07/02/2012

Não é piada


Por duas vezes, recebi um e-mail que parece uma reação “bem humorada” (mas, para mim, extremamente problemática) às ações afirmativas voltadas à promoção da comunidade negra brasileira. São 17 “artigos” falando em cotas para “alemães”, penalidades a supostas ofensas raciais, dias comemorativos etc. Quando recebi, fiz um comentário e remeti-o como “resposta” a amigos. No segundo caso, expliquei à pessoa (uma professora) que estava reproduzindo o mesmo comentário, conforme segue abaixo.


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Olá, profa.

No mês passado um outro amigo também remeteu, através de uma lista de conversas via e-mail que eu participo, esse “projeto de lei”. Obviamente, se trata de um chiste, que pretende, com ironia, criticar as ações afirmativas vinculadas à promoção da população negra brasileira – mas que também envolve a população indígena, beneficiária nas reservas de vaga, como ocorre no ProUni, entre outros programas federais bastante exitosos.

Na ocasião que recebi o texto, enviei uma “resposta”, que vou colar mais abaixo. É um rápido e informal comentário feito para/entre amigos da supracitada lista, na maioria “leigos” no debate. Está longe de esgotar a questão, mas pode ser uma abertura para uma argumentação mais consistente sobre a procedência ou não do uso de cotas no Brasil.

Agradeço a tua atenção. Tudo de bom e fico à disposição.


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Hehe!!

Como disse o nosso camarada, como uma piada provocativa, fica bem. Mas vai até aí!

De fato, chamar alguém de "alemão porco" é racismo e se deve enquadrar o cara na hora, sem hesitação. Chamar o cara de "negro" como referência de origem étnico-racial (racial só existe em sentido ideológico, não biológico) não é ofensa alguma. Chamar o cara de "negro sujo" já é ofensivo e é passível de enquadrar como racismo ou, no mínimo, injúria. Há um mal entendido geral de que chamar alguém de negro é ofensivo, quando os próprios militantes se intitulam de “movimento negro”. Os equívocos já começam por aí e depois só pioram!!!

No item 03 usa-se a palavra "denegrir", ou seja, “torná-lo negro”, ou seja, rebaixá-lo, ofendê-lo... Sem querer, estão aí palavras que demonstram o nosso racismo institucionalizado, internalizado - como usávamos tranquilamente na infância a palavra "negrisse" para dizer que era algo exagerado e feio...

O racismo contra negros tem uma história longa, triste, cruel e massiva. Negros foram animalizados para justificar a escravização e viveram no Brasil, por quase 400 anos, abaixo do pau e do mais abjeto rebaixamento, além de uma exploração absurda do trabalho e outros sujeições indescritíveis, brutais. O passado não se apaga e, no caso, é uma maldição que ainda não expirou. Basta olhar as os estudos e estatísticas e ver os patamares socioeconômicos onde está a esmagadora maioria da população negra no Brasil – a maior nação negra após a Nigéria. Cito só dois estudiosos ainda referencias no assunto: Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes [foto acima]. Produziram estudos profundos e reflexões que todos deveríamos ter ao menos uma noção – para embasarmos nossas posições com mais dados e menos preconceitos e chavões reacionários.

As pessoas de “origem alemã” – uma designação imprecisa para uma população tão vasta e diversa (e considerando que a Alemanha sequer existia como país até 1870), que emigrou do norte da Europa aqui para a região, forçadas pela miséria crescente e tremendas injustiças sociais lá existentes, e, boa parcela, dentro de programas subsidiados com recursos do governo brasileiro (aliás, gerados pelo trabalho escravo), esses indivíduos e famílias recebiam, em suas primeiras levas aqui para Santa Cruz, em meados do século XIX, cerca de 72 hectares, além de ferramentas, utensílios, provisões de alimentos; aos negros após a abolição, o que lhes foi oferecido depois de gerações e gerações negras trabalhando feito bois de canga ou coisa pior?? Daí os efeitos sociais e culturais perversos, que não desaparecem facilmente. E então são necessárias ações que surtam efeito já, imediatamente; que o neguinho não precise esperar mais 100 anos para, por exemplo, se formar médico, engenheiro, professor universitários; políticas afirmativas como as cotas (alguns chama de “discriminação positiva”) é isso: "burlar" (ou vencer) as consequências funestas do passado de modo mais rápido, sem mais delongas. (Depois de equalizada e construída uma igualdade de fato, extingue-se a ação.)

E não se pense que o pobre branco é igual ao pobre negro; o negro pobre tem um "plus" de adversidade para enfrentar desde o nascimento – justamente o racismo. Para quem duvidar, posso remeter um estudo local, aqui de Santa Cruz do Sul, feito pelo historiador Alan Seitenfus, “Mobilidade social e processo de (re)democratização do Brasil”, traçando comparativos entre a mobilidade socioeconômica de brancos e negros da mesma classe – e aí se verá quanta diferença faz a cor da pele e o cabelo pixaim...

Enfim, não se criou políticas afirmativas, caso das cotas, baseando-se numa vontade de “ser bonzinho com os negros”. No frigir dos ovos, toda a população brasileira se beneficia com a equalização étnico-racial, diminuindo-se disparidades e conflitos advindos dos fossos (fossas?) sociais. Não dá mais para aceitar que, como acontece em quase todas as universidade brasileiras, onde, em seu quadro de professores, um número tão diminuto de docentes seja de pessoas negras, estando longe de refletir o percentual de afrodescendentes existentes em nível local e nacional. Será que isso acontece por “pura” incapacidade, falta de vontade da “negrada”? Eu penso que não. É o racismo agindo pelos seus sutis, mas poderosos filtros.

No Brasil temos um “apartheid” mais eficiente do que o havido na África do Sul e EUA – porque "cordial" e "não dito". E isso não se rompe só com palavreados, grandiloquências ditas do alto de nossa brancura e seus privilégios (naturalizados), de que “TODOS SOMOS IGUAIS”. É preciso considerar os fatos, os números e a história, e agir aqui e agora para diminuir injustiças e sofrimentos.

Abraços!

03/02/2012

Tradicional desde agora


A expressão reputada ao historiador Hobsbaw, “a invenção das tradições” (na verdade, título de uma obra sua em co-autoria), chama atenção pelo seu aparente paradoxo e por sua hodierna procedência quando analisamos vários fenômenos socioculturais (e não só questões ligadas a macropolítica), repercutindo nas identidades de pessoas e comunidades. Alguns desses fenômenos são bem prosaicos. Já mencionei outras vezes, mas volto ao campo da “gastronomia típica” a partir, também, de uma leitura de jornal, no caso, um reportagem no caderno Gastronomia de Zero Hora, edição de 20 de janeiro de 2012.

Com o título “Uma cantina italiana”, trata da “Culinária caseira e biscoitos [que] resgatam [a] gastronomia dos imigrantes italianos” em uma localidade interiorana do município de Severino Almeida, no Rio Grande do Sul. No “farto cardápio da Cantina”, frequentada por muitos turistas, vários com ítalo-descendência, há “outra especialidade típica da região, os biscoitos italianos”.

As guloseimas, que se poderiam acreditar fruto de receitas tradicionalísssimas, próprias da referida comunidade ítalo-brasileira desde tempos quase imemoriais, na verdade são “invenções” bastante recentes. Conforme nos conta a reportagem, “Três meses de pesquisa na Itália” deram subsídios a confeiteira da família proprietária da Cantina criar “uma linha de biscoitos [...] com 10 sabores que remetem a regiões italianas” (do país Itália de hoje, frise-se). A reportagem menciona o sucesso que as iguarias têm obtido, ultrapassando as fronteiras do pequeno burgo gaúcho.

Ou seja, há poucos anos atrás, em uma viagem a Itália, recolheram-se ideias e, de volta ao Brasil, criou-se uma linha de biscoitos que não havia, que nunca foram feitos e degustados nas colônias de ítalo-descendentes ao longo das suas histórias iniciadas no século XIX no Estado (RS). Mas que agora, por meio da experiência no estrangeiro e empenho da confeiteira da Cantina em Severino Almeida, se tornaram “especialidades típicas”... Mas "típicas" não no sentido de “antigas”, e , sim, de característico de um processo de “invenção da tradição”, sendo algo que potencializa as vendas dos confeitos, que se tornam elementos distintivos, portadores de um lustro histórico e identidade étnica valorizada. Poderíamos dizer que é um embuste, mas que funciona...

31/01/2012

Crack? E o álcool??

Segue parte de uma das reportagens da revista Em Discussão! de agosto de 2011, publicação do Senado Federal. Um exemplar chegou em minhas mãos. É um número especial tratando da “dependência química e ameça do Crack”.

Me chamou a atenção para a abordagem bastante corajosa. Primeiro, por dizer que há um alarmismo exagerado sobre o crack; segundo, por levantar o problema de uma droga muito mais capciosa, a começar pelo seu comércio praticamente livre e o estímulo massivo ao consumo: o álcool.

Fiz uns destaques (negrito) no texto. Retirei-o da internet. Dá para acessar na íntegra a revista:

http://www.senado.gov.br/NOTICIAS/JORNAL/EMDISCUSSAO/


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Álcool é uma droga mais problemática que o crack, dizem médicos

Chamados ao Senado para falar sobre problemas com drogas, especialmente o crack, médicos e psiquiatras, além de todos os representantes das comunidades terapêuticas, foram unânimes em alertar que o grande peso para a saúde pública é a dependência de álcool.

“Embora ainda não tenhamos dados confiáveis sobre o crack, o aumento da visibilidade não corresponde à magnitude do problema. Os problemas relacionados ao álcool são, de longe, muito mais significativos. O número de pessoas envolvidas e o custo econômico em relação ao álcool são infinitamente superiores aos do crack”, afirmou o psiquiatra Roberto Kinoshita, coordenador da área de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde.

“Notoriamente, o álcool representa a maior preocupação em relação à drogadição, por uma questão estatística irrefutável”, reforçou o vice-presidente do CFM, Carlos Vital Corrêa Lima.

“Acho que pedagogia é adotar a mesma atitude diante da substância predominante dos adultos [álcool]”, sugere o psiquiatra Carlos Alberto Salgado. Ele considera um paradoxo a sociedade brasileira se indignar tanto com a presença e a disponibilidade brutal do crack e ter uma atitude permissiva com relação ao álcool. Salgado lembra que, além dos danos causados ao organismo, o álcool é responsável por grandes prejuízos à sociedade, como no caso dos milhares de acidentes e vítimas fatais, causados por motoristas bêbados, principalmente nos feriados nas estradas brasileiras.

As afirmações se sustentam em todos os levantamentos realizados, que apontam o álcool como a droga mais consumida. Em 2007, Senad e Unifesp fizeram o 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População, segundo o qual a primeira experiência com álcool ocorre antes dos 14 anos. Cerca de 16% dos adolescentes entrevistados relataram beber pesado, o que aumenta riscos sociais e de saúde.


Alarmismo em relação ao crack só atrapalha, opinam especialistas

Enquanto a percepção do aumento do consumo de crack está estampada na imprensa, médicos que compareceram à subcomissão do Senado ponderaram que o alarmismo diante do crescimento do uso da droga não é necessário. Mais que isso, com base em dados sobre o consumo do crack em outros países, eles sugerem que pode haver estabilização do número de usuários no Brasil.

O psiquiatra Esdras Cabus Moreira citou estudo da Universidade Johns Hopkins (EUA) mostrando que as curvas de uso de crack e cocaína nos Estados Unidos vêm declinando, com tendência a se estabilizar, mesmo sem que se tivesse encontrado uma estratégia eficaz de prevenção ou de tratamento. Sendo assim, não seria preciso um alarmismo brasileiro sobre esse assunto.

Também os médicos Roberto Kinoshita e Carlos Alberto Salgado repetiram à subcomissão que um alarmismo com relação ao crack pode prejudicar a concepção de políticas públicas para combater a droga e, principalmente, tratar a dependência química de uma forma geral.


Medidas adequadas

Como exemplo do mal que o alarmismo pode fazer, Esdras citou a lei aprovada pelo Congresso americano durante a expansão do crack no país. Lá, os parlamentares foram informados que a droga era mais danosa e trazia mais violência e crime que a cocaína e, então, endureceram as leis para punir usuários. A partir daí, se uma pessoa fosse flagrada com 5 g de crack e outra com 500 g de cocaína, as duas, apesar de o princípio ativo ser o mesmo, ficariam sujeitas a sentença semelhante. O alarmismo americano tinha criado um forte desequilíbrio.

“Isso gerou crescimento enorme de pessoas presas no sistema penal americano e gerou disparidade racial grande nas prisões. Pelo alarde da mídia, pensava-se que o crack tinha relação grande com a violência. Mas as estatísticas de crime de violência de crack e cocaína não mostravam diferenças tão grandes que justificassem que o porte de 100 g de cocaína e de 1 g de crack levassem à mesma pena”, analisou Esdras.

Roberto Kinoshita acha que apenas com evidências científicas os agentes públicos terão a firmeza necessária para dimensionar e enfrentar a questão com medidas apropriadas. Para ele, é importante “não minimizar, mas sem alarmismo que possa gerar pânico e medo”.

“Uma sociedade que vive com medo, insegurança, sentimento de impotência, corre risco. Acuada, tende a abdicar de direitos por soluções de força, de menos civilidade. Esse talvez seja o maior risco que esse fenômeno traz”, analisa Kinoshita. [...]


FONTE: http://www.senado.gov.br/NOTICIAS/JORNAL/EMDISCUSSAO/dependencia-quimica/aumento-do-consumo-de-drogas/alcool-e-uma-droga-mais-problematica-que-o-crack-dizem-medicos.aspx

20/01/2012

Apocalypse Now


Bem ao contrário do que dizem os catastrofistas, os apocalípticos, esse pessoal sempre de plantão, apavorado e apavorando outros com alarmes sobre um iminente (agora sim!) “fim do mundo”; dizendo que a humanidade vive um período de violências nunca antes acontecidos, com calamidades, conflitos e mortes absurdamente altos e inigualáveis em toda a história dos seres humanos no planeta; bem ao contrário disso, há muitos indícios de que o que ocorre de fato é o contrário.

Observo que muitos desses “profetas” frequentemente estão de mal com o seu tempo, nostálgicos de uma época de ouro perdida (na sua infância ou num passado recente, às vezes puramente ficcional), e sedentos de um fim para suas angústias e frustrações, desejando, assim, um “choque total”, que “zere” a vida – deles mesmo e de todos os demais (já que, na verdade, “o inferno são os outros”).

Com os meus amigos “adeptos” de “O Fim Está Próximo” costumo contra-argumentar que houve períodos e acontecimentos históricos em que a situação foi muito mais terrível, dramática, “apocalíptica” do que o que assistimos nesses nossos anos de vida, ou seja, as décadas que vão dos anos de 1960 até os primeiros anos da segunda década do século XXI (pela contagem gregoriana, obviamente, e considerando a minha geração). Bastaria imaginar-se em meio aos conflitos vividos por milhões de pessoas nos anos da 2ª Guerra Mundial, por exemplo – campos de concentração, bombas atômicas, ataques de aviões à população civil, fome, desespero, assassinatos em alta escala, crueldades mil.

Mas há quem não se convença e continue aferrado em suas “esperanças” de que “a civilização está nas últimas”.

Pois em entrevista para a revista Veja de 04/01/12, o psicólogo canadense Steven Pinker (foto acima, em uma conferência), pesquisador e professor da prestigiosíssima Universidade de Harvard e autor de vários livros, diz que

“a humanidade passa por seu mais pacífico período histórico”.

Sobre a percepção/sensação de que vivemos, enquanto humanidade contemporânea, em meio a muita conturbação, ele observa que

“A mente humana é vulnerável a enganos e ilusões. Nossas impressões sobre o quão violento e cruel é um determinado episódio devem-se à nossa memória, que sempre é contaminada pelas emoções que sentimos quando presenciamos ou vivenciamos algo.”

Pinker quer evitar conclusões baseadas em “impressionismos”, em opiniões sem fundamento científico, que dão vazão a ideias fantasiosas:

“Com ajuda da alta tecnologia podemos agora não apenas teorizar sobre o grau de barbárie da pré-história, mas estimar com precisão o número altíssimo de pessoas que morriam massacradas por inimigos. Nada autoriza a ideia tão disseminada de que o passado humano foi bucólico, pastoril e pacífico. Há poucos séculos matavam-se pessoas com base em superstições avalizadas pela hierarquia religiosa, a escravidão era oficial e apenas discordar da opinião vigente podia equivaler a uma sentença de morte.”

A consolidação da democracia, do estado de direito, da ciência e do desenvolvimento intelectual – em que pese tantas falhas e desgraças ainda existentes e que tanto nos alarmam – têm diminuído a violência interpessoais e grupais (considerando, proporcionalmente, o tamanho da população humana nas diferentes épocas). Concluir que vivemos “tempos apocalípticos”, onde há um “completo desrespeito na convivência”, pode ser até interessante para tomarmos atitudes que não reforcem isso. Mas objetivamente, considerando um todo e não a nossa própria sensação, afirmar que “é o fim da picada” é alarmismo sem consistência.

Na Wikipedia tem um artigo sobre Pinker, com mais detalhes sobre suas biografia e bibliografia, além de links – até mesmo para a entrevista na Veja:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Steven_Pinker

***Uma citação do autor retirada da entrevista e que achei interessante de um modo bem amplo, além do assunto em questão:

“O cérebro humano evolui de forma a sempre advogar a favor de si próprio. Somos os mais devotos defensores de nós mesmo. A primeira reação ao sermos confrontados com o fato de termos feito algo ruim é tentar nos convencer e aos outros de que aquilo não foi tão grave. A segunda é transferir a responsabilidade”.

Nostalgia - com Bowie e Pat


Venho todos os dias pro trabalho escutando a Atlântida. Não é exatamente uma escolha. O rádio que temos no carro é dos mais vagabundos e está com problemas desde que compramos o carro (o rádio veio de “brinde”). Como sou muito “descansado”, vou deixando assim. E assim escuto vários dias da semana, lá pelas 7 e meia, 8 horas da manhã, o programa apresentado pelo “Mr. Pi”, Porã e Cagê. O Cagê já escutava algumas vezes na Itapema – ele apresenta um programa de rock e blues dos mais interessantes. O Pi também, em algumas madrugadas, com sua fauna de convidados e filosofanças. Esses três radialistas têm história, como vocês sabem. E o som na Atlântida nesse horário matutino acaba por ter uns diferenciais bem marcantes em relação ao restante da grande parte da programação dessa FM da RBS. Tocam Led, Police, AC, Hendrix, Rush, Cure, Caetano, Chico Buarque – em plena manhãzinha. Claro que também toca uns sons do Jota Quest, por exemplo, que não curto e acho uma cópia mal-feita do Coldplay (mas devo alertar que não saco coisa alguma de música; opino baseado no meu [mal] gosto momentâneo ou alguma intuição sonora, digamos assim). Além do popurri de canções, o trio dá um dinamismo ao rádio, e que é a grande diferença do escutar-se uma lista gravada num pendrive, ou seja, ter pessoas ao vivo, interagindo contigo... (O chato é ter que levar junto na programação tanta propaganda-lixo nos “shows do intervalo” – show de horripilação e enfiação de poluição estética e ideológica, com honrosas exceções.)

Tudo isso pra dizer que esses dias eles tocaram um clássico “oitentista” do Bowie e Pat Metheny Group, This Is Not America. Meudeus!! Quanto tempo não escutava aquilo. Totalmente 1985, lembrando muito Bryan Ferry também. E me veio uma avalanche de lembranças. Como esses caras são bons fazendo pop! Bowie e Pat são fundamentais na cultura musical contemporânea – ao menos na minha parca concepção.

A canção fez/faz parte da trilha sonora do filme (que nunca vi e nem sabia coisa alguma dele) A Traição do Falcão (The Falcon and the Snowman, EUA, 1985), estrelado por Sean Penn (novinho!), entre outras pessoas de referências do cinemão americano e mundial. A trilha do filme é do Pat Group e existe um álbum (com o mesmo título do filme - na ilustração da postagem) onde está em destaque o This Is Not...

Segue um endereço do Youtube com a canção em sua versão original, onde vai rolando imagens do filme. Tem outras, até uma ao vivo do Bowie e sua banda (formação mais recente). Mas fico com a da gravação original, por ter todo o climão, as sonoridades dos meados de 1980 - uma época onde eu e meus amigos de então estávamos no auge da juventude, já entrando, devagarinho, no mundo adulto, cheios de hesitações e expectativas...

http://www.youtube.com/watch?v=MJRF8xGzvj4/

22/12/2011

Depois da festa...

Repasso o link (ou um dos links, pois há varios na internet) para um filme publicitário produzido pela TAC, Transport Accident Comission, da Austrália (http://www.tac.vic.gov.au). É muito bem feito e “dando a real” da combinação trágica da ingestão de álcool e outras drogas psicoativas e a direção de automóveis – e motos, caminhões, ônibus, bicicletas, patinetes...


Muita gente sofre. Até inocentes completos morrem ou se traumatizam terrivelmente – física e psicologicamente – por conta da imprudência e falta de ações mais concretas “desincentivando” o consumo de bebidas alcoólicas. Por isso, apoio a criminalização da embriaguez no volante, sem esquecer de investir pesado em campanhas contra o consumo irresponsável (beber e dirigir, por exemplo, e que vá bem além do hipócrita e ineficaz “Se beber não dirija”).

Mas não basta isso, claro. Álcool, a bebida alcoólica de qualquer tipo e teor, é um droga por demais perigosa para se continuar fazendo publicidade aberta e vendendo-se em prateleiras de qualquer supermercado – como se fosse algo como farinha de trigo, suco de laranja, leite, feijão, margarina. Assim, as empresas de bebidas, os comércios que a vendem (postos de gasolina jamais deveriam vender), as pessoas que se pre$tam a fazer propaganda etc. devem ser responsabilizadas pelos efeitos negativos, pessoais e coletivos, diretos e indiretos, derivados do estímulo à bebida.


Aliás, para mim, são vergonhosos casos como do atual técnico da seleção brasileira de futebol (esporte e álcool?) e a musa do pop baiano (diversão e álcool?), atingindo todas as pessoas, inclusive crianças, reforçando associações positivas do consumo da cerveja. Aos dois, o meu desprezo por este desserviço, por essa atitude inconsequente em nome do vil metal. A eles, ofereço o vídeo abaixo como um outro pagamento.

http://www.youtube.com/watch_popup?v=Z2mf8DtWWd8&vq=medium


*Conforme pude entender das informações do site, o TAC é uma organização governamental criada em 1986 no estado de Vitória, Austrália. Seu papel é pagar o tratamento e os benefícios para as pessoas feridas em acidentes de transporte. Ela também está envolvida na promoção da segurança rodoviária e na melhoria do sistema de atendimento a acidentados.


**Filme impactante, mesmo! Emociona e revolta. Meu comentário (acima) veio desse absurdo em se tratar o álcool “festivamente” ou com um problema secundário. Ao mesmo tempo, há uma enorme preocupação, quase paranoica, com o crack – sendo a bebida alcoólica empunhada como se fosse suco de groselha nos desfiles da Oktoberfest em pleno domingo de manhã na rua principal, para o aplauso de milhares de crianças encantadas. Não dá vontade de mandar esses caras a... para bem longe! Não que eu seja moralista em relação ao álcool – acho que é um baita refrigério mental para uso eventual por adultos saudáveis e não propensos à compulsão. Mas se deveria evitar toda a propaganda de bebidas – além da TV, jornais, revistas, pontos de venda (até choperias não deveriam ter alusões ao consumo em suas fachadas) –, também esse tipo de merchandising em desfile de Oktober e em monumentos, caso do Fritz e da Frida no Acesso Grasel (aqui em Santa Cruz), deveria ser abolido. Parece radical, mas querem uma juventude menos drogada? Então vamos cortar na própria carne, rapaz!

Sessão Exclusão


Pessoal,

Estou compartilhando com algumas pessoas o meu questionamento quando a uma postura na divulgação da sessão do Amigos do Cinema que vai ocorrer hoje, 19/12. Recebi o convite e fiquei indignado com o que está dito. No final do texto escreveram assim:

Será uma forma singela [a sessão de cinema em Linha Santa Cruz, com o filme A Ferro e Fogo, a partir da obra homônima de Josué Gimarães, autor que aparece na foto acima] de lembrar a data da chegada das seis primeiras famílias de imigrantes alemães em 19 de dezembro de 1849, provenientes da Silésia e do Reno, na “Alte Pikade” (Picada Velha) como se denominava Linha Santa Cruz na época, iniciando-se assim a sua história e também de Santa Cruz do Sul e região.

Como assim “iniciando-se assim a sua história [dos ‘alemães’ na região] e também de Santa Cruz do Sul e região”??? Ou seja, estão dizendo que os “alemães” começaram TUDO por aqui, até mesmo a história da região? Na minha visão, trata-se da continuidade de uma mentira, de uma manipulação ideológica, uma ignorância sobre a historiografia local e regional – tudo isso misturado.

Não gostei. Até pode ser legal relembrar os antepassados e homenagear seus esforços, mas não precisavam insistir neste conto moral apologético à beira do racismo. Todos os outros grupos e personalidades “não-alemãs” são subalternizados, invisibilizados nessa “nossa história”. Meus vizinhos negros do bairro Linha Santa Cruz, as muitas famílias mestiças, os sem-descendência “germânica”, toda essa gente mais uma vez vai ser “catequisada”; ficarão “sabendo” que são párias e só chegaram depois de toda a maravilha estar pronta pelo esforço dos “donos da história”. Enfim, tudo aquilo que lutamos para relativizar, incluindo o que de fato é: há muito mais diversidade e vários outros grupos étnicos na construção da sociedade santa-cruzense.

Acho que o Amigos do Cinema estão envolvidos num tipo de comemoração que não faz jus a amplitude do cinema e as possibilidades de reflexão e criticidade que muitos filmes podem nos suscitar.

Abaixo, segue o “retorno” que enviei ao pessoal que me enviou o convite, além do texto completo do convite mencionado.

Até mais!

Iuri


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Muito boa iniciativa de fazer a sessão do Amigos do Cinema em Linha Santa Cruz. Bem como relembrar a trajetória dos imigrantes germânicos no RS e em Santa Cruz. Mas tenho que discordar de algumas alusões, em especial o que está dito na frase final do convite, ou seja, que a “chegada” (a palavra deveria ser “introdução”, por trata-se de um projeto de colonização do governo provincial) dos imigrantes “alemães” (em termos de designação, trata-se de uma outra imprecisão) teria iniciado “a sua história [dos imigrantes] e também de Santa Cruz do Sul e região”.

Não vou dizer que é uma inverdade, mas está muito próximo disso. Se não é fruto da ignorância, trata-se de uma manipulação ideológica, que subverte a historiografia e produz uma subalternização e invisibilidade a outros grupos e personalidades “não-alemãs” aqui do município e região. Uma enorme injustiça e violência simbólica contra quem também esteve aqui e desenvolveu Santa Cruz – antes da chegada de qualquer europeu do norte.

Para quem se dispor a estudar a história local para além das rasas narrativas apologéticas germanófilas, algumas à beira do racismo, saberá que a ocupação da região inicia-se com grupos indígenas, destacando-se os antepassados e os atuais kaingangs e guaranis. Especificamente, temos o Faxinal do João Faria, povoado bem anterior a colonização germânica. É ali que surge a cidade de Santa Cruz e onde são recebidos (após desembarcarem em Rio Pardo), os novos assentados europeus, contando, em suas primeiras levas, com subsídios do governo, incluindo cerca de 72 hectares de terra.

João Faria Rosa era um sesmeiro, cujos trabalhadores escravizados, parentela, agregados e famílias avulsas perfaziam o Faxinal. O neto de João Faria recebeu e acantonou no sobrado familiar os primeiros sem-terra germânicos, conforme registra Bittencourt de Menezes na publicação de 1914, “Município de Santa Cruz”. As primeiras vias e loteamentos rurais foram feitos com recursos públicos e realizados por técnicos e capatazes lusos e trabalhadores negros escravizados, entre outros trabalhadores humildes. Holandeses, belgas, russos, austríacos e até cearenses, entre outros grupos – além da miríade de pessoas de regiões que só mais tarde vieram a se tornar o país Alemanha e vizinhanças –, foram assentados ao longo dos anos. Quilombolas e indígenas continuaram existindo, buscando sobreviver a ocupação branca, conforme registro de historiadores como Jorge Cunha.

Por anos estamos lutando para que não se “patrole” e se perverta a historiografia em nome de orgulhos étnicos que, de tão “orgulhosos”, “esquecem” e subestimam todos os outros grupos e pessoas sem determinados sobrenomes e fenótipos. Acho que a associação de moradores, a escola e o Amigos do Cinema prestam um desserviço nesse sentido da integração e comunhão comunitárias, porque estão insistindo em homenagens sem lastro histórico verídico e completo, eivadas de ideologia e sentimentalismo étnico-racial. Há uma vasta e interessantíssima história das comunidade teuto-brasileiras que dá lugar a mixórdias artificiais, como já denunciou Flávio Koth, santa-cruzense professor da UnB, entre outros estudiosos sérios.

É o que eu penso. Abraço do

Iuri.


***Interessante que ninguém do Amigos do Cinema (nem quem me enviou o e-mail) se manifestou. Talvez ignoraram ou ficaram envergonhados... O pior é ignorarem. Acho que alguns simplesmente ignoram, porque têm uma posição sectária sobre o assunto e não admitem questionamentos, porque isso “abala as estruturas” – inclusive de suas personalidades, calcadas numa construção indenitária onde os “meus antepassados são os melhores mais importantes”.

***Muito obrigado pela atenção. Muito bom que houve uma reação ao meu comentário. O pior é o silêncio.

Copiei e "editei" o texto a fim de destacar o ponto onde (perdão) "a maionese desanda", na minha opinião. Não se tratava de nenhuma crítica ao filme em si, adaptação do livro do Josué, que li há anos e gostei muitíssimo - como várias outras "sagas gaúchas", caso de O Tempo e o Vento e, de alguma forma, o Videiras de Cristal, Quem faz Gemer a Terra, A Valsa da Medusa e Pequena História da Amor, os dois últimos escritos por santa-cruzenses, a Valesca de Assis e Wilson Müller , respectivamente, tratando diretamente dos teuto-descendentes aqui de Santa Cruz (fazem isso com enorme sensibilidade e fidedignidade histórica). Critique o Amigos do Cinema pontualmente, por estar "assinando" um convite que me indignou pela perspectiva histórica e social - uma luta que travamos coletivamente a mais de década.

Deixei bem claro que acho bacana e justo que se homenageie os antepassados e, obviamente, os teuto-descendentes aqui em Santa Cruz e região. Absolutamente nada contra o Amigos de Cinema fazer isso. Minha discordância, como disse, é pontual e se refere ao reforço, através de um convite, a um tipo de comemoração baseada em uma perspectiva germanófila, que afirma que os alemães iniciaram a história de Santa Cruz e região.

Quanto a "adjetivação raivosa" (gostei disso!) é completamente espontânea e a uso comumente nesses momento de indignação; tenho dificuldade em tolerar a repetição de uma abordagem germanófila - equivocada e geradora de exclusão. Tento minimante fundamentar isso, fazendo algumas alusões historiográficas e até citando obras e autores. Uma pena que possa soar pedante.

Talvez pudesse ser mais diplomático. E aceito de bom grado a dica e todas as suas ponderações no e-mail. Louvo a existência/persistência do Amigos do Cinema. Mas foi uma pisada na bola feia! Que bacana que houve esse reconhecimento. Agora é tocar para frente!


***Valeu! Como sempre, tuas mensagens são instigantes, inteligentes e humoradas - com aquela ironia temperando o papo.

Acho que a reação minha e de outros valeram para demonstrar que o debate sobre a etnicidade local está vivo e não se vai deixar passar afirmações absurdas todas as vezes. Acho incrível como há gente zelosa de uma descendência basicamente ficcional. Será tudo para se achar especial por conta de uns parentes maltrapilhos chutados por uma suposta pátria hoje tão amada??

***Como disse, uma lástima que meu comentário soe arrogante. Suponho que seja pelo tom professoral, impositivo. Faço citações e cobro conhecimento, embasamento. Talvez tenha que corrigir essa abordagem. Mas não deixo de pensar que, enquanto isso... muitos “ofendidos” não têm prurido algum em reproduzir militantemente uma versão do passado (ia quase dizendo uma farsa) apoiada (mal apoiada) acriticamente numa históra rala e apologética (várias vezes já denunciada), que é a matéria constituinte dos símbolos municipais ufanistas – como o hino local, a bandeira, os monumentos etc. –, e não a partir de dados historiográficos obtidos por pesquisa acadêmica ou ao menos com algum lastro documental consistente. E isso leva à violência simbólica, que poucos parecem se dar conta, tal a naturalização da situação. O fato de uma menina ou menino negros terem de cantar na hora cívica da sua escola um cântico de louvação à “bravura alemã” do “loiro imigrante” (trechos literais da letra do hino municipal germanófilo) não causa nenhum constrangimento àqueles que “cultivam suas raízes” sem considerar todos que viverem e vivem, influenciaram e influenciam concretamente Santa Cruz do Sul. Que tipo de relação se quer forjar com uma pseudohistória e culto cívico municipal com esse teor de exclusivismo étnico-racial?? Que sentimento de pertencimento se quer construir nos “não-alemães”?? Que alemão é esse “loiro imigrante”?? Uma imagem estereotipada e que já é uma aberração diante da miríade de gentes que se assentaram aqui na região a partir de meados do século XIX, vindos de um país que nem existia na época, a Alemanha? Por que se insiste nesse conto de orgulho, de desejo de se engrandecer às custas de uma presunção calcada na adulteração da história local? Quem ganha com isso?? Desculpa dizer, mas quem ganha com isso é a imbecilidade, onde se inclui o racismo. A riqueza da história cotidiana das comunidades de/com teuto-descendentes (que alguns ainda hoje colocam fora da categoria “brasileiros”, justamente porque se têm como “especiais”), com suas culturas multihíbridas já desde a Europa, é terraplenada por uma germanofilia de quinta categoria, que iniciou-se há tempos e teve seus surtos nas intencionalidades políticas de momentos – sejam estrangeiras (o pangermanismo, por ex.) ou locais, para (por ex.) justificar a adoção de candidatos com determinados perfis, rejeitando-se outros. Se alguém quer continuar tolerando isso e tendo cuidados “para não ofender” (mesmo que uma outra ofensa está sempre sendo perpetrada), tudo bem! Da minha parte, não consigo mais ouvir sem ficar indignado – ainda mais quando é proferida e reproduzida por pessoas com excelente acesso a múltiplas informações.