12 de fev de 2010

Geoglifos e o Realismo Fantástico no "Fantástico"...


Sobre a reportagem no programa Fantástico (Rede Globo) de domingo passado, 07/02/2010, vai também meus comentários feitos em outra lista:

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Vou ampliar um pouquinho o mesmo comentário anterior, começando por tentar grafar a palavra “geoglifos” corretamente (escrevi “geóglifos”)...

De fato, muuuuuito interessante! Geoglifos que estavam "escondidos" em meio à mata amazônica brasileira (extremo-oeste, próximo ao Acre) datam de pelo menos o século XIII (e eu desconfio que são bem mais antigos).

“Isso aqui foi gente que fez. É trabalho de engenheiro”, diz o proprietário de terras, o Sr. Jacob Queiroz, do alto dos seus 93 anos.

Mas engenheiros que geraram este conhecimento de que forma? Ou, então, de onde eles vieram? Como detinham essa tecnologia? Onde foram parar?

Questões em aberto...

São valas enormes: retângulos, círculos, octógonos e outras formas muito bem delineadas. E até poucos anos, completamente tapadas pela densa floresta tropical, hoje, infelizmente, rareando em vários pontos.

Ao menos permitiu a visualização dessas misteriosas obras. Dizem que foram feitas num período de seca intensa, quando a vegetação desapareceu... Deve ter durado muito tal seca. Ou o arvoredo foi desbastado pelos “engenheiros”? Ou os “desenhos” foram feitos num período ainda mais longínquo, quando a mata nem estava formada?

Pois é...

Também me chamou a atenção a pressa dos jornalistas em descartar qualquer hipótese que remeta à ufologia – e de uma maneira grosseira, chamando os ufólogos, mesmo de forma indireta, de "delirantes".

O repórter diz o seguinte:

“Também não faltam suposições delirantes. Exemplo: os geoglifos seriam marcas deixadas por extraterrestres. O mesmo já foi dito sobre as linhas de Nazca, no Peru – desenhos gigantescos no deserto, com formas de animais. Pura fantasia.”

Por que “fantasia”, delírio? Há alguma explicação cabal já dada e aceita pela comunidade científica “tradicional”? A própria reportagem menciona que estamos longe de alguma resposta com maior certeza ou consistência.

Tal “prevenção anti-ufológica” imediata me parece tão estúpida quanto o já se sair afirmando que “é sem dúvida coisa de ETs”. Assim, a matéria demonstra e espalha preconceitos em relação aos estudos de ufólogos e ao interesse genuíno de todos os ufologistas.

Claro que há aí uma culpa “nossa”, dos auto-denominados ufólogos, quando dão guarida não a uma ciência aberta, mas a cultos, crendices e coisas assemelhadas...

Para mim, dentro da ufologia, os geoglifos amazônicos são muito mais importantes – do que, por exemplo, crop circles – para lançarmos hipóteses de criações ligadas a outras inteligências, a outras civilizações, quem sabe, até, extraterrestres...

Digo isso um pouco influenciado pelas leituras esparsas dos últimos dias: “O Homem Eterno”, de Louis Pauwels e Jaques Bergier [na fotinho acima] (autores do bem mais famoso “O Despertar dos Mágicos”) e Manuscritos do Mar Morto, de Edmund Wilson (também do bem mais afamado “Rumo a Estação Finlândia”). Duas obras que demonstram grande erudição, passada em linguagem acessível e com ponderações “para além do comum”, mas não-sectária, sem proselitismos ou anunciações proféticas. (Caminhos para desvelamentos, e não mistificações que nos empurram a um atoleiro religioso sem saída.)

***Pauwels e Bergier, de “O Despertar dos Mágicos”, estão arrolados entre os cunhadores (se não são os primevos) da expressão "realismo fantástico". Parece que há uma confusão entre este termo - "realismo fantástico" -, que quer exprimir um maravilhamento com informações que são indicadoras de surpreendentes e empolgantes hipóteses sobre o ser humano, a humanidade e o cosmos, e o termo "realismo mágico", para designar a literatura de caras (geniais também!) como o colombiano Gabriel García Márquez, que produzem contos e romances onde elementos "irreais" entram em histórias verossímeis, caso de "Cem Anos de Solidão".

2 comentários:

Cassionei Petry disse...

Iuri, o realismo fantástico, na literatura, tem a ver com momentos misterosos, fantásticos, mas que parecem comuns, dentro do cotidianos dos personagens. Exemplo, o conto Bestiário, de Cortázar, em que pessoas convivem com um tigre andando pela casa. O realismo mágico é uma leitura política da América Latina. Todo o estranhamento é uma matáfora, principalmente para as ditaduras. Exemplo, Outono do patriarca, do García Marquez, que tu citaste. Abraço.

Iuri J. Azeredo disse...

Valeu, Cassionei! Muito boas estas definições dentro da literatura.

Anotei a observação sobre os “realismos” sem maiores consultas, a partir do que havia na minha própria cachola (que perigo, né?! hehe!!).

Quando falei em “elementos 'irreais'”, estava me lembrando da passagem do Cem Anos de Solidão - do filho meio incestuoso, que nasce com rabo de porco e coisas assim, que dão um tempero surreal aos romances de Márquez.

De qualquer modo, o “realismo fantástico” que mencionei, existe como uma expressão vinculada a esta outra literatura, que tem no O Despertar dos Mágicos a sua grande referência e donde parecem ter derivado inúmeras obras semlhantes. A obra foi publica originalmente em francês (Le Matin des magiciens) em 1960 e funcionou como uma espécie de "Manifesto do Realismo Fantático". Bergier e Pauwels catapultaram suas carreiras como jornalistas, escritores, conferencistas, editores etc. muito por conta desta obra. Ela teve enorme repercussão e até hoje mantém sua atratividade.

Num francês bastante compreensível, é dito o seguinte na Wikipédia: "Ce livre constitue un phénomène sociologique non négligeable puisqu'il a provoqué dans un pays que certains considèrent comme cartésien, la France, une vogue considérable pour l'imaginaire, l'irrationnel et l'étrange."

Do livro, veio também a "le(ge)ndária" revista Planète e suas "crias" pelo mundo, incluindo a brasileira (Planeta).