24 de jan. de 2009

Barack e Bekett




Estava eu a ler nesta semana uma crônica do Moacyr Scliar - que nem sou muito fã - saída em Zero Hora sobre a posse do Barack Obama. O escritor faz um comparativo entre um peça famosa de Samuel Bekett (na ilustração - divulgação), que se chama Esperando Godot, e as esperanças depositadas no novo presidente dos EUA. Godot é, resumindo, um cara tido por messias ou algo semelhante que, na verdade, acaba nunca aparecendo, frustrando expectativas. Pensei cá comigo: Não será daí, desse personagem do dramaturgo inglês, donde vem a expressão "godô" largamente empregada pelo Sandoval?? Usa até para designar amigos dados ao "171", colocando como uma espécie de "sobrenome, tipo Fulano "Godô" de Tal!

Ou será que não tem nada a ver com isso de Beket?

Eu imaginava que a expressão viria de alguma corruptela chula. Mas, se minha hipótese for correta, a coisa então é erudita, ligada ao teatro clássico.

Cartas à redação!

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Pois é. Nas respostas, mencionou-se a expressão "téti à téti". Ontem mesmo usei-a com uma pessoa - e ela não conhecia essa forma de se referir a uma conversação "ao vivo e a cores".

Parece que vem do francês. O "correto" seria "tête-à-tête", que também é título de um livro recente sobre o longo e inusitado romance do Sartre e Simone de Beauvoir. Acho que dá pra traduzir como "testa à testa", cara à cara", "frente à frente".

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Também mencionou-se as esperanças em Obama. Sim! Será uma prova de fogo e um desafio quase (ou ao menos em parte) perdido de saída, tal o tamanho da expectativa e, ao mesmo tempo, do "olho gordo", "espírito de porco", má-vontade e um preconceito e racismo monumentais, que perduram em nossas mentalidades.

De qualquer forma, o caminho até aqui já tem enorme significado. Pra mim, só frustrar os KKKs espalhados por tudo quanto é lugar, vendo a ascensão de uma liderança como o Obama, já valeu (ou valerá) à pena.

9 de nov. de 2008

Origem e similaridades da palavra “gaúcho” e “gauche”



Lendo [isso já faz uns dois anos atrás] o best-sellers da literatura pop, O Código Da Vinte, de Dan Brown – cheio de clichês, mas também de elementos que podem empolgar um leitor como eu –, me chamou a atenção uma palavra da língua francesa, e o que é dito sobre tal palavra. A palavra é “gauche” (dizem que se lê “gôshi”). Já a havia visto em vários outros escritos, como num famoso poema de Drummond. Mas foi a primeira vez que relacionei-a com a palavra “gaúcho” [na ilustração, uma imagem de um gaucho argentino], da nossa da língua portuguesa. A similaridade é grande. O que me fez percebê-la não foi a “aparência” (letras e possíveis pronúncias) – isso eu só notei depois –, e sim o desenvolvimento do significado destas palavras ao longo da história na França e, também, no Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul.

“Gauche” no Francês, pelo que apurei, designa o lado esquerdo, como “mão esquerda”. Conforme o livro de Brown, a esquerda é relacionado ao feminino, e o direito ao masculino. Houve um processo de “satanização do feminino”, onde acabou incluído tudo o que se relacionava à esquerda, ao lado esquerdo. Assim, “gauche” ganhou os significados de “o errado”, “o torto”, “o maléfico”, “o negativo”, enfim, uma dimensão marginal a ser temida, execrada, contida ou, até, eliminada. Como aconteceu, através da Igreja Católica na Idade Média, com a "Caça às Bruxas", ou seja, a perseguição e morte de todas as mulheres que de alguma forma se sobressaíam (ou apenas saim de um determinado padrão) numa sociedade que deveria ser completamente comandada pelos homens, quer dizer, “pelo lado direito" - e não “pelo lado errado”, pelos “canhotos”...

No Rio Grande do Sul e regiões de países fronteiriços ao estado, caso da Argentina e Uruguai, “gaúcho” (originalmente “gaucho”, lido como “gáucho”), era o bandoleiro do pampa, o bugre ou mestiço de indígena, espanhol, português, negro; sobretudo o desterrado, sem lugar fixo de moradia, que afrontava a ordem estabelecida (o establschment), não respeitando limites arbitrados, caso da lei, das demarcações de terras, das “propriedades”; o gaúcho era o marginal – o mesmo sentido que tem a palavra “esquerdo” em Francês, e que se relacionava às mulheres, seres a serem contidos, pois ameaçadores da “ordem” (masculina!).

Há algo de paradoxal na relação: “gaúcho” é o Homem (com “h” maiúsculo!), o machão/machista; já “gauche”, como está na obra de Brown, tem a ver com o feminino, a feminilidade, com as mulheres e sua “força demoníaca”. O que os unem – os termos “gauche” e “gaúcho”, como era entendida décadas atrás –, entretanto, é a conotação pejorativa, de "elemento fora da ordem", de incorreto, de pusilânime, de temerário etc. No caso do termo “gaúcho”, houve uma reabilitação (relativamente) recente, tornado-se – outro paradoxo! – um designativo quase sempre distintivo positivamente. De bandido, o “gaúcho” tornou-se o “herói dos pampas”! Já as mulheres, continuam sendo objetos (e abjetas!), seres subalternizados.

Bem, com tudo isso, pergunto: Será que “gaúcho” não pode ter se originado na palavra francesa “gauche”? Acho que há grandes possibilidades. Falta investigar.

*Há dias estou lendo trechos do Prosa dos Pagos, de Augusto Mayer, onde um dos ensaio é "Gaúcho, História de uma Palavra". Também tenho aqui comigo um livro que mal iniciei, que se cjhama El Gaucho, de Emilio Coni, editado na Argentina. Ambos tive acesso depois de ter escrito esse comentário. Mas venho lendo há tempos (desde a facul na Ufrgs, pelo menos) diversos artigos que "problamtizam" a "gauchidade", como os ecritos de Tau Golim e da Sandra Pesavento, que foi minha professora. Aliás, tal interesse me levou a "problematizar" a germanidade santa-cruzense, que funciona de forma semelhante.
*Meyer, no primeiro capítulo - Gaúcho, História de uma Plavra - do seu mencionado livro, Prosa dos Pagos (Editora Presença, 1979, p. 42), faz um importante alerta ao encerrar seu ensaio: "O estudo semântico da palavra gaúcho vem mostrar como é difícil manter, na historiografia rio-grandense, os velhos preconceitos de uma homogenidade cultural - cultural no sentido sociológico - que nunca existiu. Qualquer tentativa de interpretação de nosso história deverá levar em conta, como fator básico, o critério de aculturação. Aceitar passivamente o prejuízo da homogeneidade social ou política de um grupo rio-grandense, dentro de outro bloco luso-brasileiro, caracterizado e definido por simples idealização do autor, e conforme as suas preferências, é proseguir no cultivo de uma história em que tudo parece acontecer por obra e graça da Divina Providência Gaúcha, que desde começo decretou as cousas na mesma ordem rígida."

*Dan Brown e Baden-Powell

Uma “pista” ou relação que achei também muito curiosa, interessante, no livro do Brawn: O que têm a ver Leonardo Da Vinte, Baden-Powell e Dan Brow? Ou o Priorado de Sião e o Escotismo? E a Mona Lisa e o símbolo mundial dos escoteiros?

Daria pra fazer outras várias relações parecidas, como o pré-nome do protagonista do livro de Brown – O Código Da Vinte – e do fundador do escotismo, ambos Robert...

O que me desencadeou estes raciocínios foi a descrição do logotipo do Priorado de Sião, incrustado em um misteriosa, valiosa e grande chave, que inclui uma FLOR-DE-LIS. Suponho que seja a mesma - ou semelhante, ao menos - a que está no logotipo oficial do Movimento Escotista.

Outra curiosidade trazida por Brown a ver com a flor-de-lis: Além de várias outras possíveis relações/alusões de se fazer com ou do quadro Mona Lisa, de Leonardo Da Vinte, há um anagrama. Veja: “A flor-de-lis... A flor de Lisa.. A Mona Lisa”. Está lá na página 124 da tradução brasileira de O Código.

Entrei na criptologia! A profissão da encantadora personagem, que faz o par romântico com o "nosso herói", Robert Langdon, prototagonista do "thriller" literário que estourou no mundo (e virou filme, que nem fez tanto sucesso).

Clarke



Dia 18 de março passado (2008) foi-se o Arthur Clarke, nosso velho conhecido por conta, em especial, de "2001: Uma Odisséia no Espaço" [imagem do cartaz ao lado] - o filme dirigido pelo Stanley Kubrick, que ele roteirizou e depois transformou em um romance independente, a partir, ambos, do conto A Sentinela, escrito nos anos de 1950.

Bati um papo sobre esta "perda" com o Rafa Amorim, sempre ligado nas "paraciências", incluindo a investigação do fenômenos dos Ovnis, Objetos Voadores Não Identificados. A colaboração do Clarke na formação do imaginário ufológico é enorme. Assim como H.G. Wells, esse outro britânico é um dos "baluartes" das concepções sobre alienígenas, seus mundos, histórias, "máquinas" etc. Além de introduzir e desenvolver aspectos filosóficos e especulações em diversos campos, influindo até na tecnologia espacial (o cara era físico e matemático e recebeu várias homenagens por sua influência neste âmbito).

Destaquei abaixo dois trechos de textos que li no no boletim da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), por ocasião do "passamento":

"Em 1998, [Clarke] recebeu o título de cavaleiro da rainha, pelo conjunto de sua obra. Em dezembro passado, ao completar sua '90ª órbita do sol', o autor listou três desejos: que os extraterrestres entrassem em contato, que a humanidade deixasse a dependência do petróleo e que o Sri Lanka tivesse paz."

"Arthur participou da criação da Sociedade Planetária - uma entidade direcionada para a exploração do espaço, com associados em todo o mundo - que, além de editar uma revista bimestral ('Planetary Report'), estimula doações aos programas espaciais que, com esse objetivo, vêm realizando pesquisas na procura de sinais de vida extraterrestre."

E um pensamento:

"Nossa civilização não é mais do que a soma de todos os sonhos das idades anteriores. E tem de ser assim, pois, se os homens deixarem de sonhar, se voltarem as costas às maravilhas do Universo, acabará a história da nossa raça".

Também saiu na edição de sábado(22/03) um pequeno artigo no caderno Cultura de Zero Hora. Por conta de muito lixo já escrito (e filmado!), somado a diversos preconceitos (o antropocentrismos talvez seja o maior deles), a literatura chamada de ficção científica é menosprezada nos "meios acadêmicos". Na minha leiga opinião, se trata de um gênero importantíssimo em vários sentidos, porque introduz diversos questionamentos complexos sobre nossas vidas e a história da humanidade.

Para a ufologia, como falei, caras como Clarke deveriam ser bem mais “estudados”. Não é porque ele escrevia “ficção” que não há em suas obras literárias um conjunto de reflexões e concepções muito bem embasadas e, até, com maior consistência do que lemos e ouvimos por parte de “autoridade ufológica” por aí.

*As obras do Clarke são muito marcadas pela separação do mundo, de um lado liderado pelos EUA e, pelo outro, pela URSS. Ele, por uma época, não conseguiu imaginar que o comunismo russo poderia ir à breca. Nem que o capitalismo ganhasse uma dominância tão assustadora, com corporações controlando o planeta, sobrando migalhas de poder para outras esferas, incluindo governos de países.

**A série 2001 é formada por quatro romances. O primeiro foi publicado em 1968, juntamente com o filme dirigido por Stanley Kubrick. Mas desde os anos 50, pelo menos, já vinha escrevendo obras ficcionias – que acredito serem fundantes nas especulações que deram origem ao que hoje conhecemos como Ufologia.

O mar nas veias e as estrelas como jóias


A partir de uma frase do ensaio As portas da percepção, de Aldous Huxley, cunhei o seguinte "pensamento":

Quando o mar corre em nossas veias e as estrelas são nossas jóias, e tudo é visto em sua infinitude e sacralidade, que motivos há para a cobiça e à soberba, a fome de poder e prazeres cruéis?

*Huxley diz que o título deste seu ensaio veio de escritos de outro britânico, H. G. Wells. E é daí, desse famoso ensaio de Aldous, que se inspira o nome da cultuada banda The Doors, segundo me disseram.

Paz à bala (um e-mail ao Paulinho em 2005)


Pois é, Paulinho, meu irmão. Não sei se tu chegaste a ver o Riovale da sexta-feira passada, 22/01/2005 (saiu também uma nota na Gazeta do Sul de 14/01). A manchete de capa do jornal, em letras garrafais, era "Guardas municipais poderão usar armas de fogo na cidade". Ao final do texto, é dito assim: "Para Wenzel [prefeito de Santa Cruz], a medida vai atender o desejo número um da comunidade, que é a segurança pública". Ou seja: armas de fogo significam segurança pública! Santa Cruz ficará mais segura porque alguns servidores públicos poderão portar revólveres! Não é um contrasenso? É isso uma política de segurança pública? Todas as campanhas de desarmamento e o trabalho de reversão da idéia de que "arma é proteção", e aí vem o prefeito e diz uma coisa dessas... Será que há algum estudo da prefeitura sobre a necessidade dos guardas municipais portarem armas? Isso está fazendo falta verdadeiramente? Os guardas com armas não são algo ainda mais perigoso - tanto para o portador quanto para a população em geral, gerando um clima de belicismo ("bandidos" e "mocinhos" agora estão armados!) maior ainda? Acho que devíamos pensar sobre esse acontecimento aqui na cidade e levar para as autoridades locais uma contraproposta. Não é nem uma questão de "impedir radicalmente" a guarda de usar armas de fogo, mas que isso, ao menos, não seja colocado como "uma grande medida para a segurança pública". Qual a mensagem que a administração pública de Santa Cruz está passando aos santa-cruzenses? Para se proteger, só à bala... Preparemo-nos para o bangue-bangue e para chorarmos as balas perdidas...

Um abraço!

Iuri

***Outra matéria que saiu esses dias na imprensa local, ou melhor, na Gazeta do Sul (12 e 13/03/2005): “A paz está invadindo a Zona Sul”, com a palavra “paz” em destaque (página 25). Ilustrando a matéria, há uma foto, onde se vê, dentro de um veículo da Brigada Militar, um soldado com uma arma de cano longo e bojudo para fora da janela, dando a idéia que o veículo faz uma ronda pelas ruas dos bairros. O que se diz com isso? Ora, que a tal “paz” na zona sul se faz pelas armas, demonstrando, na verdade, que estamos numa situação de beligerância, de guerra, onde para contrapor o uso de armamentos, é preciso armar-se também. Muito pequeno, no canto inferior da página, se fala em “centros ocupacionais” (que já uma denominação desgraçada) para crianças e adolescentes, na tentativa de reagir ao processo de marginalização por outros caminhos que não “gasolina para apagar o fogo”, ou seja, armas contra armas, violência com violência etc.

26 de out. de 2008

Coca-Cola: bebida com origens latino-americana e afro


Não nos damos conta de uma série de coisas. Já falei, por exemplo, que há em Santa Cruz do Sul gente que despreza os índios, dizendo que “o lugar deles não é aqui”, propondo que sejam “varridos” do centro da cidade. Mas ao mesmo tempo defende o fumo com unhas e dentes, porque tornou o município um pólo e ainda sustenta sua economia. Pois o tabaco – assim como o milho, o aipim, o amendoim, etc. – são plantas desenvolvidas e milenarmente cultivadas, beneficiadas e consumidas por indígenas, incluindo os que aqui habitaram e cujos descendentes ainda habitam quase invisíveis em alguns rincões e periferias da região, num triste sintoma do desprezo e exclusão sócial.

O próprio chimarrão, símbolo do gauchismo, vastamente consumido, é um chá típico de índios sul-americanos que viviam sem fronteiras entre Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil. Entretanto, aos goles da infusão de erva-mate, a Ilex paraguariensis, continuamos chamando-os de sujos e vagabundos...

Mas há uma outra bebida de fama ainda maior, internacional, que fez surgir uma corporação financeira poderosa e um ícone da cultural globalizada dominada pelo “Tio Sam”. A Coca-Cola, criada em 1886 pelo farmacêutico John Pemberton, é hoje um refrigerante que junta e aproveita-se de propriedades (medicinais e de sabor) de duas plantas tradicionalmente usadas por povos ancestrais, que jamais são lembrados enquanto sorvemos a beberragem. Muito menos, essa gente e seus descendentes, é lembrada na hora da empresa repartir os lucros astronômicos derivados do vasto consumo do composto.

A planta coca vem de regiões de índios da América Latina, e a Cola, de negros do nordeste da África. Regiões hoje extremamente pobres, alvo de histórica exploração político-econômica por parte de europeus e destruição de modos de vida não-capitalistas.

Coca deriva do nome quíchua “kuka”. Segundo informações da Wikipédia, “é uma planta da família Erythroxylaceae, seu nome científico é Erythroxylum Coca. Nativa da Bolívia e do Peru, tem porte arbustivo, suas flores são amarelo-alvacentas, pequenas e aromáticas, solitárias ou reunidas em cimeiras, os frutos drupáceos oblongos, vermelhos, e cujas folhas e casca encerram 14 alcalóides.” Um deles se popularizou através do mercado ilegal: a cocaína. Outros, pelo refresco Coca-Cola, originalmente vendida como remédio. “As propriedades analgésicas da coca foram descobertas pelos incas e até hoje as suas folhas são comumente mascadas na região dos Andes.”

Cola é a planta que produz o fruto conhecido como noz de cola, também chamada de abajá, café-do-sudão, cola, mukezu, obi, e oribi. Também conforme a Wikipédia, há várias espécies do gênero Cole da subfamília Sterculioideae. “Possuindo um gosto amargo e grande quantidade de cafeína, a noz é usada por muitas culturas do oeste africano, tanto individualmente quanto em grupo”. Podendo ter uso ritualístico, “tem ação estimulante, regularizadora da circulação. É também antidiarréica e usada nos casos de anemia, convalescença de doenças graves, problemas estomacais e certas enxaquecas e sobretudo nas perturbações funcionais do coração.” Essas suas propriedades conferiram alto valor à cola e à derivada bebida refrescante tradicional das regiões africanas de extremo calor, após espalhando-se pelo mundo. “O uso difundiu-se na região norte da América Latina através dos escravos negros que mascavam amêndoas de cola para suportar trabalhos penosos.” Hoje os “refris de cola” são disseminados e popularíssimos. Não há, praticamente, nenhum lugar do planeta que não ostente alguma placa do tipo “Beba Coca-Cola”...

Sem retirar o mérito do trabalho de quem “misturou” a coca e a cola, acrescentou açúcar e outras substâncias, gaseificou e começou a vender o líquido gelado engarrafado, podíamos ao menos ter em mente que tal sucesso jamais seria obtido sem ter havido trabalhos e descobertas – sobre as propriedades, variedades, formas de extração, cultivos, beneficiamentos –, hábitos e formas de uso muito anteriores, junto a povos nativos sul-americanos (coca) e africanos (cola). Ou seja, anteriores a toda riqueza dos “donos” da fórmula da Coca-Cola, há índios e negros esmagados por uma perversa concentração de poder, que, para não repartir e continuar sugando e dominando, desvia, fantasia e faz esquecer.

Bem mais poloneses do que alemães: a primeira leva de imigrantes em Santa Cruz



Dias atrás, revendo um artigo sobre a história santa-cruzense, que está disponível no site da Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul, me voltou a chamar a atenção aquilo que o estudioso das questões da etnicidade, Cláudio Ferreira, vem argumentando, ou seja, que, a rigor, os primeiros imigrantes em nossa Santa Cruz do Sul simplesmente NÃO ERAM de nacionalidade alemã, já que, como país, a Alemanha não existia até 1871. Sequer se pode alegar que, “sim, eram alemães os primevos, porque houve, posteriormente, uma unificação de territórios, dando-lhes um pertencimento nacional único”.

Vejamos o caso dos colonos da primeira leva, de 1849, "os pioneiros" – homenageados com o nome em bronze no “Monumento ao Imigrante Alemão”, ali no entroncamento das ruas Marechal Floriano e Galvão Costa. Tirando um da Prússia, hoje Alemanha, os demais assentados seriam da Silésia [reprodução ao lado de mapa antigo - divulgação], hoje Polônia. Portanto, considerando os países em sua conformação atual, seriam apenas 1 alemão e 11 poloneses...

É dito literalmente no texto que mencionei: “[Os] primeiros 12 imigrantes foram os seguintes: Augusto Wuttke (42 anos), católico, moleiro, sua mulher Francisca (33) e os filhos Guilherme (14), Joana Maria (13), Lucas (6) e Juliana (4); Frederico Tietze (28), evangélico, moleiro, e sua irmã Carlota (30); Augusto Raffler (26), católico, lavrador; Gottlieb Pohl (29), evangélico, lavrador; Augusto Arnold (43), evangélico, lavrador; e Augusto Mandler (30), evangélico, lavrador. Com exceção deste último, que era prussiano, todos os demais eram naturais da Silésia, território hoje pertencente à Polônia.”

Independentemente dos territórios específicos de onde essas milhares de pessoas tenham provindo, tratam-se de regiões da Europa que sofreram ao longo do tempo diversas alterações de denominação, domínio e sistema político, vínculo pátrio e conformações étnicas ditadas por migrações, invasões, ocupações, expurgos, guerras, ciclos econômicos etc. Imagine-se a enorme e constante fusão de culturas, línguas, hábitos, religiões e outros elementos dessas gentes bem antes de serem assentados no Brasil.

A região da Silésia é exemplo disso. Com provável origem na sedentarização de antiguíssimas tribos eslavas, até povos mongóis lá estiveram em 1241, sendo que, a atual conformação político-geográfica e composição étnico-cultural da região, só começou a se estabilizar após a 2ª Guerra Mundial, ainda sofrendo alterações com a dissolução e fim do domínio da União Soviética na vizinhança, há menos de duas décadas.

Reflita-se: aqui em Santa Cruz, estes grupos já diversos e, cada qual, formados numa diversidade anterior, diversificaram-se ainda mais em casamentos e convívios interétnicos com outros imigrantes, migrantes e nativos. Considere-se – já de saída – que, desembarcados no porto do Jacuí, abrigados pela municipalidade rio-pardense e conduzidos por tropeiros locais, esses primeiros grupos de colonizadores da Europa Central chegavam a um povoado já estabelecido, o Faxinal do João Faria, núcleo original da cidade de Santa Cruz. Conforme o artigo, “Na área do Faxinal, havia então quatro moradores [com provável parentela, agregados e escravos]: Gregório Silveira, José Rodrigues de Almeida, o vendeiro Agostinho Antônio de Barros, além de descendentes do sesmeiro João Faria da Rosa”. O neto deste antigo proprietário, de onde derivava a denominação do Faxinal, “cuja residência se localizava na região alta da atual rua Marechal Floriano, [foi] quem [abrigou e] transportou [os colonos] até o local dos seus lotes, na Picada do Abel [hoje Linha Santa Cruz]”. Somem-se, ainda, os caboclos, aquilombados e índios que estavam e circulavam pela região, conforme os registros historiográficos – aliás, pouco considerados, dando lugar à reprodução de mitologias obtusas.

Quer dizer, há – desde os primeiros momentos – contatos e convivências com grupos e indivíduos lusos, negros, mestiços já fixados em Santa Cruz e pela região, formatando paulatinamente nessas comunidades uma etnicidade peculiar, que talvez a expressão “teuto-brasileira-santa-cruzense” seja a menos problemática para identificar. Infelizmente, tais características próprias, singulares são constantemente pervertidas pela “importação de tradições” de um folclorismo da Alemanha contemporânea. Isso é notável em eventos como a Oktoberfest. Ao invés de uma comemoração da teuto-brasilidade local, temos a tentativa de um cultivo de uma germanidade postiça, caricata, comercial, que, como disse o professor Flávio Koth, pouco tem a ver com os lugares de origens dos imigrantes. E ainda menos com a cultura híbrida desenvolvida entre gentes vindas de muitos lugares que se encontraram pelas picadas e povoados que constituem hoje Santa Cruz do Sul.