12 de out de 2009

O Gênesis segundo Robert Crumb


No Segundo Caderno do jornal Zero Hora de 07/100/2009 saiu uma reportagem de Fernando Eichenberg sobre a nova obra do visceral desenhista Robert Crumb. Quero ressaltar e comentar algumas coisas entre várias que achei interessantes.

Trata-se de uma versão em HQ ("quadrinhos" é um termos meio "menosprezativo") feita por um autor referencial no movimento contra-cultural dos anos 1960/70 nos EUA e mundo afora, famoso por suas abordagens debochadas, críticas e também surreais e lissérgicas do "mundo em que vivemos" e da própria contra-cultura.

A surpresa é que Crumb teria feito uma obra que segue ipsis litteris o clássico texto bíblico, o Gênesis - depois de muitas leituras, comparações, enfim, estudos que lhe tomaram um tempo longo, realizado com meticulosidade anormal.

Mas não nos enganemos com algum tipo de conversão do velho safado (está com 66 anos), criador dos antológicos Mr. Natural e Fritz The Cat. O editor francês de Crumb diz que "É um trabalho subversivo porque remete à Bíblia de uma forma nunca feita antes, não religiosa, mas como um texto fundamental, de nossas origens". Está "Repleto de violência, estupros, assassinatos, incestos, traições", observa o repórter. Crumb fala: "Há uma moralidade primitiva [no Gênesis]. E em certas partes não se vê nenhuma moral. As histórias matriarcais no livro são marcantes. Há fortes personagens femininos. Eu fiquei surpreso aos descobrir isso".

Apesar de Crumb considerar a existência de "uma misteriosa força superior, algo maior do que nós", ele está anos-luz de ser um crente. Na verdade, Crumb se "espanta" com pessoas que ainda consideram os textos bíblicos como "'palavra de Deus' e não produto do homem":
"Para mim, não é um texto sagrado, mas um mito com muitas histórias e imagens vigorosas".
Ou seja, uma literatura - mas uma literatura que forja cosmovisões de um modo profundo e se introduz em camadas do nosso ser de um modo seminal (perdão pela alusão quase sexual, mas é isso aí mesmo!).
Me parece que o objetivo de Crumb é dos mais louváveis (Aleluia!): "Minha intenção foi a de iluminar o texto, lhe dar outra dimensão, ilustrando tudo o que está nele, cada pequeno detalhe, para que as pessoas realmente saibam o que contém."

E ele está pronto para reações adversas, bastante previsíveis, tal o fundamentalismo em vigor nas hostes "cristãs" (Jesus, tem piedade!): "Alguns sempre encontrarão algo para se sentir ofendidos. Talvez decidam que eu deva ser morto."
Bah!
Norte-americano, Crumb auto-exilou-se na França, morando em uma cidadezinha com ares medievais, chamada Sauve; leva uma vida pacata, divertindo-se com sua coleção de 5 mil discos raros de 78 rotações, ao lado da mulher e filha.
*Na ilustração, o "velho barbudo" escolhido por Crumb para ilustrar Deus. Ele (Crumb!) teria cogitado em personificar (e antropomorfizar) o "Todo-Poderoso" como uma mulher negra, mas optou pelo tradicional patriarca. Coerente com as histórias bíblicas, Crumb diz ter sonhado com Deus neste "formato" - "Foi um dos sonhos mais forte que já tive", disse o iluminado desenhista. Assim seja!
**Na revista Piauí, que tem publicado quadrinhos de Crumb, sairam dois capítulos do seu Gênesis. Quando der, vou reproduzir aqui partes da introdução escritas pelo desenhista...

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