25 de abr. de 2012

A fé e o caminhão


O jornal santa-cruzense Gazeta do Sul de 18/04/12, na sua página 12, publicou uma reportagem sobre as famosas capelinhas de Schoenstatt – uma delas, inclusive, circula lá por casa uma vez por mês mais ou menos.

Tudo começou com um comerciante, João Pozzobon, “um homem de muita fé”, que recebeu uma capela de irmãs da congregação Schoenstatt durante um retiro espiritual em Santa Maria no ano de 1950.

“Ele ganhou o presente [das irmãs Schoenstatt] como uma missão e, durante 35 anos, noite após noite, no inverno ou verão, levou a imagem de casa em casa, aos hospitais, escolas, presídios e outros.”

Chegou a criar calo no ombro, pois a capela original era pesada, 8 quilos, obrigando-o a usar tal apoio. Andava a pé por trechos de até 15km.

Mas uma coisa não deu bem certo...

“João morreu atropelado em 1985, quando se dirigia para a missa com a imagem”, diz a reportagem.

Putz!

Fiquei imaginando o seu Pozzebon, com a santa em baixo do braço ou no ombro, atravessando a rua, a igreja logo adiante... Num descuido, não vê o caminhão que vem em alta velocidade e BAMMM!!! Rolam no chão o devoto e a capela da santa espatifada...

Chega a ser tragicômico. Como isso pode acontecer? Onde estava as bênçãos e proteção do amuleto católico, tchê?! Para que serviram tamanha devoção do seu Pozzobon? A essa altura, era um devoto já idoso e.. não mereceria uma morte menos estúpida, brutal? Mais tranquila, durante o sono, sendo conduzindo pela mão da santa e anjos? Qual é a lógica disso? Como explicar, senão usando de subterfúgios do tipo “mas sua morte poderia ser ainda pior”... Mas pior que ser estupidamente atropelado?!

Eu até queria colar a reportagem aqui pra vocês, ou colocar o link, mas, não sei porquê, não foi publicada na versão eletrônica do jornal... Será que é porque a coisa ficou estranha? Revelar algo que contradiz a suposta proteção obtida pela fé na santa? De fato, ter mencionado o acontecido com o seu João desabona muito o amuleto!

A fé exige esforços de altíssima irracionalidade. Nega-se, assim, o que, acho eu, é a marca principal do animal humano, que lhe faz transcender – ao menos um pouco – a sua condição biológica, de ser da natureza, ou seja, nega-se o pensar racional, baseado em evidências sistemáticas, em comprovações fidedignas. Entretanto, vigora o obscurantismo, apesar de todas as evidências que minam as inúmeras crendices, lendas e explicações sem pé nem cabeça (nonsense!), disparates, superstições.

Aposto que a reportagem, lida por um devoto, mesmo que com a atenção, no máximo vai dar uma arranhada na “fé”; a seguir, a pessoa – por conta de alguma “necessidade” (ou seria embotamento emocional ou do pensamento?) – vai continuar indo convictamente na procissão, inclusive raspando os joelhos no asfalto...

A capela foi reformada após o acidente. E seu Pozzebon, ao invés de ser o exemplo das falhas e contradições da fé, numa “ultranegação” do acontecido – sua morte trágica com a santa na mão sem lhe avisar do descuido ao atravessar uma rua –, deverá ser canonizado. Há todo um esforço para que “milagres concedidos por João” seja comprovados... (Milagre são tantas pessoas persistirem cultuando a santa e seu devoto!)

Todo caso, recomendo: Ao atravessar a rua, com ou sem santa, muito cuidado com o caminhão...


* O Papa João Paulo II (se não me engano) ter levado um tiro é também uma baita ironia, já que é o representante-mor do Deus dos Católicos. Ele, o Papa, creditou a sua salvação na época à "mão da Nossa Senhora" (não sei qual das milhares de denominações), que teria desviado a bala; caso contrário, seria fulminante. Como mencionou o biólogo Dawkins, o "sumo pontífice" não falou das mãos do cirurgiões, que durante seis horas o operaram... A invés de creditar (ao menos em boa parte) às habilidades dos profissionais médicos e a ciência e tecnologia a sua recuperação, creditou em primeiro lugar a uma aparição lendária e seu poder miraculoso incomprovado... Bem, a crítica que eu estou tentando fazer é direcionada aos adeptos de relíquias de proteção e de pedidos de bênçãos "clássicas" do catolicismo, mas pode servir a inúmeras outras superstições. Óbvio que não estou querendo ofender pessoalmente ninguém, mas seis que isso é impossível quando se trata de religião(e futebol...); quero levantar uma contradição flagrante, quando um devoto ferrenho não recebe a proteção do seu amuleto. No caso do seu João Pozzobon, como eu mencionei, se o acontecido não fosse realmente trágico, poderia ser hilário ("humor negro"); mas mesmo com todos esses componentes de suprema ironia, quando um grande fiel acaba por não ter a proteção do seu objeto de culto (que portava no momento, inclusive), mesmo assim parece que a fé, depois de umas balançadas na cabeça das pessoas, volta em sua firmeza irracional...

** Há quem diga, como sábio Roxão K., que o humano, de um modo geral, precisa acreditar em histórias que lhe tirem um pouco o medo da morte, que falem da continuidade da vida e de sua proteção pessoal num mundo extremamente hostil. Acho que devemos é nos esforçar para vivermos todos bem, aqui e agora, ajudando a criar um mundo acolhedor, de fraternidade, para além (ou aquém!) de crenças em anjos e demônios...

*** O citado Dawkins (Richard) é uma ferrenho combatente do obscurantismo religioso, inclusive por parte de cientistas "crentes". Ele não poupa nem agnósticos como eu. Acho os seus trabalhos muuuuuito importantes na atualidade, quando, na segunda década do século XXI, continuam a proliferar concepções das mais estapafúrdias, milenaristas, arcaicas, emburrecedoras, em choque com o conhecimento e tecnologia que já geramos. É o caso já comentado do Criacionismo - proposto em escolas norte-americanas para substituir (ou voltar a vigorar) no lugar da biologia evolucionista iniciada por Darwin e outros; a Bíblia ainda seria a descrição correta (e literal) para o surgimento da vida...

19 de abr. de 2012

O rapaz não fazia a barba, nem cortava o cabelo, passeando à noite solitário... pois foi preso e morto em 1976 em Buenos Aires


Em 18 de março de 1976 o pianista brasileiro Francisco Tenório, em turnê junto com Vinícius e Toquinho em Buenos Aires, “caminhava solitário quando foi jogado para dentro de uma Ford Falcon na esquina da Av. Corriente com a Rua Rodrígues Peña”, centro da capital argentina, conforme reportagem saída em ZH de sexta-feira passada, 13 de abril. Nunca mais foi localizado. A família até já recebeu a indenização do governo argentino pelo desaparecimento do músico, mas nada de seu corpo, perdido em algum cemitério clandestino ou fundo de rio ou mar. Tinha, então, 35 anos.

Francisco Tenório, o Tenorinho, não era militante político, nem envolvido em algum movimento de contestação, mas foi levado por quatro homens mal-encarados, e se sabe que ficou trancafiado na Escola de Mecânica da Marinha (Esma) da Argentina. Não passou de um engano: “Foi sequestrado por ostentar cabelo comprido e barba, um protótipo de esquerdista”, diz a reportagem... Imagine-se o interrogatório... o cara sempre negando, e aumentando as pancadas, os choques, o sufocamentos... A ação bárbara já fazia parte da união de governos e facções de direita dos países do Cone Sul, perseguindo militantes ou simpatizantes "comunistas". Ou que assim parecesse, caso do jovem pianista - mas já pai de família - Tenorinho.

Alguns sentem saudades da ditadura. Nostálgicos, filtrando só o melhor de um tempo, esquecem que até os pacatos ou alienados ou até empolgados pelo regime podiam acabar numa fria – numa câmara fria, talvez, além de um calvário de humilhações, torturas e, ao final, a morte cruel – tudo em nome da “ordem”, de “Deus”, da “liberdade”, da “pátria”, ou seja, do reacionarismo e moralismo carola recheado de burrice e hipocrisia – e mais uma bom bocado de grana da CIA e vantagens do mando, ou seja, ladroagens variadas, desde tráfico de influência (um emprego para o sobrinho num banco estatal ou para a amante numa repartição pública qualquer), até milhões em contas particulares em paraísos fiscais. Eis os nossos intrépidos militares sul-americanos e seus aliados vinculados a “revolução” de 1º de abril de 1964! Pena que o golpe não foi uma mentira total...

Saindo das barbaridades de militares e polícia no tempo das ditaduras, dá para se perguntar: quantas e quantas vezes somos enganados pelos estereótipos, as imagens padronizadas. Roupas, cabelos, perfumes e palavreados podem nos criar simpatia ou repulsa, respeito ou desprezo conforme os nossos “modelos” internalizados. Não raro o assaltante de joalheria chega “bem vestido” e com “educação”, sendo recebido com sorriso num primeiro momento. Já o maltrapilho e de fala desarticulada é barrado pelo vigilante na porta, mesmo que esteja indo lá para comprar um óculos para a falsas... Falsas expectativas...

Nossos julgamentos precisam ir além da aparência imediata, ou seja, nos despirmos de vários preconceitos.

12 de abr. de 2012

Celebridades para não se celebrar


Sem cunho "pessoalista", mas tentando analisar atitudes de uma personalidade pública, teço o meu comentário em relação a fato ocorrido no final do mês passado:

Já não bastasse o desportista, que se destaca como técnico de futebol da Seleção Brasileira, fazer propaganda da poderosa droga álcool na forma do fermentado popularmente conhecido como cerveja... pois a personalidade, além de expor aos quatro ventos os prazeres do consumo do psicoativo, que é “por lei” restrito ao consumo adulto, e, mesmo assim, pode implicar em consequências das mais nefastas, exigindo assim enorme responsabilidade de quem consome e de quem comercializa a bebida; não bastasse faturar milhares de reais (milhões?) ajudando o comércio (mesmo que “legal”) de uma droga de alta periculosidade, pois, não bastasse isso tudo, o futebolista foi flagrado no Rio de Janeiro, dias atrás (28/03/12, à noite), em uma blitz sem a carteira de habilitação e negou-se ao teste com o etilômetro. Ou seja, possivelmente havia consumido bebida alcoólica e estava dirigindo – a combinação que atesta brutal irresponsabilidade. O dirigir sem a carteira de motorista é, no contexto, o de menos: qualquer um pode esquecer um documento. Interessa mais ressaltar que o garoto-propaganda de famosa marca de cerveja – propondo, mesmo que de forma indireta, uma relação entre consumo de álcool e esporte – não mencionou em sua nota oficial a negativa de se submeter ao “bafômetro”, mas a manifestação da secretaria de governo do Estado do Rio de Janeiro é explícita:

"O técnico [...] foi abordado por agentes da Operação Lei Seca, da Secretaria de Estado de Governo, por volta da meia-noite desta quarta-feira (28/03), durante blitz na Avenida Ministro Raul Machado, em frente à sede do Flamengo, na Gávea. Ele se recusou a fazer o teste do etilômetro, sofrendo as seguintes sanções administrativas: multa de R$ 957,70 e perda de 7 pontos na carteira. Mano estava sem a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A cópia do documento foi levada ao local pela mulher do técnico. O carro dele foi liberado após um condutor habilitado ter sido apresentado."

A falta de referências positivas é enorme no Brasil e no mundo. Triste ver que alguém da “autoridade” e culto da população brasileira (entre outras várias "celebridades", infelizmente) envolva-se dessa forma com o consumo de álcool. Se tivesse plena consciência das consequências do seus atos, se se importasse mais com a coletividade e o futuro da sociedade do que com ganhos imediatos, será que se prestaria a divulgador de algo que pode ser tão pernicioso?

FONTE: http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE82R06H20120328


***Sobre a ilustração acima:

Imagem de divulgação de acidente com vítima fatal em Cosmópolis, SP, no ano de 2008. Os indícios apontavam para a perda de controle do motorista, que teria engerido bebida alcólica. Conforme texto de Rodrigo Guadagnim, o veículo capotou após colidir com outro veículo, deixando uma pessoa morta outra gravemente ferida. Mesmo que não se confirme a ingestão de bebida (o relato diz que havia uma garrafa de cerveja no veículo capotado), se sabe as funestas consequencias de dirigir alcoolizado. Não raro, o motorista acha estar "absolutamente sóbrio"...

30 de mar. de 2012

Tradição há seis meses...


Pode um pão de forma lançado no mercado no ano passado (2011) receber o nome de “Tradição”??

Não só pode, como há! A empresa mexicana Bimbo, que comprou a Nutrella de Gravataí, está vendendo o fatiado Tradição, que, além da denominação do produto que remete a um passado longínquo, a ancestralidade, a algo desenvolvido de forma artesanal, tem no seu logotipo, começando pelo lettering em letras cursivas (“escritas à mão”), uma colher de pau, um rolo de massa, um jarro de leite e uma tigela de bater a massa feitos de louça, fechando, ao fundo, com um saco de tecido contendo a farinha de trigo identificado com ramos do cereal.

Contrabandeando mais uma vez o historiador Hobsbawm***, temos mais uma situação de “tradição inventada” – no caso, um embuste marketeiro. Iludidos pelo estratagema cosmético-comercial via embalagem, compramos um produto megaindustrializado, feito aos milhares por hora numa linha de montagem automatizada, dentro de uma bilionária empresa transacional... pois compramos tal alimento como se feito por alguma senhora de avental, que mora lá num bucólico recanto, açando o seu pão num rústico forno de barro... E nem reclamamos da engambelação! Na verdade (parece), gostamos/desejamos essa ilusão – entre várias outras humanas situações de “eu quero acreditar”, com diz o subtítulo daquele filme de 2008 da série Arquivo X, sobre ETs e outras paranormalidades.

Não são só produtos de panificação (já mencionei biscoitos da zona de colonização ítala no RS) que recebem essa “cobertura artificial de passado”. Há muitíssimos e variados exemplos. A Oktoberfest é um deles, marcante pela invencionice à beira do patético – e perversora da história das comunidade teuto-brasileiras –, como já disse gente como Flávio Kothe, nascido em Santa Cruz do Sul em 1946, professor na UnB, doutor e livre-docente em Teoria Literária e Literatura Comparada, com pós-doutorado em Yale e nas Universidades de Konstanz, Heidelberg, Bonn e Berlim (tudo isso pra dizer que não é só um cururu como eu que fala isso da Oktober, mas uma santa-cruzense "legítimo", “da gema”, com “sobrenome alemão”, de “família tradicional”, que estudou e se pós-doutorou na Alemanha, entre outros países, sendo professor na prestigiada Universidade de Brasília, autor de dezenas de obras, incluindo um clássico dos estudos acadêmicos na área da Literatura Brasileira, a “trilogia” O Cânone Colonial, O Cânone Imperial e O Cânone Republicano).

Voltando ao pão de forma: a empresa nem se constrange em apresentar o seu produto, conforme está destacado na parte “de baixo” da embalagem:

Novo Pão de Forma Tradição, a novidade que vai deixar o seu dia a dia ainda mais gostoso.

Ou seja, usa as palavras “novo” e “novidade” na mesma frase para anunciar algo que se chama “Tradição”...

Cinismo? Esquisofrenia? Imbecilidade pura e simples? Imbecilidade deliberada? Talvez de tudo um pouco nesse mundo onde – me arrogo a dizer “filosofando” – vivemos quase sempre na superfície das coisas, sustentados numa densidade feita de babaquices; numa atmosfera baseada em falsidades e fantasias, alienados da vida para além das aparências e convenções sociais.



*** Me refiro ao livro de Eric Hobsbawm (em co-autoria com Terence Ranger), “A Invenção da Tradição”. Conforme a mini-resenha no site da Submarino, "Os autores mostram como a 'tradição' - base do nacionalismo e 'prova' de uma espécie de antiga e inatacável superioridade dos povos - é uma construção, algo criado, inventado".

23 de mar. de 2012

Imposição simbólica


Ou: “Por que TODOS são obrigados a deparar-se com um Jesus morto até numa sala pública?”

Impor-se aos outros é especialidade da Igreja Católica. Falo de cadeira. Como batizado, comungado e crismado dentro de um dos aparato ideológico mais poderosos do planeta, quase onipresente em países como o Brasil, onde, no passado, o Estado se associava ao Vaticano.

A inquisição é só um exemplo dessa imposição histórica do catolicismo. Ai de quem questionar, mesmo que sem querer, os seus ditames, as suas manifestações. Não pouca gente foi brutalmente torturada e morta por (bastava) suspeita de algum “heresia”. Usar ervas medicinais para curar doenças já poderia significar ser taxada de bruxa e ir parar no meio de uma fogueira armada e ateada a mando de autoridades papais. Giordano Bruno, pensador e cientista, não escapou da execução sumária, assim como tantos outros grandes homens e mulheres que divergiam do "poder único e total".

E os inquisitores continuam por aí. Em nome do humilde e tolerante Jesus, desqualificam quem ousar reivindicar o que é lei e denunciar o que atenta contra o direito de não ser permanentemente objeto do propagandismo confessional através de, por exemplo, crucifixos, estátuas e quadros em salas e outros locais públicos – caso das dependências do judiciário, que são custeadas por mim e por milhares que não professam religião simbolizada por uma cruz...

Os inquisitores do século XXI, agora já bastante desmoralizados, ameaçam, não obstante, com um apocalipse moral para breve em caso de retirada de tais aparatos, e reivindicam o respaldo de uma maioria numérica para justificar a sua imposição simbólica, chamando isso de “direito”. Falam em degradação humana, como se o atoleiro da civilização não fosse forjado em mais de 2 mil anos de domínio quase absoluto do cristianismo católico em nações como a brasileira.

Se a crença é tão consolidada entre o povo, porque uma reação tão indignada com a possibilidade de retirada de crucifixo de um local público? Para se manifestar a fé é preciso tanta ostensividade visual? Onde fica o respeito aos milhões que têm outra fé que não a cristã que necessita de um crucifixo na parede de uma sala? Onde está o respeito aos agnósticos, ateus e outras pessoas que não se filiam a religião alguma?

Repetindo-me: pode-se desrespeitar essa “minoria” em nome dessa suposta “maioria” de cristão que se apegam à exposição de simbolismos materiais em lugares que são de TODOS, TODOS, e não de uma parcela, mesmo que maioria numérica? Democracia é isso? Patrolar a minoria, que deve ficar resignada em sua inferioridade numérica? Em algum momento eu votei para ter o crucifixo exposto atrás dos funcionários públicos do judiciário, onde tudo é pago por TODOS, TODOS, e não só pela parcela católica da população brasileira? Tenha-se santa paciência com tal afronta e arrogância!

Enfim, que fezinha mais rala é essa que se abala com a possibilidade de não ver em todos os lugares um crucifixo? Isso não lembra a passagem bíblica do bezerro de ouro? Não é mais um bezerro de ouro, mas, da mesma forma, trata-se de um objeto material de culto...

Admiro pessoas dedicadas à religião, mas aquelas onde a sua fé não lhes tolda o horizonte, não lhes torna fundamentalista, e onde as outras pessoas têm o sagrado direito de divergir – como foi o caso de Jesus em seu tempo, conforme os contos evangélicos.

12 de mar. de 2012

Religião e especismo

Segue uma costura de e-mails de um pequeno debate via uma lista de amigos:

Falando em homenagem a Iemanjá, fiz um comentário no ano passado sobre a infeliz visão da praia (em Rainha do Mar) que tive na manhã do dia 1º janeiro de 2011, após homenagens de fins de ano que usam as águas do oceano. Na areia, “vomitado pelo mar”, se encontravam sabonetes, frascos de perfume e vários outros “aparatos” altamente poluentes – algo que eu acho inadmissível em tempos onde a consciência ambiental é indispensável para a sobrevivência do próprio planeta. Até “apelei” para que os líderes religiosos/espiritualistas estimulassem rituais que dispensem objetos não biodegradáveis. Acho que homenagens religiosas que poluem, na verdade, hoje são “ofensas” aos seres/forças ligados a elementos da natureza como o mar, as águas etc.

Aliás, se eu fosse um babalorixá, como o foi o fotógrafo e etnógrafo francês Pirre Verger, eu aboliria também TODOS os sacrifícios de animais. Sei que é a maior polêmica. Mas em nome do respeito às tradições, não se pode, por exemplo (e nada ver com babalorixá), ficar aceitando coisas como a extirpação de clitóris de garotas pubescentes, como acontece em alguns lugares do mundo, entre outras barbaridades. Animais, para mim, são seres sencientes, ou seja, muito semelhantes (para não dizer iguais) aos humanos, quer dizer, com sensibilidade a dor, portanto, sofrem, têm medo, saudade – como podem comprovar aqueles que lidam amorosamente com animais doméstico e até “os de corte” – além do que já nos diz a neurociência animal.

Por mais restrições que eu tenha a várias vertentes do cristianismo, ao menos os rituais de sacrifício – tão presentes no Velho Testamento – foram substituídos, em muitos casos, pelos simbolismos do vinho (bebe-se o sangue) e da hóstia (canibaliza-se o corpo de Cristo). Assim, não se sangra animal, nem ingere-se carne humana – como o faziam os astecas em seus rituais. (Já pensaram se os descendentes indígenas na América Central reivindicassem o direito de seguir a tradição de seus antepassados??)


Está na hora de uma reconfiguração, creio eu. Até mesmo a religiosidade pode incorporar as novas compreensões humanas. Sugiro que ao invés de matar um cabrito ou bezerro, a pessoa corte o seu próprio braço e ofereça às deidades... O sangue vai ser muito semelhante, assim como a dor...


Reforço: não falo “só” das religiões de matriz africana. No Brasil é, provavelmente, a vertente religiosa que mais faz uso de sacrifício de animais, mas isso existe dentro do judaísmo e do islamismo (para falar dos monoteísmos), entre outros milhares de outros cultos existentes no mundo.

Comer animais é algo que se pode admitir, considerando que somos omnívoros, biologicamente adaptados para obter e digerir carne. Em alguns lugares, os vegetais são praticamente inexistentes, como em pontos do ártico ondem vivem esquimós; eles dependem completamente da carne – e vísceras, ossos, peles, gordura etc. – para sobreviverem.

Nos sacrifícios rituais, na minha visão, o bicho é morto sem que haja, digamos assim, uma “necessidade concreta”; o sangue “desperta” uma força que poderia ser “despertada” por outro elemento simbólico ou ato ritualístico sem a morte real do animal.


Como fiquei sabendo, é ótimo que já há uma preocupação entre lideranças religiosas afros. Nos movimentos que questionam a morte e exploração de animais pelos humanos (os veganos à frente) se usa o termo ESPECISMO, similar a RACISMO; assim como certos grupos humanos se achavam no direito de escravizar outros grupos, considerando-os “inferiores”, nós continuamos submeter os animais aos nossos caprichos, ou seja, explorando-os ao ponto de matá-los – até por “razões espirituais”! A arrogância humana não tem limites; nos achamos os dono de tudo no universo, criando teorias que nos põem no ápice da criação e nos autoriza a sacrificar outros seres em nome de concepções abstratas.


Eu sou pouco conhecedor (para não dizer ignorante) da religiosidade e cultos afros, mesmo que conviva com devotos desde piá, tenha frequentado terreiros e lido algumas coisas esparsas sobre o assunto (citei o Pierre Verger, por exemplo).


Pois é. Falei que a questão (sacrifício de animais) é polêmica. Sim, dá para usar a “defesa dos animais” como um instrumento/escudo para exercer o racismo contra os cultos de matriz afro. Creio que não é o meu caso e não deve ser o de muita gente sinceramente preocupada em fazer valer uma perspectiva menos antropocêntrica e de respeito à vida de todos os seres sencientes, superando o especismo, o “racismo” contra os animais – tidos como “inferiores” e passíveis de morte, como já aludi.

Ter cuidados com o bem-estar e a diminuição do sofrimento dos animais a serem abatidos já é bom. Mas continua sendo uma arbitrariedade dos homens/mulheres sacrificar um outro ser para satisfazer algum preceito religioso ou gula (aquilo que ultrapassa a necessidade nutricional – no meu conceito). Penso que se deve evitar o fundamentalismo religioso, o dogmatismo, tanto quanto se evitar o preconceito racista e outros. Com toda certeza, os rituais, a maneira de conduzir a religiosidade humana foi se alterando ao longo do tempo e sempre será assim – “uma metamorfose ambulante”.

Bem, o debate é infindável e precisamos de pessoas que tenham conhecimentos profundos sobre história das religiões, teologia, ética, biologia animal (humanos inclusos) etc. Não pode ser um debate somente entre religiosos, mas incluir outros campos do conhecimento humano e perspectivas de existência.


Desculpa se fiz alguém entender que os filiados a cultos de matriz afro são fundamentalista. Na minha argumentação, disse que se deve – de modo geral, referindo-se a todas as religiões e todas as pessoas (me incluindo, obvio) – evitar fundamentalismos, ou seja, as explicações dogmáticas, fechadas, sem chances para críticas.

O sacrifício de animais é uma questão, no meu entendimento, que exige uma compreensão não só da religiosidade (de matriz afro e outras que se usam do sacrifício), mas compreender também a postura de quem é contrário a morte e exploração – seja para qualquer fim – de animais, caso dos veganos, que são vegetarianos restritos. Contrapor-se argumentos, mantendo-se a abertura de um lado e outro (ou outros). Só assim há avanços, penso eu.

Não estou tendo grandes cuidados com as palavras e nem me detalhando. Como eu disse, o assunto é complicado e praticamente sem fim. Particularmente, digo mais uma vez, aboliria o sacrifício de animais nos cultos religiosos, mas entendo a enorme dificuldade de se chegar a esse termo por conta de tradições culturais que merecem o maior respeito. Mas esse mesmo respeito se deve a quem concebe os animais como seres senscientes, que não deveriam ser mortos por motivo religioso ou, mesmo, alimentar.

7 de fev. de 2012

Não é piada


Por duas vezes, recebi um e-mail que parece uma reação “bem humorada” (mas, para mim, extremamente problemática) às ações afirmativas voltadas à promoção da comunidade negra brasileira. São 17 “artigos” falando em cotas para “alemães”, penalidades a supostas ofensas raciais, dias comemorativos etc. Quando recebi, fiz um comentário e remeti-o como “resposta” a amigos. No segundo caso, expliquei à pessoa (uma professora) que estava reproduzindo o mesmo comentário, conforme segue abaixo.


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Olá, profa.

No mês passado um outro amigo também remeteu, através de uma lista de conversas via e-mail que eu participo, esse “projeto de lei”. Obviamente, se trata de um chiste, que pretende, com ironia, criticar as ações afirmativas vinculadas à promoção da população negra brasileira – mas que também envolve a população indígena, beneficiária nas reservas de vaga, como ocorre no ProUni, entre outros programas federais bastante exitosos.

Na ocasião que recebi o texto, enviei uma “resposta”, que vou colar mais abaixo. É um rápido e informal comentário feito para/entre amigos da supracitada lista, na maioria “leigos” no debate. Está longe de esgotar a questão, mas pode ser uma abertura para uma argumentação mais consistente sobre a procedência ou não do uso de cotas no Brasil.

Agradeço a tua atenção. Tudo de bom e fico à disposição.


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Hehe!!

Como disse o nosso camarada, como uma piada provocativa, fica bem. Mas vai até aí!

De fato, chamar alguém de "alemão porco" é racismo e se deve enquadrar o cara na hora, sem hesitação. Chamar o cara de "negro" como referência de origem étnico-racial (racial só existe em sentido ideológico, não biológico) não é ofensa alguma. Chamar o cara de "negro sujo" já é ofensivo e é passível de enquadrar como racismo ou, no mínimo, injúria. Há um mal entendido geral de que chamar alguém de negro é ofensivo, quando os próprios militantes se intitulam de “movimento negro”. Os equívocos já começam por aí e depois só pioram!!!

No item 03 usa-se a palavra "denegrir", ou seja, “torná-lo negro”, ou seja, rebaixá-lo, ofendê-lo... Sem querer, estão aí palavras que demonstram o nosso racismo institucionalizado, internalizado - como usávamos tranquilamente na infância a palavra "negrisse" para dizer que era algo exagerado e feio...

O racismo contra negros tem uma história longa, triste, cruel e massiva. Negros foram animalizados para justificar a escravização e viveram no Brasil, por quase 400 anos, abaixo do pau e do mais abjeto rebaixamento, além de uma exploração absurda do trabalho e outros sujeições indescritíveis, brutais. O passado não se apaga e, no caso, é uma maldição que ainda não expirou. Basta olhar as os estudos e estatísticas e ver os patamares socioeconômicos onde está a esmagadora maioria da população negra no Brasil – a maior nação negra após a Nigéria. Cito só dois estudiosos ainda referencias no assunto: Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes [foto acima]. Produziram estudos profundos e reflexões que todos deveríamos ter ao menos uma noção – para embasarmos nossas posições com mais dados e menos preconceitos e chavões reacionários.

As pessoas de “origem alemã” – uma designação imprecisa para uma população tão vasta e diversa (e considerando que a Alemanha sequer existia como país até 1870), que emigrou do norte da Europa aqui para a região, forçadas pela miséria crescente e tremendas injustiças sociais lá existentes, e, boa parcela, dentro de programas subsidiados com recursos do governo brasileiro (aliás, gerados pelo trabalho escravo), esses indivíduos e famílias recebiam, em suas primeiras levas aqui para Santa Cruz, em meados do século XIX, cerca de 72 hectares, além de ferramentas, utensílios, provisões de alimentos; aos negros após a abolição, o que lhes foi oferecido depois de gerações e gerações negras trabalhando feito bois de canga ou coisa pior?? Daí os efeitos sociais e culturais perversos, que não desaparecem facilmente. E então são necessárias ações que surtam efeito já, imediatamente; que o neguinho não precise esperar mais 100 anos para, por exemplo, se formar médico, engenheiro, professor universitários; políticas afirmativas como as cotas (alguns chama de “discriminação positiva”) é isso: "burlar" (ou vencer) as consequências funestas do passado de modo mais rápido, sem mais delongas. (Depois de equalizada e construída uma igualdade de fato, extingue-se a ação.)

E não se pense que o pobre branco é igual ao pobre negro; o negro pobre tem um "plus" de adversidade para enfrentar desde o nascimento – justamente o racismo. Para quem duvidar, posso remeter um estudo local, aqui de Santa Cruz do Sul, feito pelo historiador Alan Seitenfus, “Mobilidade social e processo de (re)democratização do Brasil”, traçando comparativos entre a mobilidade socioeconômica de brancos e negros da mesma classe – e aí se verá quanta diferença faz a cor da pele e o cabelo pixaim...

Enfim, não se criou políticas afirmativas, caso das cotas, baseando-se numa vontade de “ser bonzinho com os negros”. No frigir dos ovos, toda a população brasileira se beneficia com a equalização étnico-racial, diminuindo-se disparidades e conflitos advindos dos fossos (fossas?) sociais. Não dá mais para aceitar que, como acontece em quase todas as universidade brasileiras, onde, em seu quadro de professores, um número tão diminuto de docentes seja de pessoas negras, estando longe de refletir o percentual de afrodescendentes existentes em nível local e nacional. Será que isso acontece por “pura” incapacidade, falta de vontade da “negrada”? Eu penso que não. É o racismo agindo pelos seus sutis, mas poderosos filtros.

No Brasil temos um “apartheid” mais eficiente do que o havido na África do Sul e EUA – porque "cordial" e "não dito". E isso não se rompe só com palavreados, grandiloquências ditas do alto de nossa brancura e seus privilégios (naturalizados), de que “TODOS SOMOS IGUAIS”. É preciso considerar os fatos, os números e a história, e agir aqui e agora para diminuir injustiças e sofrimentos.

Abraços!