29 de nov de 2013

Ainda sobre escola

Pensando sobre ESCOLA em uma sequencia de comentários em um post de um amigos aqui no Face:

Eu concebo que a escola, muitas vezes, mata a vontade de saber; forçando o “saber”, produz o desgosto. Por sorte, muitos “recuperam” o “paladar” ou são menos afetados pelo ambiente opressivo de certos educandários (isto começa já pela frequência obrigatória, penalizável, a salas insalubres, onde se confina por horas, numa caixa apertada, sob carteiras apertadas, desde cedo da manhã [7h30min], uma gente cheia de vitalidade e hormônios em ebulição). Há alternativas, com ambientes mais abertos (em vários sentidos), como acontece, pelo que pude ver e fui informado, na educação básica da Finlândia ou nas alternativas como a Summerhill School, fugindo do medievalismo – que, de tão caquético, não funciona mais com as gerações contemporâneas (daí a choradeira de muitos catedráticos), mantendo-se somente por inércia institucional, por necessidades do status quo. Não digo isso sozinho, evidentemente. Apoio-me no que pude entender de pensadores ligados à educação, como o próprio Alexander Neill (Summerhill), em Ivan Illich, Paulo Freire, Ruben Alves e – não poderia faltar – Michel Foucault, entre vários outros.

E um já clichê quando pensamos em escolas é a canção (parte II) “Another Brick In The Wall”, lançada em 1979, da banda britânica Pink Floyd, fazendo parte do álbum conhecidíssimo “The Wall”; a composição é do baixista Roger Waters, constando vários elementos autobiográficos. O álbum foi adaptado no filme homônimo, também muito famoso, dirigido por Alan Parker.

Segue a letra e um link para a parte do filme onde a canção é “encenada”. (Lembro-me do impacto deste filme quando, nos anos 80, fui assisti-lo com amigos no Cinema Baltimore, em PoA, em minha época de estudante universitário, com inédita tela maior e som estéreo, aumentando ainda mais o impacto daquele “tijolo no muro”... )

Another Brick In The Wall (part II)

We don't need no education
We don't need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teacher! Leave them kids alone!
All in all, it's just another brick in the wall
All in all, you're just another brick in the wall

http://www.youtube.com/watch?v=xpxd3pZAVHI

Sim, escolas tão opressivas e massificadoras – como as que se retratam canção do Pink Floyd – nem mais se sustentariam. A própria legislação veda/veta (ECA, LDB, a própria Constituição) e as relações de autoridade (alunos x professores, pais x filhos etc.) modificaram-se muito por inúmeras razões. Mas como uma caricatura da situação, acho que serve, refletindo sobre os educandários (o jornalista da Superinteressante, Denis Russo, esses dia, aqui no auditório da Unisc, lembrou o quanto nosso modelo de escola é britânico, fordista).

Sobre a Finlândia, eu mesmo conheci no ano passado o professor Tapio Varis, da Universidade de Tampere, que palestrou e fez visitas em Santa Cruz (e outras universidades comunitárias do RS), abordando o sistema de ensino finlandês; também recentemente, tenho um colega de trabalho que voltou de um intercâmbio na Finlândia.

Pois é. Penso que o modelo escolar força certas metodologias. É muito difícil romper. Daí estudantes, pais, professores e técnicos nos educandário se verem enredados em imposições, “exigências”, cada qual cobrando performances uns do outros. Acho que pensar que “o problema” é “o aluno” é desconsiderar a complexidade da coisa toda e também o tamanho das modificações que precisaríamos fazer nas escolas para fugir da situação que, ao cabo, é alienante, tentando ser o contrário disto (mais ou menos como acontece com aquelas crianças do filme “A fita branca”, onde a rigidez cristã não produz crianças dóceis e sinceras, mas violentas e dissimuladas). De novo, não sou eu, “o iluminado”, “o rebelde” que está dizendo isso. Já citei vários pedagogos e tenho a minha trajetória (mesmo que errática) de professor desde o começo dos anos 90.

Mencionei que a noção de autoridade se alterou bastante. Assim, também, a de “respeito”. Sim, “não é como era antigamente”. Mesmo! Vai se diferindo a cada nova geração. Minha geração tinha um respeito com os professores já muito diferente da geração dos meus pais com os professores deles, e que, por sua vez, era diferente da do tempo da dos pais deles (meus avós) etc. Nem Papa, nem presidente (presidenta!) da república, nem para com a nobreza da Inglaterra têm os britânicos a mesma consideração “de antigamente”! E eu acho que está melhor assim, mais aberto, horizontal, mesmo que seja um tanto desconfortável pelas indefinições e descompassos entre mentalidades (das pessoas) e instituições (a burocracia estabelecida).

Não acho que haja “culpados” na escola. O que me parece haver é uma estrutura reacionária, conservadora – mas que, mesmo resistindo, vai se alterando, “entregando os pontos”.

“Para mim, a escola como meio de educação, era nula"

“Para mim, a escola como meio de educação, era nula. Durante toda a minha vida, fui singularmente incapaz de dominar qualquer língua. Prestava-se uma atenção especial à composição dos versos, o que nunca consegui fazer direito. Eu tinha muitos amigos e juntei uma coleção de versos antigos, os quais, devidamente emendados, às vezes com a ajuda de outros meninos, eu conseguia fazer com que servissem para qualquer assunto.”

Quem fala estas coisas é um dos grandes gênios da civilização, Charles Darwin, em sua autobiografia (Contraponto, 2000). Sobre seu período de bacharelado em Cambridge, sua avaliação também não é positiva: “meu tempo foi completamente desperdiçado, no que diz respeito a estudos acadêmicos, quanto em Edimburgo [estudando medicina] e na escola [na infância].”

Darwin talvez exagere ou faça uma caricatura, mas creio que ele estava querendo ressaltar que o mais importante eram as vivências, a rede de relações e o contato com outros assuntos de interesse particular não previstos e habilidades não valorizadas no currículo daqueles educandários que ele frequentou. “Nenhuma atividade em [meu tempo de] Cambridge foi praticada com tanto interesse ou me deu tanto prazer quanto colecionar besouros”, anotou. Podia parecer um “mero passatempo”, mas foi-lhe fundamental, por sorte não impedido por supostas “coisas mais relevantes”. Percebia o menosprezo: “era considerado por todos os professores e por meu pai um menino nada excepcional, abaixo do padrão intelectual médio”. Recebeu um pito do seu progenitor: “Você só dá importância à caça, aos cães e à captura de ratos, e será uma vergonha para si mesmo e para sua família”.

A grande “escola” de Darwin foram, aos 22 anos, os quase cinco anos no navio Beagle: “Nessa viagem, tive a primeira formação ou educação verdadeira de minha mente.” Sua resolução de trabalhar com afinco no registro do que observava e, por conta própria, estudar os assuntos, lhe fez o naturalista extraordinário, ao ponto de escrever uma das obras mais importante do mundo contemporâneo, “A origem das espécies”, essencial para entender a vida sem apelar a lendas, ao obscurantismo.

5 de nov de 2013

A religião analisada por um zoólogo...


Segue-se uma citação um tanto longa – mas muito instigante (acho eu) – para se pensar a religião por um viés inusitado: um subproduto da estruturação biológica do Homo sapiens, “a única espécie animal de primata bípede do gênero Homo ainda viva”, na definição na Wikipédia.

Para apreciá-la, talvez se necessite “descer do pedestal da criação” e nos ver e post...ar enquanto mais um – embora singular em diversos aspectos – componente do planeta; um dos seus seres vivos, surgido num longuíssimo processo evolutivo, que nos trouxe até os dias de hoje em companhia com quase incontáveis de outras espécies de animais – afora todo o vastíssimo reino vegetal e de outros seres vivos, tais como fungos e bactérias.

Os parágrafos foram retirados do já mencionado livro “O Macaco Nu”, de Desmond Morris (edição da Círculo do Livro – tradução para o português de Hermano Neves, do original “The Naked Ape”, publicado em 1967).

Morris é zoólogo, nascido em 1928 na Inglaterra, com doutorado pela Universidade de Oxford e várias condecorações acadêmicas; autor de muitos livros sobre comportamento animal, onde se inclui, em especial, o ser humano, num escrutínio mais afeito à etologia (comportamento animal) e menos etnológico (culturas humanas). Morris é colocado como uma referência na sociobiologia, campo de estudos que venho desenvolvendo muitas simpatias, embora careça de mais conhecimentos (mal li obras de Edward Wilson, por exemplo).

Uma das coisas mais importante que acredito Morris tenha feito através de seus livros, estudos, documentários, palestras, enfim, sua existência intelectual criativa, foi sempre voltar a nos lembrar que

"Apesar das nossas ideias grandiosas e das nossas sublimes vaidades pessoais, continuamos a ser humildes animais, sujeitos a todas as leis básicas do comportamento animal."

Como está na apresentação da edição de onde retirei as citações,

o humano, como espécie, "não é dono e senhor da natureza, mas simplesmente um dos seus filhos".

"Tendemos a sofrer de uma estranha condescendência (...), convencidos de que somos entes especiais, acima de qualquer regulação biológica. Mas não é assim. Houve muitas espécies formidáveis que se extinguiram no passado, e não somos exceção. (...) temos de nos encarar demorada e friamente como exemplares biológicos e compreender alguma coisa sobre as nossas limitação [enquanto um ramo dos primatas sem cauda, os 'macacos pelados']."

Mas agora, sim, vai a citação sobre a religião. Está lá no capítulo V, “Agressão”, entre as páginas 155 e 159:

(...)

Já que falamos em religião, talvez valha a pena observar mais de perto essa estranha forma de comportamento animal, O assunto não é fácil, mas, como zoólogo, devemos fazer o possível para observar o que se passa na verdade, em vez de nos determos ouvindo o que deveria ter acontecido. Se o fizermos, teremos de forçosamente de concluir que, em sentido comportamental, as atividades religiosas consistem na reunião de grandes grupos de pessoas que executam longas e repetidas exibições de submissão, no intuito de apaziguar o indivíduo dominante. Esse indivíduo dominador assume muitas formas nos diferentes tipos de cultura, mas conserva sempre um fator comum: um poder enorme. Às vezes, assume a forma de um animal de outra espécie, ou uma versão maios ou menos idealizada. Outras vezes, é retratado como um membro sensato e idoso da nossa própria espécie. Pode ainda tomar um caráter mais abstrato e receber o nome de “o Estado”, ou outros equivalentes. As respostas submissas que lhe são oferecidas podem consistir em fechar os olhos, baixar a cabeça, por as mãos em atitude de súplica, ajoelhar, beijar o solo, ou mesmo chegar à prostração extrema, frequentemente acompanhada de vocalizações de lamento ou de cânticos. Se esses atos de submissão são bem sucedidos, o indivíduo dominante acalma-se. Como mantém enormes poderes, as cerimônias de apaziguamento têm de ser praticadas a intervalos regulares e frequentes, para impedir que o dominador volte a sentir-se irado. Em regra, mas nem sempre, o indivíduo dominando é chamada um “deus”.

Como nenhum desses deuses existe de numa forma corpórea, é o caso de se perguntar por que forma inventados. Para encontrar a resposta, temos de regressar às nossas origens ancestrais. Antes de nos termos tornados caçadores cooperantes, devemos ter vivido em grupos sociais semelhantes aos que ainda hoje se veem em outras espécies de macacos e símios. Nos casos típicos, cada grupo é dominado por um só macho. Este é ao mesmo tempo patrão e senhor todo-poderoso e cada membro do grupo tem de apaziguá-lo ou sofrer as consequências. O chefe é também o membro mais ativo na proteção do grupo contra os perigos exteriores e no ajuste de contendas entre os restantes membros. Durante do a vida, cada membro do grupo gira à volta do animal dominante. O seu papel de detentor do poder dá-lhe uma posição semelhante a de um deus. Voltando agora para os nossos antepassados mais próximos, torna-se evidente que, com o desenvolvimento do espírito cooperativo, tão fundamental para a caça em grupo, a aplicação da autoridade do indivíduo dominante teve de ser muito limitada, para conservar a lealdade ativa (e não passiva) dos restantes membros. Era preciso que estes últimos quisessem ajudar o chefe, em vez de se limitarem a teme-lo. Para isso, o chefe tinha de ser cada vez mais como “um dos outros”. O antigo macaco tirano teve de desaparecer, para ser substituído por um chefe macaco pelado, mais tolerante e cooperante. Tratava-se dum passo essencial para a organização de um novo tipo de “entreajuda”, mas criou um problema. O domínio total do membro número 1 do grupo foi substituído por um domínio qualificado, de forma que aquele não podia impor uma lealdade cega. Embora essa mudança tenha sido vital para o nosso sistema social, deixou, no entanto, uma lacuna. Devido aos nossos antecedentes, conservamos a necessidade de uma figura todo-poderosa que mantivesse o grupo sob um certo ‘controle’, e a vaga foi preenchida com a invenção de um deus. Dessa forma, a influência da figura-deus inventada podia funcionar como uma força complementar da influência progressivamente decrescente do chefe do grupo.

À primeira vista, surpreende como a religião tem tido tanto sucesso, mas o seu enorme apenas nos dá apenas a medida da força da nossa tendência biológica fundamental, herdada diretamente dos macacos e símios nossos antepassados, para nos submetermos a um membro do grupo dominador e todo-poderoso. Por esse motivo, a religião tem-se revelado extremamente valiosa como mecanismo de coesão social, e é mesmo possível que a nossa espécie não tivesse progredido tanto sem ela, dado o conjunto especial das circunstâncias que acompanharam a nossa evolução. A religião conduziu a diversos subprodutos bizarros, tal como a crença numa “outra vida”, em que encontraríamos, finalmente, as figuras-deuses. Pelas razões já mencionadas, os deuses eram inevitavelmente impedidos de nos aparecerem na vida atual, mas essa falta podia ser corrigida depois da vida. Para facilitar as coisas, desenvolveram-se as práticas mais estranhas em relação ao destino dos nossos corpos quando morremos. Se vamos finalmente encontrar os nossos senhores dominantes e todo-poderosos, devemos ir bem preparados para o acontecimento, o que justifica todos os requintes das cerimônias fúnebres.

A religião também originou muito sofrimento e miséria desnecessários, sempre que se formalizou exageradamente a sua aplicação e sempre que os “assistentes” profissionais das figuras-deuses não resistiram à tentação de lhes pedir emprestado um bocadinho do poder divino, para usar em proveito próprio. Contudo, apesar de a história da religião ser muito confusa, trata-se de um aspecto da nossa vida social sem o qual não podemos passar. Sempre que se torna inaceitável, é rejeitada, de maneira calma ou violenta, mas surge imediatamente sob nova forma, talvez cuidadosamente mascarada, mas contendo todos os antigos elementos básicos. Muito simplesmente, precisamos “acreditar em alguma coisa”. Só nos mantemos unidos e controlados se temos uma crença comum. Nesse sentido, poderia afirmar-se que qualquer crença serve, desde que seja suficientemente poderosa; mas isso não é exatamente verdadeiro. A crença tem de ser impressionante e tem de ser visivelmente impressionante. A nossa natureza comum exige a execução e a participação em rituais de grupo requintados. Se se eliminam a “pompa e circunstância”, deixa-se uma terrível lacuna cultural e a doutrinação não atingirá o profundo nível emocional que lhe é indispensável. Acontece ainda que certos tipos de crença são mais prejudiciais e estupidificantes do que outros, podendo mesmo desviar uma comunidade para tipos de comportamentos rígidos que impeçam o respectivo desenvolvimento qualitativo. Como espécies, somos um animal predominantemente inteligente e explorador, e todas as crenças baseadas nesse fato são extremamente benéficas. A crença na validade da aquisição de conhecimentos e da compreensão científica [não confundir com verdadeira, única, permanente] do mundo em que vivemos, da criação e apreciação dos fenômenos estéticos em todas as suas formas e do alargamento e aprofundamento do campo das nossas experiências da vida cotidiana vai se tornando rapidamente a “religião” do nosso tempo. A experimentação e a compreensão são as nossas figuras-deuses bastante abstratas, cuja ira será desencadeada pela ignorância e pela estupidez. As nossas escolas e universidades são centros de treino religioso e as nossa bibliotecas, museus, galerias de arte, teatros, salas de concerto e estádios esportivos são locais de culto comum. Em casa praticamos o culto com nossos livros, jornais, revistas, rádios e televisões. De certa maneira, continuamos a acreditar no pós-vida, visto que uma parte da recompensa obtida com nossos trabalhos criadores é exatamente o sentido de que continuaremos, através deles, a “viver” depois de mortos. Como todas as religiões, essa também tem os seus perigos, mas se, como parece, necessitamos de ter uma religião, a nossa parece a mais adequada às qualidades biológicas particulares à nossa espécie. A adoção dessa religião por uma maioria crescente da população do mundo pode ser uma compensadora e tranquilizadora fonte de otimismo que se opõe ao pessimismo expresso anteriormente, a propósito do nosso futuro imediato e da sobrevivência da espécie.

*Sim, muito a ver com Dawkins, que além de darwinista e militante pela análise da religião de forma objetiva e não supervalorativa, tem livros excelentes de divulgação científica. Um cara importante nesse “mundo assombrado pelos demônios”, como diria o saudoso Carl Sagan, com tantas crendices e fórmulas escapistas, acabando por limitar ainda mais a mente humana, supostamente na tentativa de “expandi-la para o além”.

**E num outro comentário que estou lendo, já faz um tempo, coisas do filósofo Daniel Dennett. E está aqui na pilha, entre os primeiros, o seu livro “Quebrando o Encanto – A Religião como Fenômeno Natural”.Conforme diz na resenha, Denett quer "discutir a crença humana nas religiões a partir de uma questão fundamental: por que o homem crê na existência de seres superiores e lhes confere o estatuto de divindade?" E embora ele use conceitos "transbiológicos" como “memes” (Dawkins difundiu a ideia), afirma que "esse comportamento [da crença religiosa] pode ser explicado a partir do processo de evolução e seleção natural". O "quebrar o encanto" tem a ver com algo que pode ser lastimado: a perda do estado de beatitude, de êxtase e confiança que se sente a partir da adesão à fé, e, por outro lado, a “quebra” do domínio que se pode exercer ao oferecer (via igrejas de todos os naipes) tal "droga mental" às pessoas. Enfim, resumindo, não é fácil largar da cachaça! Hehe!!

***As análise de caras como o Dennett valem para todas as “linhas” religiosas. Me considero agnóstico. Mas além do gosto antropológico por todas as manifestações humanas, me inclino, hoje, para o panteísmo eisteneano, a “religiosidade cósmica” que ele falava (e que muitos fazem interpretações completamente descabidas), nada a ver com figurações antropomórficas “tipo Deus” ou deuses ou forças ou espíritos etc. Cada uma na sua, mas sem poupar crítica em nome do respeito a religião, ao “sagrado”; deveria ser objeto de análises como qualquer outro tema: política, cinema, dietética etc.

Conta comigo


Esses dias alguém mencionou saudosamente “um filme da Sessão da Tarde” chamado “Conta Comigo”. Até hoje não o vi (está naquela lista “quero ver”, que só faz crescer), mas li o conto (ou será novela pelo tamanho do texto?) “O Corpo” (“Outono da Inocência”), que está no livro “As Quatro Estações” (cada parte faz referência a uma estação do ano), do Stephen King, servindo de base ao filme. Aliás, são quatro histórias muito boas e muito bem contadas, ao menos na minha avaliação de leitor mediano e promíscuo. Muitos torcem o nariz para King, mas há coisas dele geniais – ou ao menos muito atraentes em termos de literatura de ficção (outro caso de uma “baita” livro dele, mais recente, que li no ano passado, é “Love - A História de Lisey”, além do “O Iluminado”, romance-cult, que também “virou filme-cult”, assim como muitos outros do SK).

De uma resenha do livro, copio o seguinte: “Em Quatro Estações, King, o mestre do terror americano, se distancia do sobrenatural e mergulha no dia-a-dia de personagens comuns, comprovando mais uma vez seu talento como um dos melhores ficcionistas da literatura contemporânea.”

Segue um link para a Editora Objetiva, que publica King no Brasil:

http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=553

Deus & Darwin...


Sim, é exagero – ou “dramatização” – e até uma injustiça dizer que Charles Darwin teria “assassinado Deus” ou coisa que o valha.

Na sua autobiografia, escrita em 1876 (publicada em português pela ed. Contraponto, 2000, com notas do seu próprio filho, Francis Darwin), o naturalista diz (pouco tempo antes de morrer):...

“Considerando a fúria com que tenho sido atacado pelos ortodoxos, parece ridículo que um dia eu tenha pretendido ser pastor. Essa intenção, assim como o desejo de meu pai nunca foram formalmente abandonados. Morreram de morte natural quando, ao sair de Cambrige [a universidade], embarquei no Beagle como naturalista.”

Na contracapa desta autobiografia, destaca-se o seguinte:

“Eu era ortodoxo na época em que estive a bordo do Beagle. Lembro-me de provocar gargalhadas em vários oficiais por citar a Bíblia como uma autoridade incontestável (…). Nesse período, entretanto, percebi pouco a pouco que o Velho Testamento (…) não merecia mais confiança do que livros sagrados dos hindus ou as crenças de qualquer bárbaro. (...) Fui tomado lentamente pela descrença, que acabou sendo completa. A lentidão foi tamanha que não senti nenhuma aflição, e desde então nunca duvidei de que minha conclusão foi correta. Aliás, mal consigo entender como alguém possa desejar que o cristianismo seja verdadeiro.”

Sobre a expressão “Deus”: Também se pode dizer que se trata de uma palavra que usamos para designar aquilo que está afastado da nossa possibilidade cognitiva, de nossa capacidade de compreensão e explicação, derivada da conformação e funcionamento de nosso cérebro, produto evolutivo, assim como são os cérebros de outros primatas e tantos outros animais. Eu prefiro ser mais direto e menos “misterioso”, dando espaço a cultuações mais limitadoras do que simplesmente admitir os nossos limites biológicos, psíquicos, perceptivos. Sempre me pergunto: Para que serve a afirmação de que Deus existe? Muitas vezes, é para nos dar falsas esperanças e, para alguns, dominarem uma massa imbecilizada, carentes de certezas e felicidade de viver. Assim, “Deus” poderia ser chamado também de “Aquilo que Ignoramos” ao invés de um “Ser Supremo”. Quem pode saber o que há na escuridão enorme que nos rodeia há palmos de nossas mentes? Deus pode, mesmo, não passar de mais uma ilusão, ou, como disse Dawkins, um delírio...

Alimentação natural NÃO É a vegetariana


Quem vos fala é um “simpático ao vegetarianismo”, que já adotou por anos diversas linhas, incluindo a macrobiótica e antroposófica. E que não se sente confortável numa churrascaria.

Mas será difícil para alguém sustentar que a alimentação humana natural seja a vegetariana. Somos por definição animais omnívoros. Comemos de tudo. Todas as indicações etológicas, biológicas e, até, etnográficas chegam aí: o Homo sapiens, em sua longuíssima evolução entre os grandes primatas, alimentou-se de carne – em maiores ou menores proporções conforme o acesso, numa impressionante variedade de predados: insetos, répteis, moluscos, peixes, aves, mamíferos de todos os tamanhos, de pequenos roedores, passando por ursos, até mamutes, incluindo nossos “primos” símios e sem esquecer da antropofagia, nada incomum entre vários povos, situações e épocas.

E há os grupos humanos, caso dos esquimós do ártico profundo, que se alimentam praticamente só de carne – entendida aqui como todos os animais existentes em sua área de residência e utilizando todas as partes comestíveis (vísceras e seus conteúdos, sangue, massa encefálica, olhos, testículos etc), além de subprodutos como ovos. Isso acontece desde bebês, e sem cozimento algum, a não ser fermentações. E são povos perfeitamente saudáveis, tidos como “espiritualizados” e dominando tecnologias e habilidades de sobrevivência admiráveis, bastando pensarmos nos iglus, roupas e outras técnicas que permitem sobreviver em temperaturas de 40 graus Celsius abaixo de zero, onde a vegetação é raríssima e a fauna pouco abundante.

Obvio que o deslocamento e expansão dos humanos em diferentes áreas do planeta e o desenvolvimento da agricultura e pecuária fizeram surgir hábitos alimentares diferentes das primevas sociedade caçadoras-coletoras – organização que parece ter forjado a nossa estruturação física e social básicas, conforme apostam sociobiólogos e estudiosos similares, numa contra-corrente ao criacionismo de fundo bíblico e à tábula-rasa aludida pelo psicólogo Steven Pinker.

Por conta dessas considerações, acho interessante olhar com mais atenção e simpatia os adeptos da chamada “dieta palio”, ou paliodieta. Um retorno ao modo de alimentação mais atávica do humano, adotada por centenas ou, até, milhares de milênios – se contarmos nossa evolução no tronco dos primatas. Entretanto, não dá para esquecer, não existe a possibilidade de retrocedermos, já que sairmos à caça de mamutes e ursos polares está fora de questão. Além disso, dietas mais vegetarianas são mais ecologicamente sustentáveis, por implicarem em menos consumo de água, menos devastação florestal (para abertura de pastagens). E em um planeta em crise ambiental, ocupado por 7 bilhões de “consumidores”, isso faz a diferença.

Todavia, por mais admirável, por mais louvável, por mais politicamente correto que a atitude como a vegana possa ser – em termos ambientais e ética com os animais não-humanos –, mesmo assim podemos concluir que se trata de uma postura antinatural, de auto-restrição, de disciplinamento comparável ao voto de castidade, ou seja, coibir impulsos da espécie, negando (ou ao menos sublimando – na forma de um hamburguer com bife de soja, por exemplo) a sua manifestação ou satisfação; o desejo, o apetite é bloqueado ou desviado. O que pode ter consequências nem sempre boas. Um vegano talvez precise, para garantir sua plena saúde, consumir suplementos (vitaminas, proteínas sintéticas). Um celibatário talvez não consiga se furtar a sonhos eróticos e poluções noturnas...

Concebo que o animal humano é integrado indissoluvelmente ao ecossistema e a história natural da Terra, ou seja, somos seres da natureza e nossas saídas desta condição implica em artifícios, caso quando se viaja ao espaço ou ao fundo mar e necessita-se produzir uma atmosfera “portátil” e, quase sempre, precária, temporária, trabalhosa e, sempre, perigosa.

Mas tal desafio aos limites também parece ser um dote e um impulso próprio dos humanos. Temos possibilidade de transcender – até certo ponto, ao menos imposições selvagens”, digamos assim. Talvez a cultura seja um produto dessa capacidade obtida no processo evolutivo peculiar do Homo sapiens. Mas, em qualquer caso, “forçar a barra” dos “imperativos biológicos” não se faz impunemente. Ao abster-se completamente de proteína animal – seja carne ou derivados como leite e ovos e suas estruturas orgânicas – e o abandono de elementos da sociabilidade derivada dos séculos e séculos e séculos de caça e coleta, preparação da comida e sua partilha, ingressamos numa nova experiência e somos cobaias de nós mesmo, donde poderão surgir coisas bacanas, mas, também, “subprodutos” indesejáveis.