé nem cabeça (nonsense!), disparates, superstições.
Aposto que a reportagem, lida por um devoto, mesmo que com a atenção, no máximo vai dar uma arranhada na “fé”; a seguir, a pessoa – por conta de alguma “necessidade” (ou seria embotamento emocional ou do pensamento?) – vai continuar indo convictamente na procissão, inclusive raspando os joelhos no asfalto...
A capela foi reformada após o acidente. E seu Pozzebon, ao invés de ser o exemplo das falhas e contradições da fé, numa “ultranegação” do acontecido – sua morte trágica com a santa na mão sem lhe avisar do descuido ao atravessar uma rua –, deverá ser canonizado. Há todo um esforço para que “milagres concedidos por João” seja comprovados... (Milagre são tantas pessoas persistirem cultuando a santa e seu devoto!)
Todo caso, recomendo: Ao atravessar a rua, com ou sem santa, muito cuidado com o caminhão...
* O Papa João Paulo II (se não me engano) ter levado um tiro é também uma baita ironia, já que é o representante-mor do Deus dos Católicos. Ele, o Papa, creditou a sua salvação na época à "mão da Nossa Senhora" (não sei qual das milhares de denominações), que teria desviado a bala; caso contrário, seria fulminante. Como mencionou o biólogo Dawkins, o "sumo pontífice" não falou das mãos do cirurgiões, que durante seis horas o operaram... A invés de creditar (ao menos em boa parte) às habilidades dos profissionais médicos e a ciência e tecnologia a sua recuperação, creditou em primeiro lugar a uma aparição lendária e seu poder miraculoso incomprovado... Bem, a crítica que eu estou tentando fazer é direcionada aos adeptos de relíquias de proteção e de pedidos de bênçãos "clássicas" do catolicismo, mas pode servir a inúmeras outras superstições. Óbvio que não estou querendo ofender pessoalmente ninguém, mas seis que isso é impossível quando se trata de religião(e futebol...); quero levantar uma contradição flagrante, quando um devoto ferrenho não recebe a proteção do seu amuleto. No caso do seu João Pozzobon, como eu mencionei, se o acontecido não fosse realmente trágico, poderia ser hilário ("humor negro"); mas mesmo com todos esses componentes de suprema ironia, quando um grande fiel acaba por não ter a proteção do seu objeto de culto (que portava no momento, inclusive), mesmo assim parece que a fé, depois de umas balançadas na cabeça das pessoas, volta em sua firmeza irracional...
** Há quem diga, como sábio Roxão K., que o humano, de um modo geral, precisa acreditar em histórias que lhe tirem um pouco o medo da morte, que falem da continuidade da vida e de sua proteção pessoal num mundo extremamente hostil. Acho que devemos é nos esforçar para vivermos todos bem, aqui e agora, ajudando a criar um mundo acolhedor, de fraternidade, para além (ou aquém!) de crenças em anjos e demônios...
*** O citado Dawkins (Richard) é uma ferrenho combatente do obscurantismo religioso, inclusive por parte de cientistas "crentes". Ele não poupa nem agnósticos como eu. Acho os seus trabalhos muuuuuito importantes na atualidade, quando, na segunda década do século XXI, continuam a proliferar concepções das mais estapafúrdias, milenaristas, arcaicas, emburrecedoras, em choque com o conhecimento e tecnologia que já geramos. É o caso já comentado do Criacionismo - proposto em escolas norte-americanas para substituir (ou voltar a vigorar) no lugar da biologia evolucionista iniciada por Darwin e outros; a Bíblia ainda seria a descrição correta (e literal) para o surgimento da vida...
19 de abr. de 2012
O rapaz não fazia a barba, nem cortava o cabelo, passeando à noite solitário... pois foi preso e morto em 1976 em Buenos Aires
Em 18 de março de 1976 o pianista brasileiro Francisco Tenório, em turnê junto com Vinícius e Toquinho em Buenos Aires, “caminhava solitário quando foi jogado para dentro de uma Ford Falcon na esquina da Av. Corriente com a Rua Rodrígues Peña”, centro da capital argentina, conforme reportagem saída em ZH de sexta-feira passada, 13 de abril. Nunca mais foi localizado. A família até já recebeu a indenização do governo argentino pelo desaparecimento do músico, mas nada de seu corpo, perdido em algum cemitério clandestino ou fundo de rio ou mar. Tinha, então, 35 anos.
Francisco Tenório, o Tenorinho, não era militante político, nem envolvido em algum movimento de contestação, mas foi levado por quatro homens mal-encarados, e se sabe que ficou trancafiado na Escola de Mecânica da Marinha (Esma) da Argentina. Não passou de um engano: “Foi sequestrado por ostentar cabelo comprido e barba, um protótipo de esquerdista”, diz a reportagem... Imagine-se o interrogatório... o cara sempre negando, e aumentando as pancadas, os choques, o sufocamentos... A ação bárbara já fazia parte da união de governos e facções de direita dos países do Cone Sul, perseguindo militantes ou simpatizantes "comunistas". Ou que assim parecesse, caso do jovem pianista - mas já pai de família - Tenorinho.
Alguns sentem saudades da ditadura. Nostálgicos, filtrando só o melhor de um tempo, esquecem que até os pacatos ou alienados ou até empolgados pelo regime podiam acabar numa fria – numa câmara fria, talvez, além de um calvário de humilhações, torturas e, ao final, a morte cruel – tudo em nome da “ordem”, de “Deus”, da “liberdade”, da “pátria”, ou seja, do reacionarismo e moralismo carola recheado de burrice e hipocrisia – e mais uma bom bocado de grana da CIA e vantagens do mando, ou seja, ladroagens variadas, desde tráfico de influência (um emprego para o sobrinho num banco estatal ou para a amante numa repartição pública qualquer), até milhões em contas particulares em paraísos fiscais. Eis os nossos intrépidos militares sul-americanos e seus aliados vinculados a “revolução” de 1º de abril de 1964! Pena que o golpe não foi uma mentira total...
Saindo das barbaridades de militares e polícia no tempo das ditaduras, dá para se perguntar: quantas e quantas vezes somos enganados pelos estereótipos, as imagens padronizadas. Roupas, cabelos, perfumes e palavreados podem nos criar simpatia ou repulsa, respeito ou desprezo conforme os nossos “modelos” internalizados. Não raro o assaltante de joalheria chega “bem vestido” e com “educação”, sendo recebido com sorriso num primeiro momento. Já o maltrapilho e de fala desarticulada é barrado pelo vigilante na porta, mesmo que esteja indo lá para comprar um óculos para a falsas... Falsas expectativas...
Nossos julgamentos precisam ir além da aparência imediata, ou seja, nos despirmos de vários preconceitos.
12 de abr. de 2012
Celebridades para não se celebrar

Sem cunho "pessoalista", mas tentando analisar atitudes de uma personalidade pública, teço o meu comentário em relação a fato ocorrido no final do mês passado:
Já não bastasse o desportista, que se destaca como técnico de futebol da Seleção Brasileira, fazer propaganda da poderosa droga álcool na forma do fermentado popularmente conhecido como cerveja... pois a personalidade, além de expor aos quatro ventos os prazeres do consumo do psicoativo, que é “por lei” restrito ao consumo adulto, e, mesmo assim, pode implicar em consequências das mais nefastas, exigindo assim enorme responsabilidade de quem consome e de quem comercializa a bebida; não bastasse faturar milhares de reais (milhões?) ajudando o comércio (mesmo que “legal”) de uma droga de alta periculosidade, pois, não bastasse isso tudo, o futebolista foi flagrado no Rio de Janeiro, dias atrás (28/03/12, à noite), em uma blitz sem a carteira de habilitação e negou-se ao teste com o etilômetro. Ou seja, possivelmente havia consumido bebida alcoólica e estava dirigindo – a combinação que atesta brutal irresponsabilidade. O dirigir sem a carteira de motorista é, no contexto, o de menos: qualquer um pode esquecer um documento. Interessa mais ressaltar que o garoto-propaganda de famosa marca de cerveja – propondo, mesmo que de forma indireta, uma relação entre consumo de álcool e esporte – não mencionou em sua nota oficial a negativa de se submeter ao “bafômetro”, mas a manifestação da secretaria de governo do Estado do Rio de Janeiro é explícita:
"O técnico [...] foi abordado por agentes da Operação Lei Seca, da Secretaria de Estado de Governo, por volta da meia-noite desta quarta-feira (28/03), durante blitz na Avenida Ministro Raul Machado, em frente à sede do Flamengo, na Gávea. Ele se recusou a fazer o teste do etilômetro, sofrendo as seguintes sanções administrativas: multa de R$ 957,70 e perda de 7 pontos na carteira. Mano estava sem a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A cópia do documento foi levada ao local pela mulher do técnico. O carro dele foi liberado após um condutor habilitado ter sido apresentado."
A falta de referências positivas é enorme no Brasil e no mundo. Triste ver que alguém da “autoridade” e culto da população brasileira (entre outras várias "celebridades", infelizmente) envolva-se dessa forma com o consumo de álcool. Se tivesse plena consciência das consequências do seus atos, se se importasse mais com a coletividade e o futuro da sociedade do que com ganhos imediatos, será que se prestaria a divulgador de algo que pode ser tão pernicioso?
FONTE: http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE82R06H20120328
***Sobre a ilustração acima:
Imagem de divulgação de acidente com vítima fatal em Cosmópolis, SP, no ano de 2008. Os indícios apontavam para a perda de controle do motorista, que teria engerido bebida alcólica. Conforme texto de Rodrigo Guadagnim, o veículo capotou após colidir com outro veículo, deixando uma pessoa morta outra gravemente ferida. Mesmo que não se confirme a ingestão de bebida (o relato diz que havia uma garrafa de cerveja no veículo capotado), se sabe as funestas consequencias de dirigir alcoolizado. Não raro, o motorista acha estar "absolutamente sóbrio"...
30 de mar. de 2012
Tradição há seis meses...

Pode um pão de forma lançado no mercado no ano passado (2011) receber o nome de “Tradição”??
Não só pode, como há! A empresa mexicana Bimbo, que comprou a Nutrella de Gravataí, está vendendo o fatiado Tradição, que, além da denominação do produto que remete a um passado longínquo, a ancestralidade, a algo desenvolvido de forma artesanal, tem no seu logotipo, começando pelo lettering em letras cursivas (“escritas à mão”), uma colher de pau, um rolo de massa, um jarro de leite e uma tigela de bater a massa feitos de louça, fechando, ao fundo, com um saco de tecido contendo a farinha de trigo identificado com ramos do cereal.
Contrabandeando mais uma vez o historiador Hobsbawm***, temos mais uma situação de “tradição inventada” – no caso, um embuste marketeiro. Iludidos pelo estratagema cosmético-comercial via embalagem, compramos um produto megaindustrializado, feito aos milhares por hora numa linha de montagem automatizada, dentro de uma bilionária empresa transacional... pois compramos tal alimento como se feito por alguma senhora de avental, que mora lá num bucólico recanto, açando o seu pão num rústico forno de barro... E nem reclamamos da engambelação! Na verdade (parece), gostamos/desejamos essa ilusão – entre várias outras humanas situações de “eu quero acreditar”, com diz o subtítulo daquele filme de 2008 da série Arquivo X, sobre ETs e outras paranormalidades.
Não são só produtos de panificação (já mencionei biscoitos da zona de colonização ítala no RS) que recebem essa “cobertura artificial de passado”. Há muitíssimos e variados exemplos. A Oktoberfest é um deles, marcante pela invencionice à beira do patético – e perversora da história das comunidade teuto-brasileiras –, como já disse gente como Flávio Kothe, nascido em Santa Cruz do Sul em 1946, professor na UnB, doutor e livre-docente em Teoria Literária e Literatura Comparada, com pós-doutorado em Yale e nas Universidades de Konstanz, Heidelberg, Bonn e Berlim (tudo isso pra dizer que não é só um cururu como eu que fala isso da Oktober, mas uma santa-cruzense "legítimo", “da gema”, com “sobrenome alemão”, de “família tradicional”, que estudou e se pós-doutorou na Alemanha, entre outros países, sendo professor na prestigiada Universidade de Brasília, autor de dezenas de obras, incluindo um clássico dos estudos acadêmicos na área da Literatura Brasileira, a “trilogia” O Cânone Colonial, O Cânone Imperial e O Cânone Republicano).
Voltando ao pão de forma: a empresa nem se constrange em apresentar o seu produto, conforme está destacado na parte “de baixo” da embalagem:
Novo Pão de Forma Tradição, a novidade que vai deixar o seu dia a dia ainda mais gostoso.
Ou seja, usa as palavras “novo” e “novidade” na mesma frase para anunciar algo que se chama “Tradição”...
Cinismo? Esquisofrenia? Imbecilidade pura e simples? Imbecilidade deliberada? Talvez de tudo um pouco nesse mundo onde – me arrogo a dizer “filosofando” – vivemos quase sempre na superfície das coisas, sustentados numa densidade feita de babaquices; numa atmosfera baseada em falsidades e fantasias, alienados da vida para além das aparências e convenções sociais.
*** Me refiro ao livro de Eric Hobsbawm (em co-autoria com Terence Ranger), “A Invenção da Tradição”. Conforme a mini-resenha no site da Submarino, "Os autores mostram como a 'tradição' - base do nacionalismo e 'prova' de uma espécie de antiga e inatacável superioridade dos povos - é uma construção, algo criado, inventado".
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