16 de fev de 2010

Lobisomens e chupa-cabras...

*Não é porque está estreando o filme O Lobisomem, com o ator Benicio Del Toro, que fiz este comentário. (Ou é? Não importa.) Mais porque li a última parte (antes da conclusão) do livro citado abaixo, ou seja, o capítulo VI: "As diabólicas criaturas da noite: vampiros, lobisomens e outros abantesmas". Como já falei, trata-se de um estudo histórico-acadêmico sobre a imaginação geradora de “monstros”, feita pela historiadora, professora da USP, Mary Del Priore. (E olha aí mais uma coincidência: “Del” Toro e “Del” Priory... O filme confirma que o lobisomem, como outras fabulações, permanecem vivas e rendendo histórias há séculos e séculos e séculos...)

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No romance Fogo Morto, considerado a obra-prima do escritor José Lins do Rego, há um personagem, o mestre celeiro José Amaro, que ganha fama de ser lobisomem, porque, foi visto algumas vezes “suspeitamente” vagando nas proximidades de sua casa à noite – quando, na verdade, apenas buscava se refrescar e espairecer após um dia estafante. Mas a fama espalhou-se e o homem – agora tornado lobisomem – começou a por medo até em sua mulher.

A história ficcional de Lins do Rego, mas nutrida das suas vivências infantis e juvenis no nordeste brasileiro, interiores do estado da Paraíba das primeiras décadas do século 20, na zona de engenhos de cana-de-açúcar, com seus cangaceiros e devoções religiosas, registra, entre outros elementos socioculturais, a permanência viva de crendices de origem européias de séculos passados (500 anos, talvez).

Mary Del Priore, no seu já citado “Esquecidos por Deus: Monstros no mundo Europeu e Ibero-Americano”, diz que, no Concílio Ecumênico de 1414, os lobisomens ganharam o reconhecimento oficial até mesmo da Igreja Católica, em mais uma demonstração de que instituições tidas como fidedignas atestam como verdades o que não passa invento de lenda – gênero literário, de transmissão escrita ou oral (seja formal ou informal), que, acho eu, não devem ser desconsiderados em seus potenciais reveladores de conteúdos mais profundos da psique e das sociedades humanas, quando não de verdades por traz de cortinas de fumaça...

O “reconhecimento” de uma organização como a igreja cristã romana fez com que os casos de “licantropia” – transformação de um homem num híbrido com lobo – subissem vertiginosamente. “Entre 1520 e os meados do século XVII verificaram-se 30 mil casos no continente europeu.” [...] Segundo a concepção corrente, os lobisomens, após sua morte, tornavam-se “famintos mortos-vivos a sugar impiedosamente o sangue de suas vítimas”, anota a historiadora Del Priore.

Novamente me remeti aos relatos de contatos “ufológicos”... Não há aí, mais uma vez, paralelos e continuidades entre os lobisomens do século 13 e o do livro Fogo Morto com os relatos “pavorosos” envolvendo chupa-cabras e outros “monstrengos” tidos como “extraterrestres”??? Sangue, aparições noturnas, marcas e... busca frustrada de provas. Mas, mesmo assim, as narrações continuam e se renovam, “enfeitiçando” a nós, sedentos do miraculoso e do terrificante...

Não deve ser a toa que hoje o chupa-cabras coloca-se como mais um personagem do folclore popular brasileiro (e em vários outros países), junto com o curupira, o saci-pererê, a mula-sem-cabeça etc. E, de novo, há aí o “dedo” de muito “ufólogo” a contribuir para a expansão de um “folclorismo ufológico” em lugar do estudo metódico...

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