02/01/2010

Dois mil e dez


Uma das mensagens de fim de ano que deixei a uns amigos numa lista. Vai mais pelo poema do Quintana, que copiei do livro Mario Quintana: Poeta Gaúcho e Universal (2007), um ensaio muito bom analisando poemas em conjunto com sua biografia, escrita por outro poeta (e professor afamado), Armindo Trevisan.
Na foto, o poeta, nos anos 1990, pousa no quarto do seu hotel em seu trabalho criativo.
Segue a mensagenzita e o poema:

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Belezura! A toda comunidade, desejos que 2010, "O ano em que faremos contato", xege um baita ano - e que avancemos em nossas qualificações para fazer das nossas existências uma obra à altura do belíssimo - até pelo seu intrasponível significado - mistério que nos envolve (contem e é contido), mesmo que às vezes toldado por tantas picuinhas que nos deprimem e nos fazem desperdiçar a preciosidade fugaz de cada momento.

Abraços do velho bardo da meia tigela,

vosso servo,
I.

***E aproveitando clima de melancolia natalino, vai um poema do Mário, aquele, o Quintana:


Recordo ainda... E nada mais importa...
Aqueles dias de luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

(Soneto VIII, de A Rua dos Cataventos)

21/12/2009

Aliens... of the deep


Talvez vários aqui já tenha assistido este documentário (produção de 2004, da Disney Pictures) do diretor Cameron, de Titanic e, agora (2009), de Avatar. Por conta de uma reportagem que li na Veja (16/12/2009), fui pesquisar o filme no YouTube e achei até uma versão dublada em português (há legendada também). É algo muito muito bacana para quem gosta de pesquisas sobre lugares, estruturas, fenômenos e seres que jamais estão e acontecem na crosta terrestre. No caso, lugares e criaturas onde a luz solar, nosso alimento primevo, do qual somos totalmente dependentes, não atinge. A ecuridão é completa e está assim por milhões de anos. Literalmente, um outro mundo...

O título em português – Criaturas das profundezas – perdeu bastante a conotação, digamos assim, ufológica, ao optar pela palavra “criaturas” ao invés de “alienígenas” (Aliens of the deep). Uma pena e talvez haja aí um preconceito embutido nessa “opção”...


Na equipe do projeto capitaneada pelo obstinado James, estão não só biólogos marinhos, mas astrofísicos e exobiólogos - caracterizando que ali se estava lidando, buscando, investigando vida alienígena, seja na Terra ou outros lugares.

Há cismólogos – especializados em vulcões submarinos, astronautas e técnicos que trabalharam em missões espaciais, incluindo russos e seus equipamentos. Falam do programa Seti, o Search for Extra-Terrestrial Intelligence, um programa que busca sinais emitidos por seres inteligentes, mas que, por congregar instituições como a Nasa, não tem a apreciação jocosa, carregada de menosprezo, que tem a investigação mesmo quando parte dos mais sérios ufólogos mundiais...

O pessoal chega a profundidades de mais de 3 mil e 500 – três quilômetros e meio para baixo da água – uma massa absurda como teto; uma “atmosfera” de um peso insuportável; ambientes completamente fatais para os humanos.

Lá há seres que não necessitam de sol, prescindem da fotossíntese; sobrevivem do calor e produtos químicos – fazem uma quimiosíntese. Algo completamente diferente e também não-imaginável; pressões e temperaturas contrastantes – do congelante ao calor de 400 graus (Celsius) em poucos segundos ou centímetros...


Além das imagens fabulosas das criaturas e ambientes, o documentário faz fusões, mostrando as ligações entre a exploração de vidas marinhas nas altas profundidades e as possibilidades de vida em luas de Júpiter, por exemplo. Há uma fantástica especulação sobre a vida em Europa, que poderia guardar semelhanças com a vida encontrada no fundo dos oceanos da Terra.

E os submergíveis são naves espaciais explorando - não o espaço ou atmosferas de planetas, mas espaços onde humanos jamais estiveram, mas têm similaridades e utilidades posteriores para a pesquisa de vida extraterrestre.

Todo a eletricidade, a excitação da aventura, a emoção das visões, de verdadeiras descobertas, desvelamentos comoventes. Aparecem em frente aos olhos criaturas bizarras se movimentando – peixes, lulas, águas-vivas de formatos, detalhes e cores que talvez nem a mais poderosa imaginação poderia moldá-las – que dirá dar-lhes vida. Uma inteligência misteriosa e inacessível em seus desígnios está todo tempo se anunciando nestes “aliens” das profundezas oceânicas. Anunciam que a vida pode se constituir de modos além do poder humano de compreensão. Resta-nos o maravilhamento, a contemplação boquiaberta da nossa grande limitação – embora todos os aparatos tecnológicos e reflexões especulativas que desenvolvemos e nos possibilitam manipular forças e recursos da natureza.



Ao deparar-se por uma incrível situação de simbiose entre uma espécie de verme e bactérias cilíndricos, nas cores branco e vermelho, respectivamente, alimentando-se do calor e sulfatos emitidos por jatos do fundo da terra, a cientista se pergunta:

“Não teríamos imaginado estes animais se não existissem. Pergunto-me: o que mais haverá no oceano à espera de ser descoberto?”

Cameron diz que apesar de quão estupendos possam ser seres como os micróbios, ele deseja é encontrar-se com criaturas que sejam “bons conversadores”. Como muitos de nós, James quer estabelecer uma comunicação o mais próxima possível do verbal ou ao menos telepática... Tudo indica que esse dia chegará – se é que já não chegou...



Aliens of the Deep (Criaturas das Profundezas)

Sinopse (Interfilmes):

O cineasta James Cameron deixou bem claro seu interesse pelas profundezas do oceano ao filmar Titanic. Desde esse seu grande sucesso, Cameron não tem investido muito no trabalho atrás das câmeras até a produção deste documentário em média-metragem que se trata de um mistério do fundo do mar: a possível existência de vida extraterrestre, de acordo com algumas teorias. Acompanhado de jovens cientistas da NASA e biólogos marinhos, Cameron parte para uma expedição e compartilha com os espectadores esses mistérios.

Sinopse (reproduzida no YouTube):

Vermes de quase dois metros, caranguejos cegos, uma biomassa de camarões brancos. Prepare-se para uma incrível viagem com o diretor vencedor do Oscar, James Cameron (Melhor Diretor, Titanic, 1997), e faça contatos com um mundo completamente diferente. Em uma emocionante aventura sob a água, conheça criaturas alienígenas que vivem sem a luz do sol, em um ambiente em que a água pode congelar ou ferver a qualquer momento. Seriam estas criaturas indícios da existência de vida fora do planeta? Divirta-se com impressionantes descobertas.

Um link com a primeira parte do documentário no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=ROMEmk8U8vs

19/12/2009

Fermentação entérica ameaça o planeta



Pessoal,

Juntando uns e-mails da lista do MGU, montei a seguinte reflexão, aproveitando que está terminando a COP15.

Abraços!

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Fermentação entérica ameaça o planeta

Esta findando a conferência de Compenhague, a COP15. Assunto fundamentais para a sobrevivência da nossa "Nave Mãe" estavam e estão em jogo. Um fato que achei bastante interessante se refere a uma das nossas manipulações da população terráquea: a dos bovinos, nossos irmãos (reportagem no final). Um número estratosférico (!!!) desses seres e companheiros terráqueos, que predamos para nossa alimentação, ao emitirem em especial seus "arrotos" digestivos (os técnicos chama de "fermentação entérica"), num volume constante e impressionante, ao se somarem com outras consequencias da pecuária intensiva, tem significado "quase a metade de todos os gases causadores do efeito estufa no Brasil".

Ou seja, nossas relações com outros seres terrestres é de uma dominação bárbara, irresponsável e estúpida, porque ameaça até mesmo aquele que se pretende "O Rei da Criação"... Se agimos assim, sem consideração ao próprio planeta e companheiros animais e vegetais que conosco convivem, como seria com outros seres e lugares???

Falando em gado, eu tenho simpatias pelo vegetarianismo. Há mais de 20 anos não costumo comer carne, em especial de mamíferos. Em muitas concepções de formação da corporidade animal (incluindo o animal humano, obviamente), existe o "corpo astral", campo energético que mantem-se agregado ao corpo físico por tempos, mesmo após a morte, interferindo na "astralidade" da pessoa que consome a carne, com consequências físicas e “espirituais” no sujeito “carnívoro”.

Não como carne também por motivos estéticos - acho meio horripilante um animal esquartejado, como se vê em açougues. E motivos éticos: o sofrimento de um boi ou porco são tão evidentes; os gemidos, gritos e o pavor tão notórios, que tento evitar a cumplicidade com a crueldade implicada (cumplicidade) na matança.

Como onívoros conscientes, nós, animais humanos, podemos escolher nossa alimentação. Eu como carne esporadicamente, caso sinta muita vontade ou necessidade protéica, ou queira compartilhar com outras pessoas um determinado momento de refeição ou festejo. Muitos povos são carnívoros quase 100%, caso dos esquimós, pelo que sei. Morreriam se não comessem outros animais. Claro que isso parece ser feito - a morte, a caça, a preparação e o consumo (e não só os músculos são comidos, mas até o conteúdo do estômago e intestino) - dentro de uma ritualidade e enorme respeito ao ser sacrificado.

Mas voltando ao assunto anterior, na notícia justamente me chamou a atenção é que não se trada dos "flatos" (“peido” ou “pum”, no popular) dos bovinos ou outro animal. Essa grande quantidade de metano (CH4) que colabora no efeito estufa é produzida por herbívoros, que possuem o "rúmem", o "pré-estômago", e então "arrotam" o gás naturalmente, dentro do seu processo digestivo, a tal "fermentação entérica" mencionada - uma característica dos ruminantes.

Mas a nocividade vem, na verdade, da quantidade ou volume produzido. Uma coisa é meia dúzia de bois; outra, é uma população de milhões "arrotando" ao mesmo tempo e sem parar...
E quem desenvolveu uma população bovina desse tamanho aberrante?? Ora, quem se não os queridinhos de Deus ("Crescei e multiplicai-vos...")? Aqueles que se acham o "ápice" do processo evolutivo do Cosmos...

Sobre a pesquisa, inclui na chefia dos trabalhos um cientista do INPE, o nosso Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, além da Universidade Federal de Brasília (UnB) e outras instituições que me parecem confiáveis.

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Metade das emissões de gases-estufa do Brasil vem da pecuária

Publicada em 11/12/2009 às 11h03m

BRASÍLIA - O rebanho bovino brasileiro emite anualmente quase metade de todos os gases causadores do efeito estufa no Brasil. E a abertura de novas áreas de pastagens responde por 75% da área devastada na Amazônia e por 56,5% no Cerrado do país, estima um estudo inédito coordenado pelos pesquisadores Mercedes Bustamante (UnB), Carlos Nobre (Inpe) e Roberto Smeraldi (Amigos da Terra).

O levantamento, a ser divulgado amanhã na conferência sobre mudanças climáticas em Copenhague, aponta para o " potencial " de redução de emissões pela pecuária nacional. Essa concentração das emissões do país num único segmento seria, segundo os pesquisadores, " a mais importante " oportunidade de mitigação no Brasil.

"Devemos caminhar para uma agricultura integrada ao ambiente tropical, científica e tecnológica, que aumenta sua eficiência, diminui seu impacto ambiental, inclusive em emissões" , diz o climatologista Carlos Nobre. As opções de mitigação pelo setor "não implicam o corte na produção atual" e podem ser compatíveis com a " elevação moderada " da produção. A compensação ambiental poderia ser feita via redução do desmatamento, eliminação do fogo no manejo de pastagens, recuperação de áreas e solos degradados, regeneração da floresta secundária, redução da fermentação entérica e implantação do sistema misto de integração lavoura-pecuária.

A pesquisa avalia as três principais fontes de emissão do setor: desmatamento para formação de pastagem e queimadas da vegetação derrubada, além de queimadas de pastagem e fermentação entérica do gado (o chamado " arroto " do rebanho). O estudo não considera, porém, emissões de solos de pastagens degradadas, da produção da ração, de grãos, do transporte e dos frigoríficos. Os cálculos seriam assim " conservadores " , pois não foi computado ainda o desmatamento fora da Amazônia e do Cerrado.

O estudo, assinado por dez cientistas, diz que as emissões da pecuária bovina caíram para 813 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) equivalente no ano passado, de 1,09 bilhão de toneladas em 2003. A emissão total associada à pecuária na Amazônia passou de 775 milhões de toneladas de CO2 a 499 milhões. No Cerrado, o volume foi de 231 milhões de toneladas a 229 milhões. Nas demais regiões do país, as emissões passaram de 87 milhões a 84 milhões.

O trabalho científico avalia que a alteração no cenário das emissões deve incluir o fim da impunidade nas grilagens de terras da União na Amazônia e a aplicação do decreto de crimes e infrações ambientais. " Há uma relação clara entre essa impunidade, a especulação fundiária desenfreada e a degradação das florestas, especialmente na Amazônia " , afirma. A implantação de grandes frigoríficos seria o " principal motor " da expansão descontrolada e sem precedentes da atividade pecuária.

" A sustentabilidade econômica da indústria da carne requer drástica queda em carbono-intensividade " , diz Roberto Smeraldi, da ONG Amigos da Terra.

FONTE: http://oglobo.globo.com

12/10/2009

O Gênesis segundo Robert Crumb


No Segundo Caderno do jornal Zero Hora de 07/100/2009 saiu uma reportagem de Fernando Eichenberg sobre a nova obra do visceral desenhista Robert Crumb. Quero ressaltar e comentar algumas coisas entre várias que achei interessantes.

Trata-se de uma versão em HQ ("quadrinhos" é um termos meio "menosprezativo") feita por um autor referencial no movimento contra-cultural dos anos 1960/70 nos EUA e mundo afora, famoso por suas abordagens debochadas, críticas e também surreais e lissérgicas do "mundo em que vivemos" e da própria contra-cultura.

A surpresa é que Crumb teria feito uma obra que segue ipsis litteris o clássico texto bíblico, o Gênesis - depois de muitas leituras, comparações, enfim, estudos que lhe tomaram um tempo longo, realizado com meticulosidade anormal.

Mas não nos enganemos com algum tipo de conversão do velho safado (está com 66 anos), criador dos antológicos Mr. Natural e Fritz The Cat. O editor francês de Crumb diz que "É um trabalho subversivo porque remete à Bíblia de uma forma nunca feita antes, não religiosa, mas como um texto fundamental, de nossas origens". Está "Repleto de violência, estupros, assassinatos, incestos, traições", observa o repórter. Crumb fala: "Há uma moralidade primitiva [no Gênesis]. E em certas partes não se vê nenhuma moral. As histórias matriarcais no livro são marcantes. Há fortes personagens femininos. Eu fiquei surpreso aos descobrir isso".

Apesar de Crumb considerar a existência de "uma misteriosa força superior, algo maior do que nós", ele está anos-luz de ser um crente. Na verdade, Crumb se "espanta" com pessoas que ainda consideram os textos bíblicos como "'palavra de Deus' e não produto do homem":
"Para mim, não é um texto sagrado, mas um mito com muitas histórias e imagens vigorosas".
Ou seja, uma literatura - mas uma literatura que forja cosmovisões de um modo profundo e se introduz em camadas do nosso ser de um modo seminal (perdão pela alusão quase sexual, mas é isso aí mesmo!).
Me parece que o objetivo de Crumb é dos mais louváveis (Aleluia!): "Minha intenção foi a de iluminar o texto, lhe dar outra dimensão, ilustrando tudo o que está nele, cada pequeno detalhe, para que as pessoas realmente saibam o que contém."

E ele está pronto para reações adversas, bastante previsíveis, tal o fundamentalismo em vigor nas hostes "cristãs" (Jesus, tem piedade!): "Alguns sempre encontrarão algo para se sentir ofendidos. Talvez decidam que eu deva ser morto."
Bah!
Norte-americano, Crumb auto-exilou-se na França, morando em uma cidadezinha com ares medievais, chamada Sauve; leva uma vida pacata, divertindo-se com sua coleção de 5 mil discos raros de 78 rotações, ao lado da mulher e filha.
*Na ilustração, o "velho barbudo" escolhido por Crumb para ilustrar Deus. Ele (Crumb!) teria cogitado em personificar (e antropomorfizar) o "Todo-Poderoso" como uma mulher negra, mas optou pelo tradicional patriarca. Coerente com as histórias bíblicas, Crumb diz ter sonhado com Deus neste "formato" - "Foi um dos sonhos mais forte que já tive", disse o iluminado desenhista. Assim seja!
**Na revista Piauí, que tem publicado quadrinhos de Crumb, sairam dois capítulos do seu Gênesis. Quando der, vou reproduzir aqui partes da introdução escritas pelo desenhista...

Por e-mail, contrapontos

Há anos estamos tentando colocar contrapontos a algo que acaba se configurando como uma pesada violência simbólica, na acepção trazida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu: o estabelecimento de uma identidade dominante para a comunidade santa-cruzense, ou seja, “germânica” - palavra que já encerra uma miríade de associações, tal a sua abrangência e interpretações complexas.

Nestes empenhos de "germanizar" Santa Cruz, outros grupos são invisibilizados e pessoas que não se adequam a tal “origem” têm o seu “capital social” - outro termo de Bourdieu - desvalorizado, e permanecem numa marginalidade de pertencimento comunitário; seres subalternos, menosprezados, submetidos por uma historiografia e aparato simbólico-turístico exclusores, forjados por ideólogos da "germanidade" local.

Nada pessoal contra tais intelectuais, mas seus desejos, objetivos e empenhos não são inócuos e indolores. Por isso acredito que é preciso manter-se uma crítica a este tipo de “arrazoado” – quase sempre mais sentimental do que uma argumentação de fôlego –, para que não se continue impondo concepções marginalizadoras. Enfim, acredito que nem tudo se pode fazer em nome de orgulhos étnicos e viabilidade turística.

Como uma forma de "resistência", muitas pessoas usam e-mails, mostrando-se contrários, contrargumentando. Abaixo vou postar alguns meus, enviados esporadicamente para alguns destes intelectuais (dois deles, no caso), que têm amplo acesso à imprensa, a produções intelectuais (livros, fascículos, programas de rádio etc.) e são demandados para palestras seguidamente.

Não vou usar o nome das pessoas a quem se direcionaram as mensagens, até porque o que interessa mesmo é a argumentação e os dados que acabei apresentando de uma forma bem livre.

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Professora,

Tenho acompanhado os textos da senhora que saem na Gazeta do Sul. Li também aquele que saiu no livro Fragmentos de Vida organizado pelo professor Schneider. Pareces ser uma pessoa dedicada e sensível, mas, em alguns pontos, com todo respeito, não posso concordar com suas posições.

No último, na primeira parte, publicado em 23/05 na página 2 da Gazeta do Sul, a senhora parece, em minha opinião, repetir uma argumentação em superação. O historiador Mário Maestri, na revista Vox (IEL, número 7), faz uma referência a isso no artigo A lei do Silêncio: história e mito da imigração ítalo-gaúcha. A perspectiva apresentada por Maestri, creio, pode ser perfeitamente transposta, com as devidas particularidades, ao caso das colônias teuto-gaúchas, onde entraria, sem dúvida, Santa Cruz do Sul. Cito alguns trechos:

“Na Região Colonial Italiana, ainda hoje, é forte a recordação de violentos atos policiais contra colonos por falarem e cantarem em italiano; de crianças levando bilhetes para realizarem as compras familiares; do terror lingüístico conhecido pelos moradores das distantes linhas. Para essas memórias, os falares itálicos jamais teriam se recuperado dos golpes causados pela Lei do Silêncio. Essa interpretação nunca foi confirmada ou infirmada por estudos históricos. A explicação da dominância lingüística do português e do desaparecimento dos falares itálicos devido à repressão do Estado Novo aponta causa exógena à comunidade colonial para fenômeno essencialmente endógeno a ela – suas práticas lingüísticas.”

Adiante, no mesmo artigo, Maestri, ao comentar um trabalho acadêmico da historiadora Cláudia Mara Sganzerla – A lei do silêncio –, diz que, partindo do pressuposto que houve um “golpe fatal” da repressão lingüística durante o Estado Novo, a pesquisadora “abandonou as hipóteses iniciais ao, surpresa, não se deparar, para a região, com o decantado rosário de repressões e violências aos falares italianos. (...) Após contextualizar e hierarquizar os atos policiais e institucionais do Estado Novo, enquadrando-os espacial e temporalmente, Cláudia Mara traçou paisagem histórica bastante mais nuançada, precisa e complexa, rompendo com as interpretações maniqueístas correntes sobre a política de nacionalização da região. (...) Sem descurar as seqüelas das violências varguistas, corroborando investigações lingüísticas concluídas e em conclusão, Cláudia Mara sugere que as razões últimas da superação do talian sejam mais estruturais, encontrando-se aquém e além da Lei do Silêncio: crescente inserção da Região Colonial Italiana na economia nacional; desenvolvimento da mídia e da rede de ensino; interesse dos pais que os filhos dominassem o português, etc. A Lei do Silêncio: Repressão e nacionalização no Estado Novo em Guaporé (1937- 1945) [esse é o título do trabalho que Maestri está comentando], de Cláudia Mara Sganzerla, certamente apoiará outros estudos que ampliem a área analisada e, através da objetivação crítica dos fatos analisados, contribuam à superação da ainda importante opacidade criada por visões mitológicas e ideológicas do passado sulino e brasileiro.”

Senhora, a sua defesa de que “a diversidade existe, mas não é expressiva, historicamente falando, e muito menos, ‘desde os seus primórdios’ [onde parece citar-me sem fazer referência ao meu nome]”, parece querer legitimar a exclusão de outros grupos étnicos da formação de Santa Cruz do Sul, menosprezando a importância de inúmeras pessoas que colaboraram na conformação do município, antes mesmo de 1849. Permita-me colocar abaixo três pequenos artigos que escrevi ano passado, a partir das reflexões que realizamos junto ao Coletivo de Estudos e Debates Étnicos e Culturais de Santa Cruz do Sul (Cedecs), que se referem, em especial, aos negros e negras. Os textos sintetizam um pouco do que penso e a necessidade de se relativizar a “origem alemã” do lugar. Embora sem pretensões, sem seguir o “rigor científico” – e considerando que foram feitos para um jornal popular e não uma revista acadêmica – são todos pautados em “pesquisas sérias”, incluindo os escritos do professor Sílvio Correa [não estão colocados aqui].


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Professora,

Continuo acompanhando seus artigos no jornal e, por circunstância, um último que li, na Gazeta do Sul de 6 e 7 de outubro de 2007, Die Oktoberfeste. E também continuo a dizer que admiro a sua dedicação apaixonada pelo resgate/construção da identidade teuto-descendente aqui em Santa Cruz. Mas há momento em que julgo haver, para além de romantismos históricos e “polianice” em relação a Oktober, um abuso à beira da ofensa. A quem a senhora se refere quando diz “Nossa Oktoberfest” e “nossa região”? Eu estou incluído? Também estou tentando entender o que significa "a cultura e as tradições daqueles que historicamente transformaram este espaço [suponho que seja a região de Santa Cruz] natural e cultural”. Vou ser repetitivo: Meus parentes e parentes de meus amigos santa-cruzenses sem sobrenomes “alemães” estão fora? Os imigrantes e teuto-descendentes fizeram todas as coisas sozinhos? Nunca houve cultura anterior aqui no Vale do Rio Pardo e mesmo em Santa Cruz? O que dizer do Faxinal do João Faria, por exemplo? Não existiu este povoado [que deu origem à cidade]? Não houve nenhuma interação? Não houve em meio às comunidades teutas outras pessoas de outras procedências? Não houve alguma influência, a não ser o que trouxeram do centro da miserável Europa de meados do século XIX? Parece-me algo que se choca frontalmente com todas as evidências e a básica historiografia que tente escapar de exageros ideológicos. Se a senhora luta pela afirmação de uma identidade “alemã” para Santa Cruz, por outro lado, eu e muitas outras pessoas temos nos empenhado em “abrir” as perspectivas identitárias para algo integrador e policultural, evitando exclusões (sempre me vem à cabeça que será muito improvável que uma soberana da Oktober seja uma negra, mesmo que seus tataravôs tenham nascido aqui no município e a moça seja tão ou mais lindas que nossas doces Rapunzéis). Noto uma violência tremenda nisso, que é preciso avaliar muito bem os impactos.


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Prezada professora,

Muito importante as suas preocupações manifestadas no artigo “Nossa Linha Santa Cruz”. E uma oportunidade para irmos até além, percebendo que sempre há uma composição de gentes envolvidas na formação de uma comunidade, mesmo que pequena. Caso contrário, se acreditarmos em “purezas” e “direitos maiores” de um grupo, bem fácil caímos na discriminação e seus subprodutos perversos e que tanta dor já causaram (e ainda causam) à humanidade. E isso vale pra qualquer grupo social ou étnico-racial.

A senhora diz “Nós vivemos aqui e agora, antes de nós outros vieram e depois de nós outros viveram e depois de nós viverão. Não podemos perder de vista esta dimensão temporal histórica, social e cultural que constitui e constrói nosso lugar.”

Acho certíssimo e por isso até podemos recuar ainda mais quando falamos em Santa Cruz do Sul e em Linha Santa Cruz. A senhora sabe que devemos considerar que a picada se constrói em torno de antiguíssimas trilhas de povos indígenas (e depois caminhos de tropeiros vagos) que circulavam a região desde milênios, descendo e subindo a serra, do planalto até o rio Jacuí, limite natural com o pampa gaúcho.

A senhora também sabe que a picada foi originalmente aberta por trabalhadores negros e peões sob mando de empreiteiros e outros servidores pagos com recursos públicos, e que ganhou o nome de Picada do Abel – antes de se chamar Linha Santa Cruz –, alusão ao empreiteiro contratado anos antes da introdução dos primeiros 12 assentados, o sr. Abel Corrêa da Câmara – mas que acabou sendo levada a cabo (por outorga da lei provincial nº 111, de 6 de dezembro de 1847) por outro empreiteiro, Delfino dos Santos Moraes.

A senhora sabe que, a rigor, se trata de uma licença ideológica se dizer que estas primeiras levas são de “alemães”, já que não há o país e que muitos, mesmo considerando a divisão territorial européia de hoje, seriam poloneses (caso de 11 pessoas da primeira leva de 12). *A propósito, segue mais abaixo o comentário que publiquei no meu blog falando justamente disso [não colocado aqui].

Também dizer que eram terras despovoadas é impreciso, professora. Já há informações suficientes para demonstrar-se que toda a colonização com povos germânicos e outras gentes no Vale do Rio Pardo não se dá num vazio populacional. Como mencionei, considere-se os grupos indígenas que aqui se assentavam e circulavam sistematicamente desde séculos (até reduções jesuítico-guaranis tivemos nos anos de 1630 aqui no vale – inclusive uma em pleno território de Santa Cruz, a redução San Cristóbal, com 950 pessoas); considere-se os aquilombamentos, com negros e outros “parias” fugidos das cidades e fazendas na região, em especial de Rio Pardo, embretados em matas e montanhas (e sempre recuando na medida que os loteamentos rurais vão expandindo-se pela serra); considere-se os ocupantes e sesmeiros luso-brasileiros, trabalhadores negros e outros agregados que aqui estavam estabelecidos e conformavam o Faxinal do João Faria e rancharias ainda mais modestas espalhadas nos arredores.

Não entendo como esta riqueza de gentes, de referências geográfica, sociais e culturais é desprestigiada e mesmo desconstituída com discursos que forçam exclusivismos e purezas que me parecem mais fetiches de identidades étnico-raciais, cujos pressupostos, a menor contraposição seriamente embasada, “se desmancham no ar”, aludindo a outro intelectual alemão admirável, Karl Heinrich Marx. **Também a propósito, segue outro comentário sobre o assunto que postei no meu blog [não colocado aqui].

Agradeço a atenção e desejo tudo de bom.


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Prezado:

Leio esporadicamente com muito interesse a sua coluna no Riovale. Dias atrás, um fragmento me chamou a atenção: havia uma crítica a manifestações questionando o questionamento que historiadores e ativistas têm colocado na imprensa. O chapéu me serviu e então resolvi, cordialmente, mandar-lhe este e-mail.

Não se trata, como sempre digo, de menosprezar, muito menos negar toda a carga de dificuldades, esforço e sofrimento de milhares de indivíduos e famílias imigrantes e descendentes que se assentaram na região de Santa Cruz do Sul, em especial (mas não unicamente) alemãs. O questionamento se refere ao tom grandiloquente e mitificador, que parece tentar concentrar todas as virtudes em um ou dois grupos específicos, esquecendo que somos, independente de referências geográficas e culturais, seres humanos...

Recentemente, o senhor deve ter acompanhado, registrou-se os “130 anos da presença italiana no RS”. O caderno de cultura do jornal Zero Hora publicou uma série de textos, cujo enfoque e conclusões são perfeitamente aplicáveis para o caso da “presença alemã” no estado: recupera-se “a dimensão humana da vida da colônia, para além dos discursos laudatórios”. No artigo da professora Corteze, destaca-se que “O mito de um colono predestinado simplifica, estereotipa e empobrece a complexa história da imigração italiana.” No do professor Maestri, levanta-se a idealização de muita produção historiográfica, que escamoteia “contradições, tropeços e desastres”, propondo-se que o “progresso” da região deriva de uma essencialidade étnica do colono itálico, em contraposição (mesmo que não mencionada) aos povos nativos, caboclos, afro-descendentes etc., que “fracassaram” por “razões intrínsecas à raça”. Só para citar mais um artigo, da lingüista Florence Carboni, que aponta a simplificação ingênua de acredita que os falares itálicos nas colônias da serra gaúcha sucumbiram por conta tão somente restrições que ocorreram durante um período (três anos, mais exatamente) do governo de Getúlio Vargas, que, aliás, flertou por longo tempo com os países do Eixo...


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Senhor,

Muito interessante a sua crônica na GS de quarta-feira, 21/03. Aliás, acompanho-as sempre que possível, às vezes lendo na corrida, desde quando saía no Riovale. Penso sempre em fazer algum comentário, mas na hora “H”, acabo me envolvendo com meus afazeres, e perco a “inspiração súbita”.

Como me interesso pela “questão étnica”, as inter-relações entre grupos – ainda mais em nossa região –, prestei um pouco mais de atenção no seu último texto. E ponderei que a consideração final, de que não houve “interpenetração social e cultural” entre ciganos, tropeiros, negros – poderíamos falar de índios e diversos outros grupos migrantes e imigrantes – pode ser relativizada ou vista de outra forma. Para mim, não existe convivência, por mínima que seja, que não implique em mútuas, diversas, sutis ou “descaradas” interpenetrações culturais, sociais, etc. Um exemplo prosaico: o hábito do chimarrão. Acho que não se pode dizer que na região da hoje Alemanha, havia o consumo da erva-mate. Pra ficar no campo da gastronomia ainda: e o que dizer do consumo de feijão – algo aprendido pelos colonos nos primeiros dias de chegada ao Brasil? (Caso disponha de algum tempo, mando-lhe um comentário meu falando sobre as memórias de Luis Panke e a relação que estabeleci entre a mencionada leguminosa e os imigrantes em Rio Pardinho.)

Outra observação: Em relação aos negros, não creio que se possam reduzir as relações entre imigrantes teutos (entre outros) e seus descendentes como uma “acolhida” – mesmo que isso tenha de fato acontecido e seja algo louvável, emocionante, mesmo. Apesar das “proibições”, houve na região imigrantes que possuíram escravos, além de sistemas de “apadrinhamento” que, ao cabo, podem ser caracterizados com um regime de trabalho de servidão. A situação de proscritos – vivendo aquilombados em vários pontos do Vale do Rio Pardo, já bem antes de 1849 –, de miserabilidade, de discriminação sistemática – apoiada numa poderosa ideologia racista – de negros e mestiços (não-brancos em geral) os colocavam (e ainda colocam, basta ver os dados sócio-econômicos do Brasil de hoje) em situações de subalternidade, de submissão, de exploração medonhas. Nas zonas de colonização isso também aconteceu.

Penso que na “saga da colonização” está também a saga ou a tragédia do povo afro-descendente, dos autóctones americanos, de outros tantos povos que por aqui estavam e estão – até mesmo ciganos, grupo, como sabes, originado na mítica Índia, mantendo, ainda, explicitamente, elementos culturais daquele distante oriente. Ou seja, a saga não é algo feito em isolamento, creio eu. É algo complexo, cheio de “detalhes”, para além de romantismos. A saga dos colonos é a saga de todos nós, brasileiros, seres inapelável e culturalmente híbridos, onde não existem “purismos”. E me parece que “purismos” só servem para fertilizar “ovos de serpente” – algo que, infelizmente, não foi superado, mesmo com tantos exemplos de matança horríveis em nome de credos de vários tipos.

Agradeço a atenção. Abraço fraternal.

04/10/2009

Fumo: nem anjo, nem demônio


Embora se possam traçar diversos paralelos com o sorver de um vinho ou um café, hábitos conviviais, aceitos e incentivados socialmente, fumar, ao contrário, tornou-se uma prática quase sempre solitária ou realizada em restritas confrarias. Talvez estejamos diante de um (obrigatório) retorno aos antigos “clubes de apreciadores”, onde, inclusive, envergava-se o smoking – originalmente, como se sabe, uma capa (smoking jacket - ilustração ao lado) usada para os “encontros de fumantes”.

E acho que está certo este encaminhamento. O fumar implica em responsabilidades derivadas da exalação da fumaça e seus componentes potencialmente nocivos.

Particularmente, aprecio fumar – de forma esporádica, em momentos especiais, de preferência cigarros e cigarrilhas de tabaco produzidas artesanalmente, sem aspirar a fumaça até os pulmões (“tragar”), aproveitando o efeito estimulante da nicotina de uma forma branda e buscando, muito mais, usufruir dos sabores e aromas da queima das folhas, permitindo, além disso, que o corpo tenha melhor capacidade de se auto-desintoxicar.

Entretanto, sou favorável às advertências, restrições, taxações e proibições sobre o consumo do tabaco, desde que não tolha a liberdade e direito alheios (que presupõe deveres). Nenhuma pessoa, em especial crianças e adolescentes, deve ser submetida a ambientes com gente fumando – públicos ou privados, mesmo em família. Também não deveria haver estímulo algum – e o banimento da propaganda em rádio e TVs abertas e em revistas, jornais e sites voltados ao público em geral são formas acertadas para evitar o consumo precoce. Isso porque, como vários outros produtos com elementos que podem levar à dependência química, fumar tabaco é uma decisão que só pode ser tomada – se for o caso – na adultez, ou seja, de posse do pleno equilíbrio e maturidade psicológicos e físicos.

Outra questão: tenho como lamentável a compulsão ao fumo. Não é trágico que uma prática derivada do uso medicinal e religioso de povos indígenas venha a se tornar um flagelo pessoal e social? Parece-me muito triste uma planta enteógena, xamãnica, banalizar-se tanto e perverter-se pelo “vício”, pelo hábito descontrolado e sujeição do usuário, levando-o a deterioração da saúde e conseqüentes prejuízos à comunidade – por acarretar a necessidade de remédios, tratamentos, hospitalização e seguros por invalidez financiados com recursos públicos.

A mesma situação em relação ao álcool, o psicoativo talvez mais antigo, tradicional e globalizado que existe. Pois uma coisa é beber um cálice de algum bom cabernet sauvignon de maneira eventual. Outra é tornar-se um alcoolista.

Não há sempre uma relação direta entre beber e ser um “bêbado”. Nem fumar e ser uma “tabagista”. Mas riscos sempre haverá e alguns terão que se abster por sua compleição corporal ou/e inclinação psicofísica drogadicta. Parece-me que cada indivíduo deve construir os seus limites através de muita informação e auto-análise, enfim, muita consciência.

Consideradas essas “premissas”, vencidos esses “poréns”, fumar pode ser um prazer, uma grande satisfação. Na ritualística da combustão das folhas desta bela solanácea (uma planta também considerada ornamental), os apreciadores vêm desencadear-se um processo que leva ao deleite estético, aromático e gustativo únicos.

Vários com certeza se horrorizarão das minhas opiniões. Existe mesmo uma “satanização” do fumo – que, como no caso de outros produtos, não tem levado a resultados práticos e, me parece, até colaboram para a expansão de consumos perniciosos.

Fumar com parcimônia – assim como beber com parcimônia (para mantemo-nos na comparação já feita) – são práticas que adultos podem (ou não) incorporar em suas vidas como fontes de auto-gratificação; sempre realizadas com a devida responsabilidade, porque o tabaco, assim como o álcool, não são inofensivos, angelicais. Mas também não são demônios implacáveis.

“Nem tanto ao céu, nem tanto à terra” parece um conselho sábio para não cairmos em radicalismos estagnantes. Sem considerar o colapso econômico em várias regiões que acarretaria (e não considerando neste momento questões como exploração de mão de obra e uso intensivo de agrotóxicos na fumicultura), a extinção do consumo de um vegetal milenar é praticamente impossível, desnecessário, ineficaz. Há, sim, meios de diminuirmos prejuízos coletivos, preservando liberdades.

27/09/2009

Sobre o sonho



“O sonho é uma pequena porta escondida nos recantos mais íntimos e secretos da alma, abrindo-se para dentro dessa noite cósmica que era psique muito antes de existir qualquer consciência do ego, e que permanecerá psique até onde quer que a nossa consciência do ego possa entender. Pois toda a consciência do ego está isolada: ela separa e discrimina, conhece apenas pormenores, e vê apenas o que possa estar relacionado ao ego. Sua essência é a limitação, embora alcance a nebulosa mais distante entre as estrelas. Toda consciência separa; mas, nos sonhos, assumimos a aparência daquele ser humano mais universal, mais verdadeiro e mais eterno, que vive na escuridão da noite primordial. Lá, ele ainda é o todo, e o todo está nele, indistinguível da natureza e despido de toda condição de ego. É dessas profundezas que a tudo unificam que surge o sonho, seja infantil, grotesco e imoral. Em sua transparência e veracidade ele se assemelha a uma flor que nos faz enrubescer diante da insinceridade de nossas vidas.”





A citação acima está no livro A Imagem Mítica, de Joseph Campbell (Papirus, 1994). É uma passagem de C.G. Jung – “The meaning of psychology for modern man", Civilization in transition, conforme consta na nota da obra de Campbell.

O célebre estudioso apresenta várias imagens e discorre, com sua vertiginosa – mas acessível – erudição, sobre alusões simbólicas que buscam entender e explicar (compreender) a existência humana e seu(s) mundo(s). Nesta primeira parte, a análise está centrada numa imagem, “Vishnu Sonhando o Universo” [ilustração desta postagem], que tenta traduzir em sítese o fundamento da cosmovisão hindu: “A idéia que se tem do universo, de seus céus, de infernos e de tudo o que nele existe, como se fosse um grande sonho sonhado por um único ser e no qual todas as personagens oníricas também estão sonhando, encantou e deu forma a uma civilização inteira na Índia”, diz Campbell.

Ao especular sobre “quem sonha, quem é sonhado”, Campbell pergunta:

“Somos, você e eu, do modo como nos conhecemos, reflexo de algum mistério solene? E, se somos, estará esse mistério adequadamente representado em nossa imaginação de ‘Deus’?”




***Naquelas “coinsciências”, no mesmo momento que estou lendo citações de Jung no livro de Campbell, estou, sem planejamento, escutando canções do The Police, de seu disco Synchronicity (1983). Canções que muitos escutamos nos anos 80 e que permanecem com um “patrimônio” comum de velhos amigos de infância e adolescência. E com várias referência a Jung – estímulo para lermos suas obras ou coisas relacionadas ao seu pensamento, e que Sting usou para compor canções deste disco.

Abaixo, a letra da canção que abre o “LP”:



Synchronicity I

With one breath, with one flow
You will know
Synchronicity

A sleep trance, a dream dance,
A shared romance,
Synchronicity

A connecting principle,
Linked to the invisible
Almost imperceptible
Something inexpressible.
Science insusceptible
Logic so inflexible
Causally connectable
Yet nothing is invincible

If we share this nightmare
Then we can dream
Spiritus mundi

If you act, as you think,
The missing link,
Synchronicity

We know you, they know me
Extrasensory
Synchronicity

A star fall, a phone call,
It joins all,
Synchronicity

It's so deep, it's so wide
Your inside
Synchronicity

Effect without a cause
Sub-atomic laws, scientific pause
Synchronicity...