9 de nov de 2008

Origem e similaridades da palavra “gaúcho” e “gauche”



Lendo [isso já faz uns dois anos atrás] o best-sellers da literatura pop, O Código Da Vinte, de Dan Brown – cheio de clichês, mas também de elementos que podem empolgar um leitor como eu –, me chamou a atenção uma palavra da língua francesa, e o que é dito sobre tal palavra. A palavra é “gauche” (dizem que se lê “gôshi”). Já a havia visto em vários outros escritos, como num famoso poema de Drummond. Mas foi a primeira vez que relacionei-a com a palavra “gaúcho” [na ilustração, uma imagem de um gaucho argentino], da nossa da língua portuguesa. A similaridade é grande. O que me fez percebê-la não foi a “aparência” (letras e possíveis pronúncias) – isso eu só notei depois –, e sim o desenvolvimento do significado destas palavras ao longo da história na França e, também, no Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul.

“Gauche” no Francês, pelo que apurei, designa o lado esquerdo, como “mão esquerda”. Conforme o livro de Brown, a esquerda é relacionado ao feminino, e o direito ao masculino. Houve um processo de “satanização do feminino”, onde acabou incluído tudo o que se relacionava à esquerda, ao lado esquerdo. Assim, “gauche” ganhou os significados de “o errado”, “o torto”, “o maléfico”, “o negativo”, enfim, uma dimensão marginal a ser temida, execrada, contida ou, até, eliminada. Como aconteceu, através da Igreja Católica na Idade Média, com a "Caça às Bruxas", ou seja, a perseguição e morte de todas as mulheres que de alguma forma se sobressaíam (ou apenas saim de um determinado padrão) numa sociedade que deveria ser completamente comandada pelos homens, quer dizer, “pelo lado direito" - e não “pelo lado errado”, pelos “canhotos”...

No Rio Grande do Sul e regiões de países fronteiriços ao estado, caso da Argentina e Uruguai, “gaúcho” (originalmente “gaucho”, lido como “gáucho”), era o bandoleiro do pampa, o bugre ou mestiço de indígena, espanhol, português, negro; sobretudo o desterrado, sem lugar fixo de moradia, que afrontava a ordem estabelecida (o establschment), não respeitando limites arbitrados, caso da lei, das demarcações de terras, das “propriedades”; o gaúcho era o marginal – o mesmo sentido que tem a palavra “esquerdo” em Francês, e que se relacionava às mulheres, seres a serem contidos, pois ameaçadores da “ordem” (masculina!).

Há algo de paradoxal na relação: “gaúcho” é o Homem (com “h” maiúsculo!), o machão/machista; já “gauche”, como está na obra de Brown, tem a ver com o feminino, a feminilidade, com as mulheres e sua “força demoníaca”. O que os unem – os termos “gauche” e “gaúcho”, como era entendida décadas atrás –, entretanto, é a conotação pejorativa, de "elemento fora da ordem", de incorreto, de pusilânime, de temerário etc. No caso do termo “gaúcho”, houve uma reabilitação (relativamente) recente, tornado-se – outro paradoxo! – um designativo quase sempre distintivo positivamente. De bandido, o “gaúcho” tornou-se o “herói dos pampas”! Já as mulheres, continuam sendo objetos (e abjetas!), seres subalternizados.

Bem, com tudo isso, pergunto: Será que “gaúcho” não pode ter se originado na palavra francesa “gauche”? Acho que há grandes possibilidades. Falta investigar.

*Há dias estou lendo trechos do Prosa dos Pagos, de Augusto Mayer, onde um dos ensaio é "Gaúcho, História de uma Palavra". Também tenho aqui comigo um livro que mal iniciei, que se cjhama El Gaucho, de Emilio Coni, editado na Argentina. Ambos tive acesso depois de ter escrito esse comentário. Mas venho lendo há tempos (desde a facul na Ufrgs, pelo menos) diversos artigos que "problamtizam" a "gauchidade", como os ecritos de Tau Golim e da Sandra Pesavento, que foi minha professora. Aliás, tal interesse me levou a "problematizar" a germanidade santa-cruzense, que funciona de forma semelhante.
*Meyer, no primeiro capítulo - Gaúcho, História de uma Plavra - do seu mencionado livro, Prosa dos Pagos (Editora Presença, 1979, p. 42), faz um importante alerta ao encerrar seu ensaio: "O estudo semântico da palavra gaúcho vem mostrar como é difícil manter, na historiografia rio-grandense, os velhos preconceitos de uma homogenidade cultural - cultural no sentido sociológico - que nunca existiu. Qualquer tentativa de interpretação de nosso história deverá levar em conta, como fator básico, o critério de aculturação. Aceitar passivamente o prejuízo da homogeneidade social ou política de um grupo rio-grandense, dentro de outro bloco luso-brasileiro, caracterizado e definido por simples idealização do autor, e conforme as suas preferências, é proseguir no cultivo de uma história em que tudo parece acontecer por obra e graça da Divina Providência Gaúcha, que desde começo decretou as cousas na mesma ordem rígida."

*Dan Brown e Baden-Powell

Uma “pista” ou relação que achei também muito curiosa, interessante, no livro do Brawn: O que têm a ver Leonardo Da Vinte, Baden-Powell e Dan Brow? Ou o Priorado de Sião e o Escotismo? E a Mona Lisa e o símbolo mundial dos escoteiros?

Daria pra fazer outras várias relações parecidas, como o pré-nome do protagonista do livro de Brown – O Código Da Vinte – e do fundador do escotismo, ambos Robert...

O que me desencadeou estes raciocínios foi a descrição do logotipo do Priorado de Sião, incrustado em um misteriosa, valiosa e grande chave, que inclui uma FLOR-DE-LIS. Suponho que seja a mesma - ou semelhante, ao menos - a que está no logotipo oficial do Movimento Escotista.

Outra curiosidade trazida por Brown a ver com a flor-de-lis: Além de várias outras possíveis relações/alusões de se fazer com ou do quadro Mona Lisa, de Leonardo Da Vinte, há um anagrama. Veja: “A flor-de-lis... A flor de Lisa.. A Mona Lisa”. Está lá na página 124 da tradução brasileira de O Código.

Entrei na criptologia! A profissão da encantadora personagem, que faz o par romântico com o "nosso herói", Robert Langdon, prototagonista do "thriller" literário que estourou no mundo (e virou filme, que nem fez tanto sucesso).

Clarke



Dia 18 de março passado (2008) foi-se o Arthur Clarke, nosso velho conhecido por conta, em especial, de "2001: Uma Odisséia no Espaço" [imagem do cartaz ao lado] - o filme dirigido pelo Stanley Kubrick, que ele roteirizou e depois transformou em um romance independente, a partir, ambos, do conto A Sentinela, escrito nos anos de 1950.

Bati um papo sobre esta "perda" com o Rafa Amorim, sempre ligado nas "paraciências", incluindo a investigação do fenômenos dos Ovnis, Objetos Voadores Não Identificados. A colaboração do Clarke na formação do imaginário ufológico é enorme. Assim como H.G. Wells, esse outro britânico é um dos "baluartes" das concepções sobre alienígenas, seus mundos, histórias, "máquinas" etc. Além de introduzir e desenvolver aspectos filosóficos e especulações em diversos campos, influindo até na tecnologia espacial (o cara era físico e matemático e recebeu várias homenagens por sua influência neste âmbito).

Destaquei abaixo dois trechos de textos que li no no boletim da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), por ocasião do "passamento":

"Em 1998, [Clarke] recebeu o título de cavaleiro da rainha, pelo conjunto de sua obra. Em dezembro passado, ao completar sua '90ª órbita do sol', o autor listou três desejos: que os extraterrestres entrassem em contato, que a humanidade deixasse a dependência do petróleo e que o Sri Lanka tivesse paz."

"Arthur participou da criação da Sociedade Planetária - uma entidade direcionada para a exploração do espaço, com associados em todo o mundo - que, além de editar uma revista bimestral ('Planetary Report'), estimula doações aos programas espaciais que, com esse objetivo, vêm realizando pesquisas na procura de sinais de vida extraterrestre."

E um pensamento:

"Nossa civilização não é mais do que a soma de todos os sonhos das idades anteriores. E tem de ser assim, pois, se os homens deixarem de sonhar, se voltarem as costas às maravilhas do Universo, acabará a história da nossa raça".

Também saiu na edição de sábado(22/03) um pequeno artigo no caderno Cultura de Zero Hora. Por conta de muito lixo já escrito (e filmado!), somado a diversos preconceitos (o antropocentrismos talvez seja o maior deles), a literatura chamada de ficção científica é menosprezada nos "meios acadêmicos". Na minha leiga opinião, se trata de um gênero importantíssimo em vários sentidos, porque introduz diversos questionamentos complexos sobre nossas vidas e a história da humanidade.

Para a ufologia, como falei, caras como Clarke deveriam ser bem mais “estudados”. Não é porque ele escrevia “ficção” que não há em suas obras literárias um conjunto de reflexões e concepções muito bem embasadas e, até, com maior consistência do que lemos e ouvimos por parte de “autoridade ufológica” por aí.

*As obras do Clarke são muito marcadas pela separação do mundo, de um lado liderado pelos EUA e, pelo outro, pela URSS. Ele, por uma época, não conseguiu imaginar que o comunismo russo poderia ir à breca. Nem que o capitalismo ganhasse uma dominância tão assustadora, com corporações controlando o planeta, sobrando migalhas de poder para outras esferas, incluindo governos de países.

**A série 2001 é formada por quatro romances. O primeiro foi publicado em 1968, juntamente com o filme dirigido por Stanley Kubrick. Mas desde os anos 50, pelo menos, já vinha escrevendo obras ficcionias – que acredito serem fundantes nas especulações que deram origem ao que hoje conhecemos como Ufologia.

O mar nas veias e as estrelas como jóias


A partir de uma frase do ensaio As portas da percepção, de Aldous Huxley, cunhei o seguinte "pensamento":

Quando o mar corre em nossas veias e as estrelas são nossas jóias, e tudo é visto em sua infinitude e sacralidade, que motivos há para a cobiça e à soberba, a fome de poder e prazeres cruéis?

*Huxley diz que o título deste seu ensaio veio de escritos de outro britânico, H. G. Wells. E é daí, desse famoso ensaio de Aldous, que se inspira o nome da cultuada banda The Doors, segundo me disseram.

Paz à bala (um e-mail ao Paulinho em 2005)


Pois é, Paulinho, meu irmão. Não sei se tu chegaste a ver o Riovale da sexta-feira passada, 22/01/2005 (saiu também uma nota na Gazeta do Sul de 14/01). A manchete de capa do jornal, em letras garrafais, era "Guardas municipais poderão usar armas de fogo na cidade". Ao final do texto, é dito assim: "Para Wenzel [prefeito de Santa Cruz], a medida vai atender o desejo número um da comunidade, que é a segurança pública". Ou seja: armas de fogo significam segurança pública! Santa Cruz ficará mais segura porque alguns servidores públicos poderão portar revólveres! Não é um contrasenso? É isso uma política de segurança pública? Todas as campanhas de desarmamento e o trabalho de reversão da idéia de que "arma é proteção", e aí vem o prefeito e diz uma coisa dessas... Será que há algum estudo da prefeitura sobre a necessidade dos guardas municipais portarem armas? Isso está fazendo falta verdadeiramente? Os guardas com armas não são algo ainda mais perigoso - tanto para o portador quanto para a população em geral, gerando um clima de belicismo ("bandidos" e "mocinhos" agora estão armados!) maior ainda? Acho que devíamos pensar sobre esse acontecimento aqui na cidade e levar para as autoridades locais uma contraproposta. Não é nem uma questão de "impedir radicalmente" a guarda de usar armas de fogo, mas que isso, ao menos, não seja colocado como "uma grande medida para a segurança pública". Qual a mensagem que a administração pública de Santa Cruz está passando aos santa-cruzenses? Para se proteger, só à bala... Preparemo-nos para o bangue-bangue e para chorarmos as balas perdidas...

Um abraço!

Iuri

***Outra matéria que saiu esses dias na imprensa local, ou melhor, na Gazeta do Sul (12 e 13/03/2005): “A paz está invadindo a Zona Sul”, com a palavra “paz” em destaque (página 25). Ilustrando a matéria, há uma foto, onde se vê, dentro de um veículo da Brigada Militar, um soldado com uma arma de cano longo e bojudo para fora da janela, dando a idéia que o veículo faz uma ronda pelas ruas dos bairros. O que se diz com isso? Ora, que a tal “paz” na zona sul se faz pelas armas, demonstrando, na verdade, que estamos numa situação de beligerância, de guerra, onde para contrapor o uso de armamentos, é preciso armar-se também. Muito pequeno, no canto inferior da página, se fala em “centros ocupacionais” (que já uma denominação desgraçada) para crianças e adolescentes, na tentativa de reagir ao processo de marginalização por outros caminhos que não “gasolina para apagar o fogo”, ou seja, armas contra armas, violência com violência etc.