29 de nov. de 2012
Duas citações
Michel Shermer, em "Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas: Pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos", da JSN Editora, 2011:
MORAL
A moral não existe na natureza e, portanto, não pode ser descoberta. Na natureza existe apenas ações – ações físicas, biológicas, humanas. Os humanos agem no sentido de aumentar sua felicidade, seja lá com definam pessoalmente. As sua ações se tornam morais ou imorais apenas quando outra pessoa as julga como tais.. Assim, a moralidade é a rigor uma criação humana, sujeita a toda sorte de influências culturais e construções sociais, do mesmo modo que ocorre com outras construções humanas. p.154
CIÊNCIA
O que separa a ciência das demais atividades humanas é o seu compromisso com a natureza experimental de todas as suas conclusões. Não há respostas conclusivas na ciência, apenas graus variáveis de probabilidade. Mesmo os “fatos” científicos são apenas conclusões confirmadas em tal grau que se torna razoável oferecer-lhes uma concordância provisória, mas esse assentimento nunca é definitivo. A ciência não é afirmação de um conjunto de crenças, mas um processo de investigação voltado para a construção de um corpo testável de conhecimentos constantemente aberto a rejeição ou confirmação. Em ciência, o conhecimento é fluido e a certeza, fugaz. Isso está no cerne de suas limitações. E isso constitui também a sua maior força. p.155
Fé demais...
A fé em si não é uma coisa boa. Nem má. A fé, no sentido de crença religiosa, pode levar uma pessoa a ter compaixão, ser solidária e sentir-se bem convivendo colaborativamente na sociedade.
Mas a fé também pode produzir assassinos suicidas, caso dos que jogaram dois aviões nas chamadas Torres Gêmeas nos EUA, só para citar a fé em uma das várias confissões religiosas produtoras de fanatismo, ao ponto de executar e justificar a morte de milhares e até de quem sequer tem alguma religião. Um exemplo extremo, para falar das violências (simbólicas, inclusive) cotidianas de quem tem “fé de mais” (alusão ao título brasileiro do filme “Leap of Faith”, com o comediante Steve Martin - na ilustração acima), caso da imposição de crucifixos, quadros e estátuas de santos e outros objetos de culto católico em lugares públicos do Estado.
Assim, as virtudes da fé são relativas; jamais podem ser absolutizadas – tidas como natural e inequivocamente positivas, sempre a produzir bons frutos. Num mundo, como dissemos, onde matanças são feitas em nome de Deus e profetas, a fé não pode ser vista com tanta e tranquila beatitude...
Li que um padre disse “A fé é tudo e Deus, o máximo”, ou algo parecido. Sim, para quem a tem, a fé pode ser tudo – e nada precisa de embasamento, de comprovação reiterada; Jesus transformou água em vinho e ponto final, foi literal; Deus transformou o bastão de Abraão em uma cobra e, sim, isso aconteceu de fato – não é nenhuma alegoria ou ilusionismo ou história para impressionar... E Deus é o máximo porque não admitimos algo que transcenda o humano conceito “Deus”; é o nome para tudo que não conseguimos explicar.
Deus é algo que está além de nossa capacidade de entendimento e supomos que tal “ser” seja algo muito bom, que nos rege com uma sabedoria sempre boa ao final dos finais – mesmo quando uma criança, se divertindo com os pais no pátio de casa, é atingida por um poste, numa coincidência trágica, dolorosa e revoltante, mas que tenta-se entender como algum desígnio divino, “vontade do Pai” ou carma... Pois a fé também pode consolar em casos do tipo – e isso, para nós, seres frágeis, falíveis, é um alento, um mecanismo de defesa da saúde mental; não raro aceitamos falácias para nos auto-proteger e proteger outros da tremenda dor que a existência pode implicar e seguidamente implica.
Mas, reafirmando, a fé também pode causar sofrimento e limitar a própria vida da pessoa. Em nome da fé posso restringir ou abdicar do exercício da minha sexualidade sem que eu tenha condições psico-biológicas para tal repressão, o que vai me levar a adoentar-me, ou perverter a minha libido de forma perigosa a outros, até mesmo a crianças.
Definitivamente, a fé não é tudo e Deus é o máximo que alguns encontram para designar aquilo que nos foge ao entendimento e aceitação...
"Espírito de Êxtase"
Naquelas zapeadas pela internet, buscando umas informações, cheguei ao site da Rolls-Royce.
Há um video institucional da empresa que achei bacana (abstraindo usos assassinos de alguns dos aparelhos deles), que está na página de abertura. Para quem gosta de tecnologia e indústria - motores e energia, especialmente -, é bem emocionante ver aquela gigantesca estrutura mundial e a fala dos seus colaboradores.
http://www.rolls-royce.com/
Uma curiosidade: "Espírito de Êxtase", como vocês sabem (mas eu não sabia) é o nome da "estatueta" (ilustração acima), marca distintiva dos veículos RR. Foi modelada a partir da amante do editor da revista The Car Illustrated, que pediu que se fizesse um adorno para o carro que estava adquirindo – isso em 1911. "O símbolo representava sua amada sentindo a música e o vento da nova máquina"... O êxtase proporcionado pela potencia, conforto e elegância de um automóvel luxuoso, para poucos.
Na Wikipedia está notado que “Tudo sobre estes carros revela classe. Desde a magnífica mascote ‘Espírito de Êxtase’, ao suntuoso interior estofado. Do silencioso som do motor, ao abafado som emitido ao fechar a porta do carro”. Não é por nada que o nome do primeiro veículo da RR foi Silver Ghost (o Fantasma Prata), por conta do seu impressionante silêncio...
Olhem aqui neste blog a estatueta, a amante e o carrão circulando em Londres, além de alguns outros detalhes:
http://nwsistemas.blogspot.com.br/2011/07/spirit-of-ecstasy-espirito-do-extase.html
12 de nov. de 2012
Finados para agnósticos, ateus e crentes
O livro “Religião para ateus” do Alain de Botton me abriu para novas considerações, enquanto me subsidiou para coisas que eu já pensava.
O feriado dos finados. Uma data que, aqui, tem um teor religioso e, mesmo, mórbido – ou ao menos de tristeza opressiva. Além disso, foca-se, para cada um, nas pessoas que conviveram mais diretamente conosco: os nossos parentes mortos, especialmente.
Sei que há lugares onde o que existe é um “Festa dos Mortos”, com quitutes e farto consumo de bebidas e até bailes. Ou seja, paradoxalmente, há um extravasamento da vida, da alegria, da mundanidade em homenagem aos mortos...
Lembro que, quando piá, íamos, pai, mãe, irmão, avó e demais parentela para o cemitério de Ponte Queimada, onde, estava (e está) enterrado o meu avô materno e outros ex-chegados da família da minha mãe. Um caminhão de bebidas ficava estacionado à sombra de grandes plátanos em frente ao muro de pedras do cemitério e, se a minha memória não me prega peças, havia churrasqueiras onde se preparavam carnes para o almoço. Quer dizer, havia um caráter festivo, de diversão (ao menos para as crianças), de encontro comunitário – entre vivos! – naquela visita aos túmulos, quando se aproveitava para lavar, reenfeitar e até fazer reformas das lápides e jazigos – além de orar pelas almas dos falecidos, claro.
Mas o que hoje me parece ficar patente é a contrição um tanto quanto depressiva, além de ser cada vez mais formalidades anuais mais ou menos “obrigatórias”, sem uma adesão coletiva de familiares, “sobrando” para os mais antigos a reverência aos já definitivamente antepassados.
Max Weber tem o conceito de “desencantamento do mundo”, que é, para mim - mesmo não sendo isso que o sociólogo alemão eseteja se referindo diretamente -, a explicação para o afastamento dos cemitérios da gerações como a minha, formadas por uma mentalidade científica já consolidada, desacreditada no sobrenatural em qualquer sentido. Não há magia, não há fadas, duendes, anjos, fatasmas, espíritos, almas que se reencarnam - a não ser como algum tipo de alegoria ou mito explicativo, lenda, supertições tão populares quanto falsas, quando não enganadoras, alienantes, limitantes do potencial humano de compreensão.
Entretanto, não seria bacana reformar isso, pegando carona no que propõe o Botton? (“Santa utopia, meu caro”, já vejo dizendo-me!) O Finados, o Dia dos Mortos poderia ser uma Comemoração aos Antepassados (ou um nome que “pegasse” melhor).
Seria um dia de reverenciar a memória não só de parentes e amigos, que já não têm existência física e que, independente de crença religiosa, continua a existir em nossas memórias. Ou aqueles/as que se notabilizaram e ficaram registrados por feitos – livros, relatos, inventos – essa infinidade de gente que construiu os povos, a humanidade no que ela tem de mais bacana. (Assim é que energúmenos, caso de abomináveis ensandecidos “hitlers”, deixaríamos para uma data de pranto, mesmo!)
Seria uma data de reconhecimento, agradecimento e estímulo a uma “vida significativa”, voltada para as coisas coletivas.
Os egoístas e os maldosos, com certeza, não teriam vez nesta “festa”. Como eu disse, poderia haver uma data para lamentá-los fervorosamente – para que também não esqueçamos que, assim como há pessoas queridíssima, gênios e heróis, há muitos mesquinhos, vilões, violentos torturadores, sanguinários e outras classificações para pequenos e grandes desgraçados da humanidade.
O feriado dos finados. Uma data que, aqui, tem um teor religioso e, mesmo, mórbido – ou ao menos de tristeza opressiva. Além disso, foca-se, para cada um, nas pessoas que conviveram mais diretamente conosco: os nossos parentes mortos, especialmente.
Sei que há lugares onde o que existe é um “Festa dos Mortos”, com quitutes e farto consumo de bebidas e até bailes. Ou seja, paradoxalmente, há um extravasamento da vida, da alegria, da mundanidade em homenagem aos mortos...
Lembro que, quando piá, íamos, pai, mãe, irmão, avó e demais parentela para o cemitério de Ponte Queimada, onde, estava (e está) enterrado o meu avô materno e outros ex-chegados da família da minha mãe. Um caminhão de bebidas ficava estacionado à sombra de grandes plátanos em frente ao muro de pedras do cemitério e, se a minha memória não me prega peças, havia churrasqueiras onde se preparavam carnes para o almoço. Quer dizer, havia um caráter festivo, de diversão (ao menos para as crianças), de encontro comunitário – entre vivos! – naquela visita aos túmulos, quando se aproveitava para lavar, reenfeitar e até fazer reformas das lápides e jazigos – além de orar pelas almas dos falecidos, claro.
Mas o que hoje me parece ficar patente é a contrição um tanto quanto depressiva, além de ser cada vez mais formalidades anuais mais ou menos “obrigatórias”, sem uma adesão coletiva de familiares, “sobrando” para os mais antigos a reverência aos já definitivamente antepassados.
Max Weber tem o conceito de “desencantamento do mundo”, que é, para mim - mesmo não sendo isso que o sociólogo alemão eseteja se referindo diretamente -, a explicação para o afastamento dos cemitérios da gerações como a minha, formadas por uma mentalidade científica já consolidada, desacreditada no sobrenatural em qualquer sentido. Não há magia, não há fadas, duendes, anjos, fatasmas, espíritos, almas que se reencarnam - a não ser como algum tipo de alegoria ou mito explicativo, lenda, supertições tão populares quanto falsas, quando não enganadoras, alienantes, limitantes do potencial humano de compreensão.
Entretanto, não seria bacana reformar isso, pegando carona no que propõe o Botton? (“Santa utopia, meu caro”, já vejo dizendo-me!) O Finados, o Dia dos Mortos poderia ser uma Comemoração aos Antepassados (ou um nome que “pegasse” melhor).
Seria um dia de reverenciar a memória não só de parentes e amigos, que já não têm existência física e que, independente de crença religiosa, continua a existir em nossas memórias. Ou aqueles/as que se notabilizaram e ficaram registrados por feitos – livros, relatos, inventos – essa infinidade de gente que construiu os povos, a humanidade no que ela tem de mais bacana. (Assim é que energúmenos, caso de abomináveis ensandecidos “hitlers”, deixaríamos para uma data de pranto, mesmo!)
Seria uma data de reconhecimento, agradecimento e estímulo a uma “vida significativa”, voltada para as coisas coletivas.
Os egoístas e os maldosos, com certeza, não teriam vez nesta “festa”. Como eu disse, poderia haver uma data para lamentá-los fervorosamente – para que também não esqueçamos que, assim como há pessoas queridíssima, gênios e heróis, há muitos mesquinhos, vilões, violentos torturadores, sanguinários e outras classificações para pequenos e grandes desgraçados da humanidade.
30 de out. de 2012
Turismo e aventura no quintal
Que beleza, Sandolitos, trilheiro motociclista!
Como tenho dito, continuo fazendo minhas "trilhas domésticas". No sábado retrasado, por exemplo - um dia com chuvisqueiro, mas estios providenciais -, estivemos em Santa Maria e Cachoeira. Santa Maria, conheci, enfim, a famosa Vila Belga, fundada pela companhia ferroviária de origem belga. É ali bem perto do centro da cidade, com casas e ruas que preservam traço arquitetônicos do começo do século XX. Também fui num outro lugar de lá: o Planetário da UFSM, onde existe até uma reprodução de um megalito (ou megálito) Inca usado para as "medições" astronômica na América pré-Colombo.
Mas trilha, mesmo, fizemos no Zoo-Jardim Botânico/Museu Municipal de Cachoeira do Sul, no final de uma ruela quase escondida. Pequeno, mas me surpreendeu - duas enormes onças, além de corujas, carcaras, quatis, cascavéis, jararacas, caranguejeiras etc. Em pleno centro, meio escondido, no final de uma ruela atrás da praça da Câmara de Vereadores...
Mas o mais sensacional: o Parque Witeck, que fica na área do município de Novos Cabrais, mas na entrada da estrada (RS 153) que leva até a cidade de Cachoeira.
Bacaníssimo. Uma trilha com árvores do mundo todo, lagos, casas rústicas - uma área recuperada há 50 anos por um médico do exército que foi morar em Cachoeira a partir de 1962. É propriedade particular, mas aberta para visitação pública. Quero voltar lá, porque fui mais para dar uma primeira olhada. Só conhecia por "ouvir falar".
Fica pra quem não conhece a dica e o link para a visita a este parque:
http://www.parquewiteck.com.br
É assim que aproveitamos momentos prosaicos, como de um pequena viagem para outros fins - fazer uma prova no curso de especialização da Nenê, no caso - para conhecer (ou "re"conhcer) lugares e situações novas, numa espécie de aventura doméstica - incluindo cafés de máquina em lanchonetes de postos de gasolina...
Como tenho dito, continuo fazendo minhas "trilhas domésticas". No sábado retrasado, por exemplo - um dia com chuvisqueiro, mas estios providenciais -, estivemos em Santa Maria e Cachoeira. Santa Maria, conheci, enfim, a famosa Vila Belga, fundada pela companhia ferroviária de origem belga. É ali bem perto do centro da cidade, com casas e ruas que preservam traço arquitetônicos do começo do século XX. Também fui num outro lugar de lá: o Planetário da UFSM, onde existe até uma reprodução de um megalito (ou megálito) Inca usado para as "medições" astronômica na América pré-Colombo.
Mas trilha, mesmo, fizemos no Zoo-Jardim Botânico/Museu Municipal de Cachoeira do Sul, no final de uma ruela quase escondida. Pequeno, mas me surpreendeu - duas enormes onças, além de corujas, carcaras, quatis, cascavéis, jararacas, caranguejeiras etc. Em pleno centro, meio escondido, no final de uma ruela atrás da praça da Câmara de Vereadores...
Mas o mais sensacional: o Parque Witeck, que fica na área do município de Novos Cabrais, mas na entrada da estrada (RS 153) que leva até a cidade de Cachoeira.
Bacaníssimo. Uma trilha com árvores do mundo todo, lagos, casas rústicas - uma área recuperada há 50 anos por um médico do exército que foi morar em Cachoeira a partir de 1962. É propriedade particular, mas aberta para visitação pública. Quero voltar lá, porque fui mais para dar uma primeira olhada. Só conhecia por "ouvir falar".
Fica pra quem não conhece a dica e o link para a visita a este parque:
http://www.parquewiteck.com.br
É assim que aproveitamos momentos prosaicos, como de um pequena viagem para outros fins - fazer uma prova no curso de especialização da Nenê, no caso - para conhecer (ou "re"conhcer) lugares e situações novas, numa espécie de aventura doméstica - incluindo cafés de máquina em lanchonetes de postos de gasolina...
Alienação tecnológica e a "foto" de Jesus
Esses dias fiquei perturbado pelo recebimento de um daqueles e-mails "TU DEVES REPASSAR AGORAAAARGHH!!!”, sob pena de te acontecer alguma desgraça. Meu “desassossego” ficou por conta de quem estava me enviado aquilo: uma pessoa com doutorado e professor universitário... Vai o comentário que fiz na ocasião:
Começa por dizer que a ilustração em anexo é uma foto, quando, obviamente, é um desenho, retratando Jesus Cristo conforme o estereótipo – um homem branco, magro, de cabelos compridos, com um rosto expressando dor, tendo na cabeça a terrível coroa de espeinhos. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão, aquele que se dá pela salvação da humanidade... pois bem, caso tu não repasses tal figura, desencadeará uma grande desgraça na vida do preguiçoso, desatento ou cético internauta...
Referências como a de ter aparecido "até no Fantástico" (o programa da Globo), um presidente da Argentina (que teria sido “punido” por não dar encaminhamento a mensagem, morrendo o seu filho), uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a referência a "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria (como “recompensa” por repassar a mensagem), o prazo de "13 dias"... tudo isso me espanta pela superstição, o obscurantismo envolvidos; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, compartilhada ao que parece, por pessoas academicamente especializadas, profissionais bem remunerados da área da educação superior... Não, não é exatamente (ou somente) uma crítica: é uma vontade de entender o que está acontecendo... Me parece, também, um contradição – algo que se choca ao propósito do saber desenvolvido em universidades, no ensino e pesquisa acadêmicas – que, acho eu, justamente se estabelece para não sermos submetidos pela irracionalidade. (Mesmo que se possa dizer que o humano seja por natureza 98% irracional, e coisas como a religião não sejam necessariamente ruins, um mal, mas estratégias de conforto e compreensão do mundo aparentemente caótico em que vivemos. Tem um cara que se chama Michael Shermer, articulista na Scientific American [já vi uns pedaços de palestras dele no Youtube e estou lendo um dos seus livros] e editor de uma outra revista famosa, a Skeptic Inquirerer. Bem, ele diz que "sua intenção não é subestimar as pessoas que acreditam em 'coisas estranhas', mas sim entender por que elas acreditam" naquilo, sem cair num "dogmatismo científico". Eu estou por aí.)
Outro ponto que também me surpreende, aí de um modo mais geral, é a nossa “alienação tecnológica” – e que levam pessoas a repassar mensagens que julgo estapafúrdias. Usamos inúmeros e sofisticados artefatos tecnológicos – eletrônicos, computacionais e mecânicos especialmente – sem que tenhamos uma noção ao menos básica da complexidade dos conhecimentos e habilidades humanas consubstanciadas num ato, por exemplo, de enviarmos uma mensagem via internet, anexando uma imagem ou vídeo; ou no ato de atendermos nossa mãe no celular, enquanto estamos nos deslocamos no elevador do aeroporto, onde embarcaremos numa viagem sem escala em um avião Airbus A380 de Porto Alegre até São Paulo... subjazem quase completamente esquecidos aí uma gama de fórmulas físico-matemáticas, química fina aplicada e de tantos outros conhecimentos gerados pela metodologia científica; parece que nos mantemos como crianças crédulas, despachando mensagens de um conteúdo confuso e do maior obscurantismo, da maior desconsideração ao que já foi produzido pelas diversas ciências – incluindo as humanísticas (caso da sociologia, ciência política, antropologia etc.)...
Uma ligeira leitura do texto deveria ser suficiente para alertar-nos sobre sua precariedade de sentido e conteúdo. E onde se esperava a sensatez, por se tratar de pessoas que trabalham em uma universidade, reduto da reflexão metódica e exaustiva, o que se vê, porém, é a mais rasa credulidade...
Há em nossas vidas uma crucial contradição, resultado do uso alienado, do “analfabetismo científico”, que nos mantém apenas na superfície, nas “interfaces” dos aparatos tecnológicos – o teclado do celular, da tela do computador, do controle remoto da TV, da direção do automóvel, da poltrona do avião, do creme vegetal sobre a fatia do pão de sanduíche etc. parece que não temos estímulo para entender “o que está pro trás”, qual a “magia” que está ali... Por certo isso exige um certo esforço intelectual (talvez aí esteja um dos nós da questão...), mas tal empenho revelaria que não há magia propriamente, mas um preciso funcionamento derivado de um enorme esforço acumulado de saberes.
Começa por dizer que a ilustração em anexo é uma foto, quando, obviamente, é um desenho, retratando Jesus Cristo conforme o estereótipo – um homem branco, magro, de cabelos compridos, com um rosto expressando dor, tendo na cabeça a terrível coroa de espeinhos. Interessante que essa figura, que representa o amor incondicional, a bondade encarnada, a suprema compaixão, aquele que se dá pela salvação da humanidade... pois bem, caso tu não repasses tal figura, desencadeará uma grande desgraça na vida do preguiçoso, desatento ou cético internauta...
Referências como a de ter aparecido "até no Fantástico" (o programa da Globo), um presidente da Argentina (que teria sido “punido” por não dar encaminhamento a mensagem, morrendo o seu filho), uma pessoa chamada Alberto Martines (imaginei-o um mexicano ou costa-riquenho)... a referência a "o poder Ele tem", "milagres", ganhar na loteria (como “recompensa” por repassar a mensagem), o prazo de "13 dias"... tudo isso me espanta pela superstição, o obscurantismo envolvidos; a crendice mais simplória e, aí é o ponto, compartilhada ao que parece, por pessoas academicamente especializadas, profissionais bem remunerados da área da educação superior... Não, não é exatamente (ou somente) uma crítica: é uma vontade de entender o que está acontecendo... Me parece, também, um contradição – algo que se choca ao propósito do saber desenvolvido em universidades, no ensino e pesquisa acadêmicas – que, acho eu, justamente se estabelece para não sermos submetidos pela irracionalidade. (Mesmo que se possa dizer que o humano seja por natureza 98% irracional, e coisas como a religião não sejam necessariamente ruins, um mal, mas estratégias de conforto e compreensão do mundo aparentemente caótico em que vivemos. Tem um cara que se chama Michael Shermer, articulista na Scientific American [já vi uns pedaços de palestras dele no Youtube e estou lendo um dos seus livros] e editor de uma outra revista famosa, a Skeptic Inquirerer. Bem, ele diz que "sua intenção não é subestimar as pessoas que acreditam em 'coisas estranhas', mas sim entender por que elas acreditam" naquilo, sem cair num "dogmatismo científico". Eu estou por aí.)
Outro ponto que também me surpreende, aí de um modo mais geral, é a nossa “alienação tecnológica” – e que levam pessoas a repassar mensagens que julgo estapafúrdias. Usamos inúmeros e sofisticados artefatos tecnológicos – eletrônicos, computacionais e mecânicos especialmente – sem que tenhamos uma noção ao menos básica da complexidade dos conhecimentos e habilidades humanas consubstanciadas num ato, por exemplo, de enviarmos uma mensagem via internet, anexando uma imagem ou vídeo; ou no ato de atendermos nossa mãe no celular, enquanto estamos nos deslocamos no elevador do aeroporto, onde embarcaremos numa viagem sem escala em um avião Airbus A380 de Porto Alegre até São Paulo... subjazem quase completamente esquecidos aí uma gama de fórmulas físico-matemáticas, química fina aplicada e de tantos outros conhecimentos gerados pela metodologia científica; parece que nos mantemos como crianças crédulas, despachando mensagens de um conteúdo confuso e do maior obscurantismo, da maior desconsideração ao que já foi produzido pelas diversas ciências – incluindo as humanísticas (caso da sociologia, ciência política, antropologia etc.)...
Uma ligeira leitura do texto deveria ser suficiente para alertar-nos sobre sua precariedade de sentido e conteúdo. E onde se esperava a sensatez, por se tratar de pessoas que trabalham em uma universidade, reduto da reflexão metódica e exaustiva, o que se vê, porém, é a mais rasa credulidade...
Há em nossas vidas uma crucial contradição, resultado do uso alienado, do “analfabetismo científico”, que nos mantém apenas na superfície, nas “interfaces” dos aparatos tecnológicos – o teclado do celular, da tela do computador, do controle remoto da TV, da direção do automóvel, da poltrona do avião, do creme vegetal sobre a fatia do pão de sanduíche etc. parece que não temos estímulo para entender “o que está pro trás”, qual a “magia” que está ali... Por certo isso exige um certo esforço intelectual (talvez aí esteja um dos nós da questão...), mas tal empenho revelaria que não há magia propriamente, mas um preciso funcionamento derivado de um enorme esforço acumulado de saberes.
17 de out. de 2012
Álcool num desfile onde há milhares de criança? Que mensagem estamos passando? Álcool é alegria? Como se contrapor ao uso de outras drogas?
Como tenho falado, acho uma tremenda irresponsabilidade haver álcool sendo distribuído num desfile com crianças, com carros alegóricos, inclusive, aludindo a infância - caso, mais uma vez, aqui na Oktober 2012.
Muitas pessoas fazem enormes esforços para minimizar os problemas com o uso abusivo de drogas e, em eventos de rua, em pleno domingo de manhã, se assiste marmanjos empunhando canecões e distribuído fartamente a beberragem alcoólica em meio a alegorias de "contos de fada" e muitas brincadeiras.
E não me venham com a hipocrisia de dizer que o álcool é lícito e não é distribuído para as crianças no dsfile. Perceba-se o processo "educativo", pelo "exemplo", que acontece em momentos como esse, onde o álcool é apresentado como um inocente e bonito recreativo em meio a sorrisos, flores e cucas. (O que diriam os mesmo que empunham canecões na Marechal Floriano sobre a "Marcha pela Maconha"?) Não é porque o álcool faz parte do nosso cotidiano que vamos continuar glorificá-lo e tratá-lo como algo "menor".
Já falei que todo o trabalho de órgão como o COMAD (Conselho que trata das políticas em relação ao uso de drogas no município) é destruído e desmoralizado por momento como estes do desfile da Oktober.
Acho perfeitamente possível se fazer um desfile sem propaganda e distribuição desse nada inocente psicoativo contido no chope.
Todo o meu repúdio a quem insiste nisso. Quer beber, encher a cara, faça isso (como eu faço muito de vez em quando) em lugar privado e sem alarde. Álcool é droga, não é suco de groselha. Não se trata de ser "moralista" ou "careta" (de certa forma, são irrefutáveis "válvulas de escape"), mas se ter coerência e efetividade no controle do consumo indevido e abusivo de drogas, que tantas desgraças produz de forma direta e indireta (vide inúmeros acidentes fatais de trânsito).
Muitas pessoas fazem enormes esforços para minimizar os problemas com o uso abusivo de drogas e, em eventos de rua, em pleno domingo de manhã, se assiste marmanjos empunhando canecões e distribuído fartamente a beberragem alcoólica em meio a alegorias de "contos de fada" e muitas brincadeiras.
E não me venham com a hipocrisia de dizer que o álcool é lícito e não é distribuído para as crianças no dsfile. Perceba-se o processo "educativo", pelo "exemplo", que acontece em momentos como esse, onde o álcool é apresentado como um inocente e bonito recreativo em meio a sorrisos, flores e cucas. (O que diriam os mesmo que empunham canecões na Marechal Floriano sobre a "Marcha pela Maconha"?) Não é porque o álcool faz parte do nosso cotidiano que vamos continuar glorificá-lo e tratá-lo como algo "menor".
Já falei que todo o trabalho de órgão como o COMAD (Conselho que trata das políticas em relação ao uso de drogas no município) é destruído e desmoralizado por momento como estes do desfile da Oktober.
Acho perfeitamente possível se fazer um desfile sem propaganda e distribuição desse nada inocente psicoativo contido no chope.
Todo o meu repúdio a quem insiste nisso. Quer beber, encher a cara, faça isso (como eu faço muito de vez em quando) em lugar privado e sem alarde. Álcool é droga, não é suco de groselha. Não se trata de ser "moralista" ou "careta" (de certa forma, são irrefutáveis "válvulas de escape"), mas se ter coerência e efetividade no controle do consumo indevido e abusivo de drogas, que tantas desgraças produz de forma direta e indireta (vide inúmeros acidentes fatais de trânsito).
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