29 de nov de 2012

Duas citações



Michel Shermer, em "Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas: Pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos", da JSN Editora, 2011:

MORAL

A moral não existe na natureza e, portanto, não pode ser descoberta. Na natureza existe apenas ações – ações físicas, biológicas, humanas. Os humanos agem no sentido de aumentar sua felicidade, seja lá com definam pessoalmente. As sua ações se tornam morais ou imorais apenas quando outra pessoa as julga como tais.. Assim, a moralidade é a rigor uma criação humana, sujeita a toda sorte de influências culturais  e construções sociais, do mesmo modo que ocorre com outras construções humanas. p.154


CIÊNCIA

O que separa a ciência das demais atividades humanas é o seu compromisso com a natureza experimental de todas as suas conclusões. Não há respostas conclusivas na ciência, apenas graus variáveis de probabilidade. Mesmo os “fatos” científicos são apenas conclusões confirmadas em tal grau que se torna razoável oferecer-lhes uma concordância provisória, mas esse assentimento nunca é definitivo. A ciência não é afirmação de um conjunto de crenças, mas um processo de investigação voltado para a construção de um corpo testável de conhecimentos constantemente aberto a rejeição ou confirmação. Em ciência, o conhecimento é fluido e a certeza, fugaz. Isso está no cerne de suas limitações. E isso constitui também a sua maior força. p.155

Fé demais...


A fé em si não é uma coisa boa. Nem má. A fé, no sentido de crença religiosa, pode levar uma pessoa a ter compaixão, ser solidária e sentir-se bem convivendo colaborativamente na sociedade.

Mas a fé também pode produzir assassinos suicidas, caso dos que jogaram dois aviões nas chamadas Torres Gêmeas nos EUA, só para citar a fé em uma das várias confissões religiosas produtoras de fanatismo, ao ponto de executar e justificar a morte de milhares e até de quem sequer tem alguma religião. Um exemplo extremo, para falar das violências (simbólicas, inclusive) cotidianas de quem tem “fé de mais” (alusão ao título brasileiro do filme “Leap of Faith”, com o comediante Steve Martin - na ilustração acima), caso da imposição de crucifixos, quadros e estátuas de santos e outros objetos de culto católico em lugares públicos do Estado.

Assim, as virtudes da fé são relativas; jamais podem ser absolutizadas – tidas como natural e inequivocamente positivas, sempre a produzir bons frutos. Num mundo, como dissemos, onde matanças são feitas em nome de Deus e profetas, a fé não pode ser vista com tanta e tranquila beatitude...

Li que um padre disse “A fé é tudo e Deus, o máximo”, ou algo parecido. Sim, para quem a tem, a fé pode ser tudo – e nada precisa de embasamento, de comprovação reiterada; Jesus transformou água em vinho e ponto final, foi literal; Deus transformou o bastão de Abraão em uma cobra e, sim, isso aconteceu de fato – não é nenhuma alegoria ou ilusionismo ou história para impressionar... E Deus é o máximo porque não admitimos algo que transcenda o humano conceito “Deus”; é o nome para tudo que não conseguimos explicar.

Deus é algo que está além de nossa capacidade de entendimento e supomos que tal “ser” seja algo muito bom, que nos rege com uma sabedoria sempre boa ao final dos finais – mesmo quando uma criança, se divertindo com os pais no pátio de casa, é atingida por um poste, numa coincidência trágica, dolorosa e revoltante, mas que tenta-se entender como algum desígnio divino, “vontade do Pai” ou carma... Pois a fé também pode consolar em casos do tipo – e isso, para nós, seres frágeis, falíveis, é um alento, um mecanismo de defesa da saúde mental; não raro aceitamos falácias para nos auto-proteger e proteger outros da tremenda dor que a existência pode implicar e seguidamente implica.

Mas, reafirmando, a fé também pode causar sofrimento e limitar a própria vida da pessoa. Em nome da fé posso restringir ou abdicar do exercício da minha sexualidade sem que eu tenha condições psico-biológicas para tal repressão, o que vai me levar a adoentar-me, ou perverter a minha libido de forma perigosa a outros, até mesmo a crianças.

Definitivamente, a fé não é tudo e Deus é o máximo que alguns encontram para designar aquilo que nos foge ao entendimento e aceitação...

"Espírito de Êxtase"



Naquelas zapeadas pela internet, buscando umas informações, cheguei ao site da Rolls-Royce.

Há um video institucional da empresa que achei bacana (abstraindo usos assassinos de alguns dos aparelhos deles), que está na página de abertura. Para quem gosta de tecnologia e indústria - motores e energia, especialmente -, é bem emocionante ver aquela gigantesca estrutura mundial e a fala dos seus colaboradores.

http://www.rolls-royce.com/

Uma curiosidade: "Espírito de Êxtase", como vocês sabem (mas eu não sabia) é o nome da "estatueta" (ilustração acima), marca distintiva dos veículos RR. Foi modelada a partir da amante do editor da revista The Car Illustrated, que pediu que se fizesse um adorno para o carro que estava adquirindo – isso em 1911. "O símbolo representava sua amada sentindo a música e o vento da nova máquina"... O êxtase proporcionado pela potencia, conforto e elegância de um automóvel luxuoso, para poucos.

Na Wikipedia está notado que “Tudo sobre estes carros revela classe. Desde a magnífica mascote ‘Espírito de Êxtase’, ao suntuoso interior estofado. Do silencioso som do motor, ao abafado som emitido ao fechar a porta do carro”. Não é por nada que o nome do primeiro veículo da RR foi Silver Ghost (o Fantasma Prata), por conta do seu impressionante silêncio...

Olhem aqui neste blog a estatueta, a amante e o carrão circulando em Londres, além de alguns outros detalhes:

http://nwsistemas.blogspot.com.br/2011/07/spirit-of-ecstasy-espirito-do-extase.html

12 de nov de 2012

Finados para agnósticos, ateus e crentes

O livro “Religião para ateus” do Alain de Botton me abriu para novas considerações, enquanto me subsidiou para coisas que eu já pensava.

O feriado dos finados. Uma data que, aqui, tem um teor religioso e, mesmo, mórbido – ou ao menos de tristeza opressiva. Além disso, foca-se, para cada um, nas pessoas que conviveram mais diretamente conosco: os nossos parentes mortos, especialmente.

Sei que há lugares onde o que existe é um “Festa dos Mortos”, com quitutes e farto consumo de bebidas e até bailes. Ou seja, paradoxalmente, há um extravasamento da vida, da alegria, da mundanidade em homenagem aos mortos...

Lembro que, quando piá, íamos, pai, mãe, irmão, avó e demais parentela para o cemitério de Ponte Queimada, onde, estava (e está) enterrado o meu avô materno e outros ex-chegados da família da minha mãe. Um caminhão de bebidas ficava estacionado à sombra de grandes plátanos em frente ao muro de pedras do cemitério e, se a minha memória não me prega peças, havia churrasqueiras onde se preparavam carnes para o almoço. Quer dizer, havia um caráter festivo, de diversão (ao menos para as crianças), de encontro comunitário – entre vivos! – naquela visita aos túmulos, quando se aproveitava para lavar, reenfeitar e até fazer reformas das lápides e jazigos – além de orar pelas almas dos falecidos, claro.

Mas o que hoje me parece ficar patente é a contrição um tanto quanto depressiva, além de ser cada vez mais formalidades anuais mais ou menos “obrigatórias”, sem uma adesão coletiva de familiares, “sobrando” para os mais antigos a reverência aos já definitivamente antepassados.

Max Weber tem o conceito de “desencantamento do mundo”, que é, para mim - mesmo não sendo isso que o sociólogo alemão eseteja se referindo diretamente -, a explicação para o afastamento dos cemitérios da gerações como a minha, formadas por uma mentalidade científica já consolidada, desacreditada no sobrenatural em qualquer sentido. Não há magia, não há fadas, duendes, anjos, fatasmas, espíritos, almas que se reencarnam - a não ser como algum tipo de alegoria ou mito explicativo, lenda, supertições tão populares quanto falsas, quando não enganadoras, alienantes, limitantes do potencial humano de compreensão.

Entretanto, não seria bacana reformar isso, pegando carona no que propõe o Botton? (“Santa utopia, meu caro”, já vejo dizendo-me!) O Finados, o Dia dos Mortos poderia ser uma Comemoração aos Antepassados (ou um nome que “pegasse” melhor).

Seria um dia de reverenciar a memória não só de parentes e amigos, que já não têm existência física e que, independente de crença religiosa, continua a existir em nossas memórias. Ou aqueles/as que se notabilizaram e ficaram registrados por feitos – livros, relatos, inventos – essa infinidade de gente que construiu os povos, a humanidade no que ela tem de mais bacana. (Assim é que energúmenos, caso de abomináveis ensandecidos “hitlers”, deixaríamos para uma data de pranto, mesmo!)

Seria uma data de reconhecimento, agradecimento e estímulo a uma “vida significativa”, voltada para as coisas coletivas.

Os egoístas e os maldosos, com certeza, não teriam vez nesta “festa”. Como eu disse, poderia haver uma data para lamentá-los fervorosamente – para que também não esqueçamos que, assim como há pessoas queridíssima, gênios e heróis, há muitos mesquinhos, vilões, violentos torturadores, sanguinários e outras classificações para pequenos e grandes desgraçados da humanidade.