13 de dez. de 2012
Calendário maia, fim do mundo e sorvete na testa
Nem mesmo a prestigiada revista brasileira de divulgação científica, a Ciência Hoje, escapou das confusões sobre as “profecias” do 21 de dezembro. Confusões estas que ficam à beira, por um lado, da histeria e, por outro, da piada. Estamos diante do “fim do mundo”, baseado no que estaria inscrito num calendário de nativos mesoamericanos, os maias.
Em sua edição número 295, ao abordar o assunto – “2012, afinal, é o fim do mundo?” – a Ciência Hoje publicou em sua capa o que deveria ser uma pedra esculpida, se referindo ao tal calendário maia. Na edição posterior, os editores reconheceram o “furo”: se tratava de uma imagem de um objeto... asteca... Não foi culpa do autor da matéria. O próprio banco de imagens de onde foi comprada a ilustração catalogava como “calendário maia”. Falhou a revista em checar isso muito bem. Em todo o caso, a matéria é boa e vai abaixo o link para quem quiser ler o que está no site da publicação.
Se a Ciência Hoje, uma revista sob responsabilidade da SBPC, uma tradicional organização de cientistas renomados, atuando pelo desenvolvimento da ciência ; se este pessoal não fez a revisão devida e deixou passar tamanho engano, fico pensando quanta bobajada está sendo dita, mostrada e repetida por aí. Aos enganos por lapsos e desconhecimento, some-se o que estão produzindo os “espertos”, sempre a fim de explorar esta nossa atávica nostalgia judaico-cristã do apocalipse. Vendem-se manuais, amuletos, “programas de salvação” etc. E mesmo sabendo que se trata de mais um sorvete na testa, daqueles de duas bolas grandes (chocolate e morango), socamos a guloseima com um sorriso cândido, prenhes de esperanças infantis...
O fato é que no dia 21 de dezembro (daqui dez dias!) vai ser aquela mesmice mundial: acidentes, assassinatos, tempestades – um desfile de tragédias maiores e menores trazidas pela imprensa. Alguns vão dizer que “Está aí, começou, mesmo, o fim do mundo!” – e não vai adiantar nada ponderar coisa alguma. Quem quer acreditar, vai acreditar, e quando chegar o frustrante vigésimo primeiro dia do último mês do ano... vai embarcar em alguma desculpa (adiou-se o fim do mundo por conta de uma intervenção de Asthar Sharan, por exemplo). E logo-logo se terá mais uma previsão de armagedom e um bom tempo para se comprazer com a mais nova (e mórbida) esperança de que – “desta vez pra valer” – tudo vai acabar, enfim...
Afora os “apocalípticos clássicos”, há os que são adeptos – ou acabaram aderindo, tal a evidência da bazófia – para ideias não das explosões cinematográficas, da morte em massa, de gritos e uivos, mas de “uma nova era”, um novo ciclo... Bem, um novo ciclo começa todos os dias com a rotação da Terra e toda a coreografia (ia dizendo dança) dos planetas, estrelas, satélites naturais etc. que compõem a nossa galáxia e o universo que conhecemos. Todos os dias o mundo “termina” e “recomeça”, Sol e Lua, claro e escuro, vigília e sono, pintassilgos e morcegos... Não seria uma boa aproveitar isso e renovar a nós mesmo a cada transposição do dia e da noite; quem sabe buscar ir mais adiante em nossos esforços por conhecimentos embasados, ajudando a construir uma civilização mais harmônica, sem apelos patéticos ao irracionalismo e a emocionabilidade?
Acho que muito dessas expectativas “bíblicas” são geradas por insatisfação e angústia. Muitas pessoas não gostam de suas vidas e se sentem pressionadas por um mundo muitas vezes duro, cheio de injustiças e desgraceiras várias (crianças sendo prostituídas, florestas nativas desmatadas, autoflagelação em nome de Jesus...), onde estamos cheios de “responsabilidades” – contas a pagar, um chefe chato, enxaqueca, segundas-feiras etc. Um belo fim do mundo seria uma oportunidade de “zerar” as coisas e reiniciar tudo de novo!
***Quem puder, leia a matéria da Ciência Hoje que me referi: uma das coisas interessantes é a desmistificação da “harmonia” dos povos antigos da mesoamérica. Os maias, por exemplo, que não estão “extintos”, entraram em decadência por contas de guerras de poder e destruição ambiental. Estão longe desta ideia de uma civilização de sábios, zens, “evoluídos”. Óbvio que a grandiosidade de cidades, seus monumentos, técnicas de escultura, arquitetura, avanços na agricultura, na escrita, na astronomia, entre outros, são admiráveis. Mas também havia uma profusão de sacrifícios humanos, tortura e antropofagia rituais, ou seja, muito sangue, carne e vísceras humanas para aplacar deuses e saciar fomes.
http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/295/2012-afinal-e-o-fim-do-mundo
7 de dez. de 2012
Físico diz que conhecemos menos de um centésimo de milionésimo de bilionésimo do que compõe o universo (0,0000000000000001%)
Na coluna do físico George Matsas, na edição do mês de setembro passado da revista Ciência Hoje, ele fala do bóson de Higgs. E diz algo que me surpreendeu, que é o seguinte:
“(...) o bóson de Higgs está longe de completar o quebra-cabeça das partículas elementares. Argumentos teóricos sugerem que conhecemos menos de um centésimo de milionésimo de bilionésimo (10 na potência menos 15%) do conjunto total de peças [do atual Modelo Padrão das Partículas Elementares]. Assim, a menos que o restante do quebra-cabeça consista de uma enorme moldura branca de peças desinteressantes, ainda termos muito a aprender.”
Sim, “temos muito a aprender”... E mais: Matsas fala que, “De fato, dados provindos da astrofísica e da cosmologia têm indicado que aproximadamente 23% de toda a matéria do universo não é feita de prótons, nêutrons, elétrons, nem outras partículas do Modelo Padrão. Essa matéria desconhecida foi apelidada ‘matéria escura’, pois não é diretamente visível. (...) Tudo indica, portanto, que, no futuro, o Modelo Padrão terá de ser ampliado.”
Num parágrafo anterior, o físico, que é professor na Universidade Estadual Paulista, explica o que seria o tal Modelo Padrão: “O Modelo Padrão das Partículas Elementares (ou, simplesmente, Modelo Padrão) pode ser entendido como um grande quebra-cabeça. Cada peça representa uma partícula, enquanto a forma como se encaixam descreve a relação entre elas. Todas as partículas do Modelo Padrão que haviam sido teorizadas acabaram sendo encontradas. Faltava apenas o bóson de Higgs.”
Ou seja, apesar dos avanços, estamos a milhas e milhas (ou melhor, a anos e anos luz) de compreendermos todo o mistério da matéria ou energia ou seja lá o que componha o nosso cosmos, incluindo a nós mesmos. Entretanto, não sejamos apressados em “concluir” que “A FÍSICA” ou “A CIÊNCIA” confirmam que existe “algo além”. Certo, existe “algo além”, mas tudo indica que nada tenha a ver com fadas, santos, espíritos desencarnados e ETs do bem e do mal.
De qualquer modo, o tamanho descomunal do nosso desconhecimento enquanto humanos – e que gera tantas tentativas de explicação que remetem ao lendário, ao inabordável e ao irracionalismo – deve servir para não nos arrogarmos “senhores do universo” ou deste planeta que coabitamos com inúmeras espécies coirmãs (em termos de origem, lá no mesmo caldo primordial).
A ciência, por definição, cria explicações provisórias, ciente de suas falhas e sempre a pedir testes renovados. Mas o que dizer das religiões sectária (quase todas, infelizmente), que pretendem ter “a” explicação cabal, final, “imexível”, e, por isso, ditando o que é certo e errado para todo sempre? Na minha opinião, com exceções, são ideologias perversas, por limitarem as possibilidades do intelecto humano, além de reprimir outros tantos potenciais para o desfrute da vida. Em nome de Deus se cometem inúmeras barbaridades, incluindo a autoflagelação mental...
***Para ver todo o artigo de George Matsas, vai aqui o link: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/296
“(...) o bóson de Higgs está longe de completar o quebra-cabeça das partículas elementares. Argumentos teóricos sugerem que conhecemos menos de um centésimo de milionésimo de bilionésimo (10 na potência menos 15%) do conjunto total de peças [do atual Modelo Padrão das Partículas Elementares]. Assim, a menos que o restante do quebra-cabeça consista de uma enorme moldura branca de peças desinteressantes, ainda termos muito a aprender.”
Sim, “temos muito a aprender”... E mais: Matsas fala que, “De fato, dados provindos da astrofísica e da cosmologia têm indicado que aproximadamente 23% de toda a matéria do universo não é feita de prótons, nêutrons, elétrons, nem outras partículas do Modelo Padrão. Essa matéria desconhecida foi apelidada ‘matéria escura’, pois não é diretamente visível. (...) Tudo indica, portanto, que, no futuro, o Modelo Padrão terá de ser ampliado.”
Num parágrafo anterior, o físico, que é professor na Universidade Estadual Paulista, explica o que seria o tal Modelo Padrão: “O Modelo Padrão das Partículas Elementares (ou, simplesmente, Modelo Padrão) pode ser entendido como um grande quebra-cabeça. Cada peça representa uma partícula, enquanto a forma como se encaixam descreve a relação entre elas. Todas as partículas do Modelo Padrão que haviam sido teorizadas acabaram sendo encontradas. Faltava apenas o bóson de Higgs.”
Ou seja, apesar dos avanços, estamos a milhas e milhas (ou melhor, a anos e anos luz) de compreendermos todo o mistério da matéria ou energia ou seja lá o que componha o nosso cosmos, incluindo a nós mesmos. Entretanto, não sejamos apressados em “concluir” que “A FÍSICA” ou “A CIÊNCIA” confirmam que existe “algo além”. Certo, existe “algo além”, mas tudo indica que nada tenha a ver com fadas, santos, espíritos desencarnados e ETs do bem e do mal.
De qualquer modo, o tamanho descomunal do nosso desconhecimento enquanto humanos – e que gera tantas tentativas de explicação que remetem ao lendário, ao inabordável e ao irracionalismo – deve servir para não nos arrogarmos “senhores do universo” ou deste planeta que coabitamos com inúmeras espécies coirmãs (em termos de origem, lá no mesmo caldo primordial).
A ciência, por definição, cria explicações provisórias, ciente de suas falhas e sempre a pedir testes renovados. Mas o que dizer das religiões sectária (quase todas, infelizmente), que pretendem ter “a” explicação cabal, final, “imexível”, e, por isso, ditando o que é certo e errado para todo sempre? Na minha opinião, com exceções, são ideologias perversas, por limitarem as possibilidades do intelecto humano, além de reprimir outros tantos potenciais para o desfrute da vida. Em nome de Deus se cometem inúmeras barbaridades, incluindo a autoflagelação mental...
***Para ver todo o artigo de George Matsas, vai aqui o link: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/296
A lancha
Esta semana, voltando para casa, passamos na estrada em frente ao posto de gasolina perto do trevo de acesso ao nosso bairro. Lá estava estacionado um big caminhão, levando em sua carreta uma portentosa lancha – quase um iate. Sem brincadeira, era muito próximo ao tamanho e volume da nossa baiuca... mas devendo custar no mínimo 10 vezes mais! E seria usado por algum bacana em alguns momentos do seu “lazer”, num lago ou rio por aí.
A nossa conversa derivou para isto: Como alguém pode ser dar ao luxo (literalmente!) de comprar e possuir tal objeto (custos com taxas e impostos anuais também não deve ser nada baixos)? Objeto, diga-se, tão caro quanto supérfluo. Como esta pessoa consegue gerar tal dinheiro para tamanha aquisição de deleite ocioso? É por trabalho? Pelo seu trabalho? Puro trabalho individual?
Óbvio que não pode ser. É uma incompatibilidade, uma incongruência, uma impossibilidade. Explico: por mais que alguém tenha excepcionais capacidade e empenho de trabalho, não há como transcender limites físicos, corporais (trabalho braçal), intelectuais (trabalho mental), ou seja, não há como o indivíduo trabalhar muito acima da média de esforços e habilidades dos demais trabalhadores do planeta Terra. Em algum momento, de algum jeito, para “possuir” bens caríssimos, se está ganhando muitíssima vezes mais do que a sua energia individual despendida em trabalho. Tal sujeito, necessariamente, está abocanhando (amealhando?) recursos que não são gerados pelo seu próprio trabalho; alguém, alguns ou milhões de outros humanos estão sustentando este acúmulo material, este excedente (excesso?) de riquezas médias geradas por trabalho real de um ser humano.
Não é por nada que os anarquistas dizem que toda a fortuna é um roubo, ou, ao menos, uma tremenda injustiça num mundo onde todos são biologicamente iguais, ou com bastante semelhanças em termos de inteligência e habilidades físicas. A “esperteza” é o que parece definir o “diferencial”. “Esperteza” que também pode ser definida como uma imoralidade, ou sacanagem, travestida de “ousadia”, “empreendedorismo”, “senso de oportunidade” e outras retóricas de sustentação do plutonismo ou riquismo.
O fato me parece matemático: o dinheiro que sobra ou jorra para alguns, falta ou escafede-se para muitos. A pobreza grassa num mundo de uma elite de milionários, bilionários, trilionários...
E como isso é justificado, explicado? Como dormir em sua cama king size, passear pela cidade em seu Rolls-Royce Phanton, comer em um restaurante com pratos a partir de 180 reais enquanto crianças de 10 anos são prostituídas logo adiante na esquina? Uma das formas de explicação, com certeza, é pela “intervenção divina”, ou seja, pela atuação de Deus. Ele é dadivoso aos seus preferidos; seria um pecado rejeitar as Suas benesses – mesmo com idosos morrendo sem atendimento em hospitais e tendo as cadeias cada vez mais abarrotadas, animalizando aqueles que deverias estar sendo “reeducados” (ou algo assim). Outrossim, concebe-se (sarcasticamente, só pode ser) que problemas sociais nada têm a ver com o acúmulo estratosférico de riquezas.
Afora tais explicações religiosas e ideológicas, a riqueza ostensiva e ostentatória deveria revoltar, em especial os bilhões que vivem à míngua. Entretanto, o controle massivo das mentes é tamanho, que os temores de ser apedrejado passeando em sua mega lancha ainda são pequenos...
(Talvez também se tenha que considerar atavismos humanos, num formato hipertrofiado, de quando andávamos em bandos e havia machos-alfas e a ostentação se impunha como um mecanismo de expansão genética do indivíduo...)
A nossa conversa derivou para isto: Como alguém pode ser dar ao luxo (literalmente!) de comprar e possuir tal objeto (custos com taxas e impostos anuais também não deve ser nada baixos)? Objeto, diga-se, tão caro quanto supérfluo. Como esta pessoa consegue gerar tal dinheiro para tamanha aquisição de deleite ocioso? É por trabalho? Pelo seu trabalho? Puro trabalho individual?
Óbvio que não pode ser. É uma incompatibilidade, uma incongruência, uma impossibilidade. Explico: por mais que alguém tenha excepcionais capacidade e empenho de trabalho, não há como transcender limites físicos, corporais (trabalho braçal), intelectuais (trabalho mental), ou seja, não há como o indivíduo trabalhar muito acima da média de esforços e habilidades dos demais trabalhadores do planeta Terra. Em algum momento, de algum jeito, para “possuir” bens caríssimos, se está ganhando muitíssima vezes mais do que a sua energia individual despendida em trabalho. Tal sujeito, necessariamente, está abocanhando (amealhando?) recursos que não são gerados pelo seu próprio trabalho; alguém, alguns ou milhões de outros humanos estão sustentando este acúmulo material, este excedente (excesso?) de riquezas médias geradas por trabalho real de um ser humano.
Não é por nada que os anarquistas dizem que toda a fortuna é um roubo, ou, ao menos, uma tremenda injustiça num mundo onde todos são biologicamente iguais, ou com bastante semelhanças em termos de inteligência e habilidades físicas. A “esperteza” é o que parece definir o “diferencial”. “Esperteza” que também pode ser definida como uma imoralidade, ou sacanagem, travestida de “ousadia”, “empreendedorismo”, “senso de oportunidade” e outras retóricas de sustentação do plutonismo ou riquismo.
O fato me parece matemático: o dinheiro que sobra ou jorra para alguns, falta ou escafede-se para muitos. A pobreza grassa num mundo de uma elite de milionários, bilionários, trilionários...
E como isso é justificado, explicado? Como dormir em sua cama king size, passear pela cidade em seu Rolls-Royce Phanton, comer em um restaurante com pratos a partir de 180 reais enquanto crianças de 10 anos são prostituídas logo adiante na esquina? Uma das formas de explicação, com certeza, é pela “intervenção divina”, ou seja, pela atuação de Deus. Ele é dadivoso aos seus preferidos; seria um pecado rejeitar as Suas benesses – mesmo com idosos morrendo sem atendimento em hospitais e tendo as cadeias cada vez mais abarrotadas, animalizando aqueles que deverias estar sendo “reeducados” (ou algo assim). Outrossim, concebe-se (sarcasticamente, só pode ser) que problemas sociais nada têm a ver com o acúmulo estratosférico de riquezas.
Afora tais explicações religiosas e ideológicas, a riqueza ostensiva e ostentatória deveria revoltar, em especial os bilhões que vivem à míngua. Entretanto, o controle massivo das mentes é tamanho, que os temores de ser apedrejado passeando em sua mega lancha ainda são pequenos...
(Talvez também se tenha que considerar atavismos humanos, num formato hipertrofiado, de quando andávamos em bandos e havia machos-alfas e a ostentação se impunha como um mecanismo de expansão genética do indivíduo...)
29 de nov. de 2012
Duas citações
Michel Shermer, em "Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas: Pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos", da JSN Editora, 2011:
MORAL
A moral não existe na natureza e, portanto, não pode ser descoberta. Na natureza existe apenas ações – ações físicas, biológicas, humanas. Os humanos agem no sentido de aumentar sua felicidade, seja lá com definam pessoalmente. As sua ações se tornam morais ou imorais apenas quando outra pessoa as julga como tais.. Assim, a moralidade é a rigor uma criação humana, sujeita a toda sorte de influências culturais e construções sociais, do mesmo modo que ocorre com outras construções humanas. p.154
CIÊNCIA
O que separa a ciência das demais atividades humanas é o seu compromisso com a natureza experimental de todas as suas conclusões. Não há respostas conclusivas na ciência, apenas graus variáveis de probabilidade. Mesmo os “fatos” científicos são apenas conclusões confirmadas em tal grau que se torna razoável oferecer-lhes uma concordância provisória, mas esse assentimento nunca é definitivo. A ciência não é afirmação de um conjunto de crenças, mas um processo de investigação voltado para a construção de um corpo testável de conhecimentos constantemente aberto a rejeição ou confirmação. Em ciência, o conhecimento é fluido e a certeza, fugaz. Isso está no cerne de suas limitações. E isso constitui também a sua maior força. p.155
Fé demais...
A fé em si não é uma coisa boa. Nem má. A fé, no sentido de crença religiosa, pode levar uma pessoa a ter compaixão, ser solidária e sentir-se bem convivendo colaborativamente na sociedade.
Mas a fé também pode produzir assassinos suicidas, caso dos que jogaram dois aviões nas chamadas Torres Gêmeas nos EUA, só para citar a fé em uma das várias confissões religiosas produtoras de fanatismo, ao ponto de executar e justificar a morte de milhares e até de quem sequer tem alguma religião. Um exemplo extremo, para falar das violências (simbólicas, inclusive) cotidianas de quem tem “fé de mais” (alusão ao título brasileiro do filme “Leap of Faith”, com o comediante Steve Martin - na ilustração acima), caso da imposição de crucifixos, quadros e estátuas de santos e outros objetos de culto católico em lugares públicos do Estado.
Assim, as virtudes da fé são relativas; jamais podem ser absolutizadas – tidas como natural e inequivocamente positivas, sempre a produzir bons frutos. Num mundo, como dissemos, onde matanças são feitas em nome de Deus e profetas, a fé não pode ser vista com tanta e tranquila beatitude...
Li que um padre disse “A fé é tudo e Deus, o máximo”, ou algo parecido. Sim, para quem a tem, a fé pode ser tudo – e nada precisa de embasamento, de comprovação reiterada; Jesus transformou água em vinho e ponto final, foi literal; Deus transformou o bastão de Abraão em uma cobra e, sim, isso aconteceu de fato – não é nenhuma alegoria ou ilusionismo ou história para impressionar... E Deus é o máximo porque não admitimos algo que transcenda o humano conceito “Deus”; é o nome para tudo que não conseguimos explicar.
Deus é algo que está além de nossa capacidade de entendimento e supomos que tal “ser” seja algo muito bom, que nos rege com uma sabedoria sempre boa ao final dos finais – mesmo quando uma criança, se divertindo com os pais no pátio de casa, é atingida por um poste, numa coincidência trágica, dolorosa e revoltante, mas que tenta-se entender como algum desígnio divino, “vontade do Pai” ou carma... Pois a fé também pode consolar em casos do tipo – e isso, para nós, seres frágeis, falíveis, é um alento, um mecanismo de defesa da saúde mental; não raro aceitamos falácias para nos auto-proteger e proteger outros da tremenda dor que a existência pode implicar e seguidamente implica.
Mas, reafirmando, a fé também pode causar sofrimento e limitar a própria vida da pessoa. Em nome da fé posso restringir ou abdicar do exercício da minha sexualidade sem que eu tenha condições psico-biológicas para tal repressão, o que vai me levar a adoentar-me, ou perverter a minha libido de forma perigosa a outros, até mesmo a crianças.
Definitivamente, a fé não é tudo e Deus é o máximo que alguns encontram para designar aquilo que nos foge ao entendimento e aceitação...
"Espírito de Êxtase"
Naquelas zapeadas pela internet, buscando umas informações, cheguei ao site da Rolls-Royce.
Há um video institucional da empresa que achei bacana (abstraindo usos assassinos de alguns dos aparelhos deles), que está na página de abertura. Para quem gosta de tecnologia e indústria - motores e energia, especialmente -, é bem emocionante ver aquela gigantesca estrutura mundial e a fala dos seus colaboradores.
http://www.rolls-royce.com/
Uma curiosidade: "Espírito de Êxtase", como vocês sabem (mas eu não sabia) é o nome da "estatueta" (ilustração acima), marca distintiva dos veículos RR. Foi modelada a partir da amante do editor da revista The Car Illustrated, que pediu que se fizesse um adorno para o carro que estava adquirindo – isso em 1911. "O símbolo representava sua amada sentindo a música e o vento da nova máquina"... O êxtase proporcionado pela potencia, conforto e elegância de um automóvel luxuoso, para poucos.
Na Wikipedia está notado que “Tudo sobre estes carros revela classe. Desde a magnífica mascote ‘Espírito de Êxtase’, ao suntuoso interior estofado. Do silencioso som do motor, ao abafado som emitido ao fechar a porta do carro”. Não é por nada que o nome do primeiro veículo da RR foi Silver Ghost (o Fantasma Prata), por conta do seu impressionante silêncio...
Olhem aqui neste blog a estatueta, a amante e o carrão circulando em Londres, além de alguns outros detalhes:
http://nwsistemas.blogspot.com.br/2011/07/spirit-of-ecstasy-espirito-do-extase.html
12 de nov. de 2012
Finados para agnósticos, ateus e crentes
O livro “Religião para ateus” do Alain de Botton me abriu para novas considerações, enquanto me subsidiou para coisas que eu já pensava.
O feriado dos finados. Uma data que, aqui, tem um teor religioso e, mesmo, mórbido – ou ao menos de tristeza opressiva. Além disso, foca-se, para cada um, nas pessoas que conviveram mais diretamente conosco: os nossos parentes mortos, especialmente.
Sei que há lugares onde o que existe é um “Festa dos Mortos”, com quitutes e farto consumo de bebidas e até bailes. Ou seja, paradoxalmente, há um extravasamento da vida, da alegria, da mundanidade em homenagem aos mortos...
Lembro que, quando piá, íamos, pai, mãe, irmão, avó e demais parentela para o cemitério de Ponte Queimada, onde, estava (e está) enterrado o meu avô materno e outros ex-chegados da família da minha mãe. Um caminhão de bebidas ficava estacionado à sombra de grandes plátanos em frente ao muro de pedras do cemitério e, se a minha memória não me prega peças, havia churrasqueiras onde se preparavam carnes para o almoço. Quer dizer, havia um caráter festivo, de diversão (ao menos para as crianças), de encontro comunitário – entre vivos! – naquela visita aos túmulos, quando se aproveitava para lavar, reenfeitar e até fazer reformas das lápides e jazigos – além de orar pelas almas dos falecidos, claro.
Mas o que hoje me parece ficar patente é a contrição um tanto quanto depressiva, além de ser cada vez mais formalidades anuais mais ou menos “obrigatórias”, sem uma adesão coletiva de familiares, “sobrando” para os mais antigos a reverência aos já definitivamente antepassados.
Max Weber tem o conceito de “desencantamento do mundo”, que é, para mim - mesmo não sendo isso que o sociólogo alemão eseteja se referindo diretamente -, a explicação para o afastamento dos cemitérios da gerações como a minha, formadas por uma mentalidade científica já consolidada, desacreditada no sobrenatural em qualquer sentido. Não há magia, não há fadas, duendes, anjos, fatasmas, espíritos, almas que se reencarnam - a não ser como algum tipo de alegoria ou mito explicativo, lenda, supertições tão populares quanto falsas, quando não enganadoras, alienantes, limitantes do potencial humano de compreensão.
Entretanto, não seria bacana reformar isso, pegando carona no que propõe o Botton? (“Santa utopia, meu caro”, já vejo dizendo-me!) O Finados, o Dia dos Mortos poderia ser uma Comemoração aos Antepassados (ou um nome que “pegasse” melhor).
Seria um dia de reverenciar a memória não só de parentes e amigos, que já não têm existência física e que, independente de crença religiosa, continua a existir em nossas memórias. Ou aqueles/as que se notabilizaram e ficaram registrados por feitos – livros, relatos, inventos – essa infinidade de gente que construiu os povos, a humanidade no que ela tem de mais bacana. (Assim é que energúmenos, caso de abomináveis ensandecidos “hitlers”, deixaríamos para uma data de pranto, mesmo!)
Seria uma data de reconhecimento, agradecimento e estímulo a uma “vida significativa”, voltada para as coisas coletivas.
Os egoístas e os maldosos, com certeza, não teriam vez nesta “festa”. Como eu disse, poderia haver uma data para lamentá-los fervorosamente – para que também não esqueçamos que, assim como há pessoas queridíssima, gênios e heróis, há muitos mesquinhos, vilões, violentos torturadores, sanguinários e outras classificações para pequenos e grandes desgraçados da humanidade.
O feriado dos finados. Uma data que, aqui, tem um teor religioso e, mesmo, mórbido – ou ao menos de tristeza opressiva. Além disso, foca-se, para cada um, nas pessoas que conviveram mais diretamente conosco: os nossos parentes mortos, especialmente.
Sei que há lugares onde o que existe é um “Festa dos Mortos”, com quitutes e farto consumo de bebidas e até bailes. Ou seja, paradoxalmente, há um extravasamento da vida, da alegria, da mundanidade em homenagem aos mortos...
Lembro que, quando piá, íamos, pai, mãe, irmão, avó e demais parentela para o cemitério de Ponte Queimada, onde, estava (e está) enterrado o meu avô materno e outros ex-chegados da família da minha mãe. Um caminhão de bebidas ficava estacionado à sombra de grandes plátanos em frente ao muro de pedras do cemitério e, se a minha memória não me prega peças, havia churrasqueiras onde se preparavam carnes para o almoço. Quer dizer, havia um caráter festivo, de diversão (ao menos para as crianças), de encontro comunitário – entre vivos! – naquela visita aos túmulos, quando se aproveitava para lavar, reenfeitar e até fazer reformas das lápides e jazigos – além de orar pelas almas dos falecidos, claro.
Mas o que hoje me parece ficar patente é a contrição um tanto quanto depressiva, além de ser cada vez mais formalidades anuais mais ou menos “obrigatórias”, sem uma adesão coletiva de familiares, “sobrando” para os mais antigos a reverência aos já definitivamente antepassados.
Max Weber tem o conceito de “desencantamento do mundo”, que é, para mim - mesmo não sendo isso que o sociólogo alemão eseteja se referindo diretamente -, a explicação para o afastamento dos cemitérios da gerações como a minha, formadas por uma mentalidade científica já consolidada, desacreditada no sobrenatural em qualquer sentido. Não há magia, não há fadas, duendes, anjos, fatasmas, espíritos, almas que se reencarnam - a não ser como algum tipo de alegoria ou mito explicativo, lenda, supertições tão populares quanto falsas, quando não enganadoras, alienantes, limitantes do potencial humano de compreensão.
Entretanto, não seria bacana reformar isso, pegando carona no que propõe o Botton? (“Santa utopia, meu caro”, já vejo dizendo-me!) O Finados, o Dia dos Mortos poderia ser uma Comemoração aos Antepassados (ou um nome que “pegasse” melhor).
Seria um dia de reverenciar a memória não só de parentes e amigos, que já não têm existência física e que, independente de crença religiosa, continua a existir em nossas memórias. Ou aqueles/as que se notabilizaram e ficaram registrados por feitos – livros, relatos, inventos – essa infinidade de gente que construiu os povos, a humanidade no que ela tem de mais bacana. (Assim é que energúmenos, caso de abomináveis ensandecidos “hitlers”, deixaríamos para uma data de pranto, mesmo!)
Seria uma data de reconhecimento, agradecimento e estímulo a uma “vida significativa”, voltada para as coisas coletivas.
Os egoístas e os maldosos, com certeza, não teriam vez nesta “festa”. Como eu disse, poderia haver uma data para lamentá-los fervorosamente – para que também não esqueçamos que, assim como há pessoas queridíssima, gênios e heróis, há muitos mesquinhos, vilões, violentos torturadores, sanguinários e outras classificações para pequenos e grandes desgraçados da humanidade.
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