12/10/2009

O Gênesis segundo Robert Crumb


No Segundo Caderno do jornal Zero Hora de 07/100/2009 saiu uma reportagem de Fernando Eichenberg sobre a nova obra do visceral desenhista Robert Crumb. Quero ressaltar e comentar algumas coisas entre várias que achei interessantes.

Trata-se de uma versão em HQ ("quadrinhos" é um termos meio "menosprezativo") feita por um autor referencial no movimento contra-cultural dos anos 1960/70 nos EUA e mundo afora, famoso por suas abordagens debochadas, críticas e também surreais e lissérgicas do "mundo em que vivemos" e da própria contra-cultura.

A surpresa é que Crumb teria feito uma obra que segue ipsis litteris o clássico texto bíblico, o Gênesis - depois de muitas leituras, comparações, enfim, estudos que lhe tomaram um tempo longo, realizado com meticulosidade anormal.

Mas não nos enganemos com algum tipo de conversão do velho safado (está com 66 anos), criador dos antológicos Mr. Natural e Fritz The Cat. O editor francês de Crumb diz que "É um trabalho subversivo porque remete à Bíblia de uma forma nunca feita antes, não religiosa, mas como um texto fundamental, de nossas origens". Está "Repleto de violência, estupros, assassinatos, incestos, traições", observa o repórter. Crumb fala: "Há uma moralidade primitiva [no Gênesis]. E em certas partes não se vê nenhuma moral. As histórias matriarcais no livro são marcantes. Há fortes personagens femininos. Eu fiquei surpreso aos descobrir isso".

Apesar de Crumb considerar a existência de "uma misteriosa força superior, algo maior do que nós", ele está anos-luz de ser um crente. Na verdade, Crumb se "espanta" com pessoas que ainda consideram os textos bíblicos como "'palavra de Deus' e não produto do homem":
"Para mim, não é um texto sagrado, mas um mito com muitas histórias e imagens vigorosas".
Ou seja, uma literatura - mas uma literatura que forja cosmovisões de um modo profundo e se introduz em camadas do nosso ser de um modo seminal (perdão pela alusão quase sexual, mas é isso aí mesmo!).
Me parece que o objetivo de Crumb é dos mais louváveis (Aleluia!): "Minha intenção foi a de iluminar o texto, lhe dar outra dimensão, ilustrando tudo o que está nele, cada pequeno detalhe, para que as pessoas realmente saibam o que contém."

E ele está pronto para reações adversas, bastante previsíveis, tal o fundamentalismo em vigor nas hostes "cristãs" (Jesus, tem piedade!): "Alguns sempre encontrarão algo para se sentir ofendidos. Talvez decidam que eu deva ser morto."
Bah!
Norte-americano, Crumb auto-exilou-se na França, morando em uma cidadezinha com ares medievais, chamada Sauve; leva uma vida pacata, divertindo-se com sua coleção de 5 mil discos raros de 78 rotações, ao lado da mulher e filha.
*Na ilustração, o "velho barbudo" escolhido por Crumb para ilustrar Deus. Ele (Crumb!) teria cogitado em personificar (e antropomorfizar) o "Todo-Poderoso" como uma mulher negra, mas optou pelo tradicional patriarca. Coerente com as histórias bíblicas, Crumb diz ter sonhado com Deus neste "formato" - "Foi um dos sonhos mais forte que já tive", disse o iluminado desenhista. Assim seja!
**Na revista Piauí, que tem publicado quadrinhos de Crumb, sairam dois capítulos do seu Gênesis. Quando der, vou reproduzir aqui partes da introdução escritas pelo desenhista...

Por e-mail, contrapontos

Há anos estamos tentando colocar contrapontos a algo que acaba se configurando como uma pesada violência simbólica, na acepção trazida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu: o estabelecimento de uma identidade dominante para a comunidade santa-cruzense, ou seja, “germânica” - palavra que já encerra uma miríade de associações, tal a sua abrangência e interpretações complexas.

Nestes empenhos de "germanizar" Santa Cruz, outros grupos são invisibilizados e pessoas que não se adequam a tal “origem” têm o seu “capital social” - outro termo de Bourdieu - desvalorizado, e permanecem numa marginalidade de pertencimento comunitário; seres subalternos, menosprezados, submetidos por uma historiografia e aparato simbólico-turístico exclusores, forjados por ideólogos da "germanidade" local.

Nada pessoal contra tais intelectuais, mas seus desejos, objetivos e empenhos não são inócuos e indolores. Por isso acredito que é preciso manter-se uma crítica a este tipo de “arrazoado” – quase sempre mais sentimental do que uma argumentação de fôlego –, para que não se continue impondo concepções marginalizadoras. Enfim, acredito que nem tudo se pode fazer em nome de orgulhos étnicos e viabilidade turística.

Como uma forma de "resistência", muitas pessoas usam e-mails, mostrando-se contrários, contrargumentando. Abaixo vou postar alguns meus, enviados esporadicamente para alguns destes intelectuais (dois deles, no caso), que têm amplo acesso à imprensa, a produções intelectuais (livros, fascículos, programas de rádio etc.) e são demandados para palestras seguidamente.

Não vou usar o nome das pessoas a quem se direcionaram as mensagens, até porque o que interessa mesmo é a argumentação e os dados que acabei apresentando de uma forma bem livre.

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Professora,

Tenho acompanhado os textos da senhora que saem na Gazeta do Sul. Li também aquele que saiu no livro Fragmentos de Vida organizado pelo professor Schneider. Pareces ser uma pessoa dedicada e sensível, mas, em alguns pontos, com todo respeito, não posso concordar com suas posições.

No último, na primeira parte, publicado em 23/05 na página 2 da Gazeta do Sul, a senhora parece, em minha opinião, repetir uma argumentação em superação. O historiador Mário Maestri, na revista Vox (IEL, número 7), faz uma referência a isso no artigo A lei do Silêncio: história e mito da imigração ítalo-gaúcha. A perspectiva apresentada por Maestri, creio, pode ser perfeitamente transposta, com as devidas particularidades, ao caso das colônias teuto-gaúchas, onde entraria, sem dúvida, Santa Cruz do Sul. Cito alguns trechos:

“Na Região Colonial Italiana, ainda hoje, é forte a recordação de violentos atos policiais contra colonos por falarem e cantarem em italiano; de crianças levando bilhetes para realizarem as compras familiares; do terror lingüístico conhecido pelos moradores das distantes linhas. Para essas memórias, os falares itálicos jamais teriam se recuperado dos golpes causados pela Lei do Silêncio. Essa interpretação nunca foi confirmada ou infirmada por estudos históricos. A explicação da dominância lingüística do português e do desaparecimento dos falares itálicos devido à repressão do Estado Novo aponta causa exógena à comunidade colonial para fenômeno essencialmente endógeno a ela – suas práticas lingüísticas.”

Adiante, no mesmo artigo, Maestri, ao comentar um trabalho acadêmico da historiadora Cláudia Mara Sganzerla – A lei do silêncio –, diz que, partindo do pressuposto que houve um “golpe fatal” da repressão lingüística durante o Estado Novo, a pesquisadora “abandonou as hipóteses iniciais ao, surpresa, não se deparar, para a região, com o decantado rosário de repressões e violências aos falares italianos. (...) Após contextualizar e hierarquizar os atos policiais e institucionais do Estado Novo, enquadrando-os espacial e temporalmente, Cláudia Mara traçou paisagem histórica bastante mais nuançada, precisa e complexa, rompendo com as interpretações maniqueístas correntes sobre a política de nacionalização da região. (...) Sem descurar as seqüelas das violências varguistas, corroborando investigações lingüísticas concluídas e em conclusão, Cláudia Mara sugere que as razões últimas da superação do talian sejam mais estruturais, encontrando-se aquém e além da Lei do Silêncio: crescente inserção da Região Colonial Italiana na economia nacional; desenvolvimento da mídia e da rede de ensino; interesse dos pais que os filhos dominassem o português, etc. A Lei do Silêncio: Repressão e nacionalização no Estado Novo em Guaporé (1937- 1945) [esse é o título do trabalho que Maestri está comentando], de Cláudia Mara Sganzerla, certamente apoiará outros estudos que ampliem a área analisada e, através da objetivação crítica dos fatos analisados, contribuam à superação da ainda importante opacidade criada por visões mitológicas e ideológicas do passado sulino e brasileiro.”

Senhora, a sua defesa de que “a diversidade existe, mas não é expressiva, historicamente falando, e muito menos, ‘desde os seus primórdios’ [onde parece citar-me sem fazer referência ao meu nome]”, parece querer legitimar a exclusão de outros grupos étnicos da formação de Santa Cruz do Sul, menosprezando a importância de inúmeras pessoas que colaboraram na conformação do município, antes mesmo de 1849. Permita-me colocar abaixo três pequenos artigos que escrevi ano passado, a partir das reflexões que realizamos junto ao Coletivo de Estudos e Debates Étnicos e Culturais de Santa Cruz do Sul (Cedecs), que se referem, em especial, aos negros e negras. Os textos sintetizam um pouco do que penso e a necessidade de se relativizar a “origem alemã” do lugar. Embora sem pretensões, sem seguir o “rigor científico” – e considerando que foram feitos para um jornal popular e não uma revista acadêmica – são todos pautados em “pesquisas sérias”, incluindo os escritos do professor Sílvio Correa [não estão colocados aqui].


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Professora,

Continuo acompanhando seus artigos no jornal e, por circunstância, um último que li, na Gazeta do Sul de 6 e 7 de outubro de 2007, Die Oktoberfeste. E também continuo a dizer que admiro a sua dedicação apaixonada pelo resgate/construção da identidade teuto-descendente aqui em Santa Cruz. Mas há momento em que julgo haver, para além de romantismos históricos e “polianice” em relação a Oktober, um abuso à beira da ofensa. A quem a senhora se refere quando diz “Nossa Oktoberfest” e “nossa região”? Eu estou incluído? Também estou tentando entender o que significa "a cultura e as tradições daqueles que historicamente transformaram este espaço [suponho que seja a região de Santa Cruz] natural e cultural”. Vou ser repetitivo: Meus parentes e parentes de meus amigos santa-cruzenses sem sobrenomes “alemães” estão fora? Os imigrantes e teuto-descendentes fizeram todas as coisas sozinhos? Nunca houve cultura anterior aqui no Vale do Rio Pardo e mesmo em Santa Cruz? O que dizer do Faxinal do João Faria, por exemplo? Não existiu este povoado [que deu origem à cidade]? Não houve nenhuma interação? Não houve em meio às comunidades teutas outras pessoas de outras procedências? Não houve alguma influência, a não ser o que trouxeram do centro da miserável Europa de meados do século XIX? Parece-me algo que se choca frontalmente com todas as evidências e a básica historiografia que tente escapar de exageros ideológicos. Se a senhora luta pela afirmação de uma identidade “alemã” para Santa Cruz, por outro lado, eu e muitas outras pessoas temos nos empenhado em “abrir” as perspectivas identitárias para algo integrador e policultural, evitando exclusões (sempre me vem à cabeça que será muito improvável que uma soberana da Oktober seja uma negra, mesmo que seus tataravôs tenham nascido aqui no município e a moça seja tão ou mais lindas que nossas doces Rapunzéis). Noto uma violência tremenda nisso, que é preciso avaliar muito bem os impactos.


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Prezada professora,

Muito importante as suas preocupações manifestadas no artigo “Nossa Linha Santa Cruz”. E uma oportunidade para irmos até além, percebendo que sempre há uma composição de gentes envolvidas na formação de uma comunidade, mesmo que pequena. Caso contrário, se acreditarmos em “purezas” e “direitos maiores” de um grupo, bem fácil caímos na discriminação e seus subprodutos perversos e que tanta dor já causaram (e ainda causam) à humanidade. E isso vale pra qualquer grupo social ou étnico-racial.

A senhora diz “Nós vivemos aqui e agora, antes de nós outros vieram e depois de nós outros viveram e depois de nós viverão. Não podemos perder de vista esta dimensão temporal histórica, social e cultural que constitui e constrói nosso lugar.”

Acho certíssimo e por isso até podemos recuar ainda mais quando falamos em Santa Cruz do Sul e em Linha Santa Cruz. A senhora sabe que devemos considerar que a picada se constrói em torno de antiguíssimas trilhas de povos indígenas (e depois caminhos de tropeiros vagos) que circulavam a região desde milênios, descendo e subindo a serra, do planalto até o rio Jacuí, limite natural com o pampa gaúcho.

A senhora também sabe que a picada foi originalmente aberta por trabalhadores negros e peões sob mando de empreiteiros e outros servidores pagos com recursos públicos, e que ganhou o nome de Picada do Abel – antes de se chamar Linha Santa Cruz –, alusão ao empreiteiro contratado anos antes da introdução dos primeiros 12 assentados, o sr. Abel Corrêa da Câmara – mas que acabou sendo levada a cabo (por outorga da lei provincial nº 111, de 6 de dezembro de 1847) por outro empreiteiro, Delfino dos Santos Moraes.

A senhora sabe que, a rigor, se trata de uma licença ideológica se dizer que estas primeiras levas são de “alemães”, já que não há o país e que muitos, mesmo considerando a divisão territorial européia de hoje, seriam poloneses (caso de 11 pessoas da primeira leva de 12). *A propósito, segue mais abaixo o comentário que publiquei no meu blog falando justamente disso [não colocado aqui].

Também dizer que eram terras despovoadas é impreciso, professora. Já há informações suficientes para demonstrar-se que toda a colonização com povos germânicos e outras gentes no Vale do Rio Pardo não se dá num vazio populacional. Como mencionei, considere-se os grupos indígenas que aqui se assentavam e circulavam sistematicamente desde séculos (até reduções jesuítico-guaranis tivemos nos anos de 1630 aqui no vale – inclusive uma em pleno território de Santa Cruz, a redução San Cristóbal, com 950 pessoas); considere-se os aquilombamentos, com negros e outros “parias” fugidos das cidades e fazendas na região, em especial de Rio Pardo, embretados em matas e montanhas (e sempre recuando na medida que os loteamentos rurais vão expandindo-se pela serra); considere-se os ocupantes e sesmeiros luso-brasileiros, trabalhadores negros e outros agregados que aqui estavam estabelecidos e conformavam o Faxinal do João Faria e rancharias ainda mais modestas espalhadas nos arredores.

Não entendo como esta riqueza de gentes, de referências geográfica, sociais e culturais é desprestigiada e mesmo desconstituída com discursos que forçam exclusivismos e purezas que me parecem mais fetiches de identidades étnico-raciais, cujos pressupostos, a menor contraposição seriamente embasada, “se desmancham no ar”, aludindo a outro intelectual alemão admirável, Karl Heinrich Marx. **Também a propósito, segue outro comentário sobre o assunto que postei no meu blog [não colocado aqui].

Agradeço a atenção e desejo tudo de bom.


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Prezado:

Leio esporadicamente com muito interesse a sua coluna no Riovale. Dias atrás, um fragmento me chamou a atenção: havia uma crítica a manifestações questionando o questionamento que historiadores e ativistas têm colocado na imprensa. O chapéu me serviu e então resolvi, cordialmente, mandar-lhe este e-mail.

Não se trata, como sempre digo, de menosprezar, muito menos negar toda a carga de dificuldades, esforço e sofrimento de milhares de indivíduos e famílias imigrantes e descendentes que se assentaram na região de Santa Cruz do Sul, em especial (mas não unicamente) alemãs. O questionamento se refere ao tom grandiloquente e mitificador, que parece tentar concentrar todas as virtudes em um ou dois grupos específicos, esquecendo que somos, independente de referências geográficas e culturais, seres humanos...

Recentemente, o senhor deve ter acompanhado, registrou-se os “130 anos da presença italiana no RS”. O caderno de cultura do jornal Zero Hora publicou uma série de textos, cujo enfoque e conclusões são perfeitamente aplicáveis para o caso da “presença alemã” no estado: recupera-se “a dimensão humana da vida da colônia, para além dos discursos laudatórios”. No artigo da professora Corteze, destaca-se que “O mito de um colono predestinado simplifica, estereotipa e empobrece a complexa história da imigração italiana.” No do professor Maestri, levanta-se a idealização de muita produção historiográfica, que escamoteia “contradições, tropeços e desastres”, propondo-se que o “progresso” da região deriva de uma essencialidade étnica do colono itálico, em contraposição (mesmo que não mencionada) aos povos nativos, caboclos, afro-descendentes etc., que “fracassaram” por “razões intrínsecas à raça”. Só para citar mais um artigo, da lingüista Florence Carboni, que aponta a simplificação ingênua de acredita que os falares itálicos nas colônias da serra gaúcha sucumbiram por conta tão somente restrições que ocorreram durante um período (três anos, mais exatamente) do governo de Getúlio Vargas, que, aliás, flertou por longo tempo com os países do Eixo...


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Senhor,

Muito interessante a sua crônica na GS de quarta-feira, 21/03. Aliás, acompanho-as sempre que possível, às vezes lendo na corrida, desde quando saía no Riovale. Penso sempre em fazer algum comentário, mas na hora “H”, acabo me envolvendo com meus afazeres, e perco a “inspiração súbita”.

Como me interesso pela “questão étnica”, as inter-relações entre grupos – ainda mais em nossa região –, prestei um pouco mais de atenção no seu último texto. E ponderei que a consideração final, de que não houve “interpenetração social e cultural” entre ciganos, tropeiros, negros – poderíamos falar de índios e diversos outros grupos migrantes e imigrantes – pode ser relativizada ou vista de outra forma. Para mim, não existe convivência, por mínima que seja, que não implique em mútuas, diversas, sutis ou “descaradas” interpenetrações culturais, sociais, etc. Um exemplo prosaico: o hábito do chimarrão. Acho que não se pode dizer que na região da hoje Alemanha, havia o consumo da erva-mate. Pra ficar no campo da gastronomia ainda: e o que dizer do consumo de feijão – algo aprendido pelos colonos nos primeiros dias de chegada ao Brasil? (Caso disponha de algum tempo, mando-lhe um comentário meu falando sobre as memórias de Luis Panke e a relação que estabeleci entre a mencionada leguminosa e os imigrantes em Rio Pardinho.)

Outra observação: Em relação aos negros, não creio que se possam reduzir as relações entre imigrantes teutos (entre outros) e seus descendentes como uma “acolhida” – mesmo que isso tenha de fato acontecido e seja algo louvável, emocionante, mesmo. Apesar das “proibições”, houve na região imigrantes que possuíram escravos, além de sistemas de “apadrinhamento” que, ao cabo, podem ser caracterizados com um regime de trabalho de servidão. A situação de proscritos – vivendo aquilombados em vários pontos do Vale do Rio Pardo, já bem antes de 1849 –, de miserabilidade, de discriminação sistemática – apoiada numa poderosa ideologia racista – de negros e mestiços (não-brancos em geral) os colocavam (e ainda colocam, basta ver os dados sócio-econômicos do Brasil de hoje) em situações de subalternidade, de submissão, de exploração medonhas. Nas zonas de colonização isso também aconteceu.

Penso que na “saga da colonização” está também a saga ou a tragédia do povo afro-descendente, dos autóctones americanos, de outros tantos povos que por aqui estavam e estão – até mesmo ciganos, grupo, como sabes, originado na mítica Índia, mantendo, ainda, explicitamente, elementos culturais daquele distante oriente. Ou seja, a saga não é algo feito em isolamento, creio eu. É algo complexo, cheio de “detalhes”, para além de romantismos. A saga dos colonos é a saga de todos nós, brasileiros, seres inapelável e culturalmente híbridos, onde não existem “purismos”. E me parece que “purismos” só servem para fertilizar “ovos de serpente” – algo que, infelizmente, não foi superado, mesmo com tantos exemplos de matança horríveis em nome de credos de vários tipos.

Agradeço a atenção. Abraço fraternal.

04/10/2009

Fumo: nem anjo, nem demônio


Embora se possam traçar diversos paralelos com o sorver de um vinho ou um café, hábitos conviviais, aceitos e incentivados socialmente, fumar, ao contrário, tornou-se uma prática quase sempre solitária ou realizada em restritas confrarias. Talvez estejamos diante de um (obrigatório) retorno aos antigos “clubes de apreciadores”, onde, inclusive, envergava-se o smoking – originalmente, como se sabe, uma capa (smoking jacket - ilustração ao lado) usada para os “encontros de fumantes”.

E acho que está certo este encaminhamento. O fumar implica em responsabilidades derivadas da exalação da fumaça e seus componentes potencialmente nocivos.

Particularmente, aprecio fumar – de forma esporádica, em momentos especiais, de preferência cigarros e cigarrilhas de tabaco produzidas artesanalmente, sem aspirar a fumaça até os pulmões (“tragar”), aproveitando o efeito estimulante da nicotina de uma forma branda e buscando, muito mais, usufruir dos sabores e aromas da queima das folhas, permitindo, além disso, que o corpo tenha melhor capacidade de se auto-desintoxicar.

Entretanto, sou favorável às advertências, restrições, taxações e proibições sobre o consumo do tabaco, desde que não tolha a liberdade e direito alheios (que presupõe deveres). Nenhuma pessoa, em especial crianças e adolescentes, deve ser submetida a ambientes com gente fumando – públicos ou privados, mesmo em família. Também não deveria haver estímulo algum – e o banimento da propaganda em rádio e TVs abertas e em revistas, jornais e sites voltados ao público em geral são formas acertadas para evitar o consumo precoce. Isso porque, como vários outros produtos com elementos que podem levar à dependência química, fumar tabaco é uma decisão que só pode ser tomada – se for o caso – na adultez, ou seja, de posse do pleno equilíbrio e maturidade psicológicos e físicos.

Outra questão: tenho como lamentável a compulsão ao fumo. Não é trágico que uma prática derivada do uso medicinal e religioso de povos indígenas venha a se tornar um flagelo pessoal e social? Parece-me muito triste uma planta enteógena, xamãnica, banalizar-se tanto e perverter-se pelo “vício”, pelo hábito descontrolado e sujeição do usuário, levando-o a deterioração da saúde e conseqüentes prejuízos à comunidade – por acarretar a necessidade de remédios, tratamentos, hospitalização e seguros por invalidez financiados com recursos públicos.

A mesma situação em relação ao álcool, o psicoativo talvez mais antigo, tradicional e globalizado que existe. Pois uma coisa é beber um cálice de algum bom cabernet sauvignon de maneira eventual. Outra é tornar-se um alcoolista.

Não há sempre uma relação direta entre beber e ser um “bêbado”. Nem fumar e ser uma “tabagista”. Mas riscos sempre haverá e alguns terão que se abster por sua compleição corporal ou/e inclinação psicofísica drogadicta. Parece-me que cada indivíduo deve construir os seus limites através de muita informação e auto-análise, enfim, muita consciência.

Consideradas essas “premissas”, vencidos esses “poréns”, fumar pode ser um prazer, uma grande satisfação. Na ritualística da combustão das folhas desta bela solanácea (uma planta também considerada ornamental), os apreciadores vêm desencadear-se um processo que leva ao deleite estético, aromático e gustativo únicos.

Vários com certeza se horrorizarão das minhas opiniões. Existe mesmo uma “satanização” do fumo – que, como no caso de outros produtos, não tem levado a resultados práticos e, me parece, até colaboram para a expansão de consumos perniciosos.

Fumar com parcimônia – assim como beber com parcimônia (para mantemo-nos na comparação já feita) – são práticas que adultos podem (ou não) incorporar em suas vidas como fontes de auto-gratificação; sempre realizadas com a devida responsabilidade, porque o tabaco, assim como o álcool, não são inofensivos, angelicais. Mas também não são demônios implacáveis.

“Nem tanto ao céu, nem tanto à terra” parece um conselho sábio para não cairmos em radicalismos estagnantes. Sem considerar o colapso econômico em várias regiões que acarretaria (e não considerando neste momento questões como exploração de mão de obra e uso intensivo de agrotóxicos na fumicultura), a extinção do consumo de um vegetal milenar é praticamente impossível, desnecessário, ineficaz. Há, sim, meios de diminuirmos prejuízos coletivos, preservando liberdades.

27/09/2009

Sobre o sonho



“O sonho é uma pequena porta escondida nos recantos mais íntimos e secretos da alma, abrindo-se para dentro dessa noite cósmica que era psique muito antes de existir qualquer consciência do ego, e que permanecerá psique até onde quer que a nossa consciência do ego possa entender. Pois toda a consciência do ego está isolada: ela separa e discrimina, conhece apenas pormenores, e vê apenas o que possa estar relacionado ao ego. Sua essência é a limitação, embora alcance a nebulosa mais distante entre as estrelas. Toda consciência separa; mas, nos sonhos, assumimos a aparência daquele ser humano mais universal, mais verdadeiro e mais eterno, que vive na escuridão da noite primordial. Lá, ele ainda é o todo, e o todo está nele, indistinguível da natureza e despido de toda condição de ego. É dessas profundezas que a tudo unificam que surge o sonho, seja infantil, grotesco e imoral. Em sua transparência e veracidade ele se assemelha a uma flor que nos faz enrubescer diante da insinceridade de nossas vidas.”





A citação acima está no livro A Imagem Mítica, de Joseph Campbell (Papirus, 1994). É uma passagem de C.G. Jung – “The meaning of psychology for modern man", Civilization in transition, conforme consta na nota da obra de Campbell.

O célebre estudioso apresenta várias imagens e discorre, com sua vertiginosa – mas acessível – erudição, sobre alusões simbólicas que buscam entender e explicar (compreender) a existência humana e seu(s) mundo(s). Nesta primeira parte, a análise está centrada numa imagem, “Vishnu Sonhando o Universo” [ilustração desta postagem], que tenta traduzir em sítese o fundamento da cosmovisão hindu: “A idéia que se tem do universo, de seus céus, de infernos e de tudo o que nele existe, como se fosse um grande sonho sonhado por um único ser e no qual todas as personagens oníricas também estão sonhando, encantou e deu forma a uma civilização inteira na Índia”, diz Campbell.

Ao especular sobre “quem sonha, quem é sonhado”, Campbell pergunta:

“Somos, você e eu, do modo como nos conhecemos, reflexo de algum mistério solene? E, se somos, estará esse mistério adequadamente representado em nossa imaginação de ‘Deus’?”




***Naquelas “coinsciências”, no mesmo momento que estou lendo citações de Jung no livro de Campbell, estou, sem planejamento, escutando canções do The Police, de seu disco Synchronicity (1983). Canções que muitos escutamos nos anos 80 e que permanecem com um “patrimônio” comum de velhos amigos de infância e adolescência. E com várias referência a Jung – estímulo para lermos suas obras ou coisas relacionadas ao seu pensamento, e que Sting usou para compor canções deste disco.

Abaixo, a letra da canção que abre o “LP”:



Synchronicity I

With one breath, with one flow
You will know
Synchronicity

A sleep trance, a dream dance,
A shared romance,
Synchronicity

A connecting principle,
Linked to the invisible
Almost imperceptible
Something inexpressible.
Science insusceptible
Logic so inflexible
Causally connectable
Yet nothing is invincible

If we share this nightmare
Then we can dream
Spiritus mundi

If you act, as you think,
The missing link,
Synchronicity

We know you, they know me
Extrasensory
Synchronicity

A star fall, a phone call,
It joins all,
Synchronicity

It's so deep, it's so wide
Your inside
Synchronicity

Effect without a cause
Sub-atomic laws, scientific pause
Synchronicity...

20/09/2009

Sobre arte e poesia - o sábio Campbell




No riquíssimo livro de Joseph Campbell – com o jornalista Bill Moyers – , O poder do mito (Palas Athena, 1990) há, entre tantas passagens por demais interessantes (e muitas comoventes), há uma sequência que fala da arte e, destaco, da poesia:

[...] Nos Upanixades há uma imagem da energia original, concentrada, responsável pela grande explosão da criação que produziu o mundo, destinando todas as coisas à fragmentação temporal. Mas ver, através dos fragmentos do tempo, o poder total do ser original – essa é a função da arte.

[...] A beleza é uma expressão daquele arrebatamento de estar vivo.

[...] Cada momento deveria ser uma experiência como essa.

[...] O que vai ser de nós amanhã não é importante comparado com tal experiência.

[...] O que estamos tentando fazer [nesta conversa sobre os mitos e a vida], de certo modo, é apreender a essência do nosso assunto através dos meios parciais de que dispomos para expressá-los.

[...] Mas se não podemos descrever Deus [palavra muito problemática para denominar O Grande Mistério ou A Divindade], se nossa linguagem não é adequada, como é que erguemos construções sublimes? Como criamos essas obras de arte, que refletem o que os artistas pensam de Deus? Como fazemos isso?

[...] Ora, é o que a arte reflete – o que os artistas [que Campbell considera os “modernos” construtores de imagens mitológicas] pensam [disso que chamamos] de Deus, a experiência de Deus que têm as pessoas. Mas o mistério último, imponderável, está além da experiência humana.

[...] Portanto, o que quer que experimentemos, temos de expressar em uma linguagem que não é apropriada à situação.

[...] Eis a função da poesia. Ela é uma linguagem que deve ser assimilada aos poucos, cuidadosamente. A poesia envolve uma escolha precisa de palavras, cujas implicações e sugestões ultrapassam as próprias palavras. Graças a isso, você experimenta o esplendor, a epifania, que é uma aparição da essência [das coisas].

[...] Portanto, a experiência de Deus [da Divindade] está além do que podemos descrever, mas nos sentimos compelidos a tentar descrevê-la [...].

*Para quem quer dar uma olhada em outras passagens, tem este link:

http://www.culturabrasil.pro.br/campbell.htm

A citação inicial:

“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.”
E para ver no YouTube a entrevista (legendada em português), eis o link da primeira parte (de seis):

13/09/2009

Breve baianada


Na onda das viagens, vai aí uma fotinho da última empreitada na Bahia. Fiquei duas semanas desta vez, no final do mês passado (agosto), em Cruz das Almas, e um pouco em Salvador, num curso de pós com módulos na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB.


Como disse o Agladis, é muito interessante as semelhanças entre cidades como, por exemplo, Rio Pardo, Rio Grande, no RS, e Salvador, BA. Atestado do sucesso lusitano em efetivar a sua dominação num país imenso como o Brasil - sem contar em vários e muitos outros cantos do mundo, até na Ásia (Goa e Macal, pra citar os principais, talvez). Andar em Cachoeira e São Félix (cerca de 140km de Salvador, e bem próximo de Cruz das Almas), que se estendem ao longo do famoso Rio Paraguaçu, é uma experiência fantástica - em especial pra nós brancos sul-brasileiros. Ao mesmo tempo que se está no Brasil, parece outro mundo: moreno, mestiço, sinuoso, "barroco", impregnado de religiosidade e sensualidade ao mesmo tempo. Lá conheci um terreiro de Candomblé e até um bênção com pipoca "purificadora" recebemos da babalorixá.


Dizem que essa região é o berço do Brasil pela extração do Pau Brasil e depois pela agricultura - cana, café, fumo etc. - começa uma "viabilidade econômica" para a colônia portuguesa na América. E também berço das religiões de matriz afro e afro-indígena-católica. Outro "berço" é o dos charutos e do cultivo e beneficiamento de tabaco para charutos, que se tornaram mundialmente famosos por sua qualidade.


Também aproveitei a estada na Nahia para experimentar o que fosse possível da alimentação "típica". Fiquei até meio enfarado dos temperos. Overdose de azeite de dendê, leite de coco, macacheira (TUDO leva mandioca - sem trocadilhos!)... Comi acarajé, mugunzá, vatapá, abará, caruru, muqueca, xinxim, tapioca, beiju, bobó, maniçoba, pamonha... Sucos de umbu, cajá, cacau, graviola (licores dessas coisas) e até o intragável suco de milho verde... Tomei um fartão, como se diz! Mas a cocada escura cozida de sobremesa é algo espiritual - pode levar a pessoa a um êxtase, a uma epifania, a visões da Virgem Maria Imaculada e mesmo do Nosso Senhor Jesus Cristo ao lado do Pai de Todos!!! Comi isso num restaurante instalado num antigo convento... Que pecado, tchê!


Minha "tendência vegetariana" não me impede de provar qualquer alimento, caso eu sinta vontade. Não quero ser sectário. Apenas evitar comer carne, porque é uma coisa meio feia e o sofrimento do animal - que considero seres ao par dos humanos - é muito explícito, ainda mais quando é um mamífero, tipo vaca, porco, coelho etc. Mesmo assim, como os pobrezinhos... (Contei que fui em fevereiro a Argentina, Misiones, num intercâmbio visitar aldeias de índios guarani por lá e comi carne de gado e aipim direto! Não havia muita opção, claro, e em momentos assim, de conhecimento e busca de contatos, quero compartilhar o máximo possível, incluindo as refeições.)


Também cada vez mais tenho menos restrições a "misturas". Aqui entre a "alemoada" não é incomum misturas coisas como cuca de abacaxi (doce) com feijão e batata frita no mesmo prato.


Lá em Cruz estava até um pouco frio. Outra coisa que não esperava da Bahia - além de uma Salvador megalópole, tão cheia de coisas quanto São Paulo ou Porto Alegre (nada ver com aquilo - imagem estereotipada e preconceituosoa - de todo mundo em uma rede na beira da praia tomando água de côco). Um frio úmido. É uma região com bastante verde, rios e lagos. E é época de "inverno", que significa "chuvas".


E o sotaque? É um elemento da voz, mas na verdade tudo tem um sotaque diferente - no andar das pessoas, no jeito de olhar, no jeito de sentir e pensar, conjecturo. É uma formação em outro universo cultural, com outra cosmologia, que diferencia em sutilezas e dá nesta diversidade tão bacana.


Cruz das Almas tem vários paralelos com Santa Cruz do Sul (além da palavra "Cruz"): são duas zonas de plantio de fumo históricas e de grande importância sócio-econômica - só que por lá, como falei, fazem charutos, e aqui o tabaco é pra cigarro. Em ambas cidades, o domínio econômico industrial, porém, é por estrangeiros. Ligam-se também pela presença de imigrantes germânicos. Mas, até onde pude saber - e parece haver poucos estudos sobre isso pelo que apurei com colegas e numas visitas, lá os "alemães" (entre outros) vieram já com idéias e capital para montar indústrias ligadas ao tabaco, e que ficaram famosas, como Dannemann e Suerdieck.

04/09/2009

Álcool



O álcool talvez seja a droga mais antiga e popular do nosso planeta – na forma de fermentados e destilados, feitos a partir de cereais, frutas e outros vegetais. Índios da América do Sul usavam (e ainda usam) a mandioca numa fermentação desencadeada pela saliva das jovens nativas; egípcios do norte da África apreciavam já em prototípicos pubs um ancestral chope, que, depois de muitas voltas, passou a ser a bebida-símbolo dos alemães, em especial através da difusão dada pela Oktoberfest no começo do século XIX em Munique.

Cachaça, uísque, vinhos, conhaques, cervejas, misturas diversas, formulações várias – sempre tendo o álcool potável como o seu agente psicoativo-mor. E as sensações podem ser tão “boas”, tão agradáveis, que o indivíduo começa a ingeri-lo compulsivamente – criando-se, muitas e muitas vezes, uma terrível dependência química, não raro com um final em cruenta tragédia.
Particularmente, não é o álcool, e, sim, o café a minha droga diária, onde busco o sabor peculiar e o efeito estimulante. A cafeína dinamiza a atenção e o intelecto, digamos assim. O álcool, para mim, tem sido um relaxador leve, descontraindo-me, sem que eu chegue a algum “êxtase” – nem caia num torpor mórbido ou euforia incontrolável.

E esse efeito relaxante e desinibidor – permitindo ao sujeito manifestações de suas vontades, pensamentos e índoles represadas – é, no meu entender, o motivo principal da generalização do uso do álcool – tornando-o a droga mais “pop” em todos os continentes, em todas as idades e em todas as classes sociais.

Numa sociedade onde a moldagem, via o processo de socialização, leva a auto-repressão (e sem isso não há civilização ou similares grupos humanos estáveis), que se interioriza no indivíduo como uma composição de sua personalidade, o álcool é a “válvula de escape” – para o indivíduo e para a comunidade. Assim, torna-se uma “droga constitutiva”, inerente, “necessária” a nossa vida social/sociedade – assim como estão se tornando os fármacos antidepressivos e, mesmo, a maconha, que se ressente da repressão e preconceito gerado pela ilegalidade do seu comércio.

Já o álcool, propalado em anúncios televisivos muito bem elaborados – tendo como “garotos” e “garotas-propagandas” estrelas da mídia nacional –, perversamente associa-se apenas a prazeres: alegria, bem-estar, amizades, beleza, sexo, sucesso com mulheres/homens, etc. Evita-se a os incontáveis infortúnios diretos e indiretos derivados do seu consumo contumaz ou sem observâncias de cuidados fundamentais, como não dirigir após a ingestão.

Concluo que, sendo o álcool (entre outras drogas), como afirmei, constitutivo do nosso tipo de organização coletiva, o “combate” (palavra muito inadequada) deve ser pensado para além da repressão. O caminho me parece ser – e com o temor de soar demasiado utópico –, em primeiro lugar, pela abertura de espaços lúdicos e outros que possibilitem a expressividade de outras facetas do ser humano, assim como uma educação pautada na libertação das potencialidades humanas e responsabilidade pessoal e grupal. Em segundo lugar, o desestímulo ao consumo, banindo a propaganda massiva, caso da em canais abertos de TV. Em terceiro lugar, ampliando e aprimorando uma regulamentação do consumo, evitando o abuso e uso precoce dessas substâncias, como já dispõe o Estatuto da Criança e do Adolescente.

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*Li uma matéria que saiu na site Rolling Stone brasileira sobre a cantora Amy Winehouse. Anotei a seguinte conceitualização que ela deu pra duas drogas nossas conhecidas: “A mentalidade por trás da maconha tem a ver com o hip-hop, e quando fiz meu primeiro álbum eu só ouvia hip-hop e jazz. A mentalidade da maconha é muito defensiva, tem um clima de ‘foda-se, você não me conhece’. Enquanto a idéia por trás do álcool tem muito mais a ver com ‘oi, sou eu. Ah, eu te amo, vou deitar no meio da rua por você. Não estou nem aí se você nunca olhar para mim, eu sempre vou te amar’.”

**Uso cerimonial de fermentados alcoólicos pelos índios (noutro momento, já mencionei o tabaco, outra planta que pode ser arrolada na etnobotânica americana, descoberta, cultivada, beneficiada – secagem das folhas, manufatura de “charutos”, desenvolvimento de cachimbos e outros meios de uso – por povos “pré-colombianos”, de uso cerimonial e medicinal, apropriada pelos europeus e transformada em mercadoria e produto de uso vulgar, generalizado e compulsivo):

Na obra do genial folclorista Luis da Camara Cascudo, História da Alimentação no Brasil, documento dos mais vastos e interessantes sobre a cultura, história e sociedade brasileiras, há um capítulo (p. 143) tratando das bebidas usadas em rituais festivos pelos índios brasileiros. Cascudo cita o alemão Hans Staden, que conviveu com nativos por volta de 1554:

“As mulheres é que fazem também as bebidas. Tomam as raízes de mandioca, que deitam a ferver em grandes potes, e quando bem fervidas, tiram-nas e passam para outras vasilhas ou potes, onde deixam esfriar um pouco. Então as moças assentam-se ao pé a mastigarem as raízes, e o que fica mastigado é posto numa vasilha à parte. Uma vez mastigadas todas essas raízes fervidas, tornam a pôr a massa mascada nos potes que então enchem de d’água e misturam muito bem, deixando tudo ferver de novo. Há então umas vasilhas especiais, que estão enterradas até o meio e que eles empregam, como nós os tonéis para o vinho e cerveja. Aí despejam tudo re tampam bem; começa a bebida a fermentar e torna-se forte. Assim fica durante dois dias, depois de que, bebem e ficam bêbados [tal expressão talvez não seja a mais adequada, devida a sua carga pejorativa]. É densa e deve ser nutritiva.”

Além da mandioca, também se usava o milho e outras plantas e partes de vegetais, como ananás e raízes de certa pimenteira, todas obedecendo ao processo básico – usado por diversos grupos aborígenes do mundo todo, do Peru à Austrália – de desencadear a fermentação do produto pela mastigação: “Na diástase da saliva a ptialina transforma o amidos das raízes e dos frutos em maltose e dextrina, provocando a sacarificação, resultante dos ácidos orgânicos sobre os açúcares.”

A repugnância e paulatino desuso do processo de fabricação dessas bebidas pela mastigação. Cascudo acredita “que à nossa vã filosofia ‘científica’ escapam razões milenares e secretas de certos atos da [assim chamada] vida primitiva. E mesmo da vida popular contemporânea. (...) A saliva está neste plano, mágico, histórico, universal no espaço e no tempo.”

Outra observação fundamental de Cascudo: “Beber por desfastio, divertimento, desejo íntimo, não existia e quase não existe entre os aborígenes. Indígena isolado, bêbado, é contágio de ‘branco’. Bebida é sempre função grupal, solenidade com motivação indispensável.”

As “caiuagens” [consumo coletivo do fermentado] não era algo do dia-a-dia, mas fazia parte da rotina social dos grupos. A bebida “era cerimônia especial e distinta”. Durante esse período, os indígenas abstinham-se de alimentos. Nas refeições cotidianas, quando se sente necessidade, bebe-se água pura, diz Cascudo.

Cascudo, ainda neste capítulo, fala do caápi, um cipó – ou melhor, a “infusão da casca previamente socada num pilão especial, mal diluída em um pouco de água” – que “produz um sumo amargo, servido depois das amplas bebidas coletivas, promovendo sonhos, excitações, semidelírios, no alto do rio Negro e mais freqüentemente no Uaupés. (...) O uso do caápi parece ter sido influência incaica, onde dizem ayauasca e lluasca.”
*** Na foto (divulgação), mastigação de Cauim de milho (Mitähi) por índia arawete.