10 de dez de 2010

Uma casa num dos primeiros lotes da colonização germânica

Estamos morando na Rua Rodolfo Silveira, Bairro Linha Santa Cruz. Ao que tudo indica, exatamente no que foi parcela de um dos primeiros lotes de assentamento da primeira leva de colonos trazidos em 1849 da Silésia e da Prússia para terras governamentais ao norte do Faxinal do João Faria – o povoado que veio a se tornar o núcleo urbano do município de Santa Cruz do Sul.

Chamavam de Picada do Abel – referência ao fazendeiro Abel Corrêa Câmara e ligado a abertura da estrada (e só aí já está uma história cheia de detalhes e implicações), depois Picada Velha e, por último, Linha Santa Cruz, denominação que sobrevive como designação do atual bairro.

A expansão do núcleo urbano absorveu o que era uma comunidade relativamente longe e autônoma da sede da colônia (por sua vez, subordinada a Rio Pardo até 1878). Justamente a autonomia foi decisiva para a transformação da comunidade rural em bairro, com o parcelamento dos então (meados do século XIX) loteamentos agrícolas em loteamentos urbanos, já no estertor do século XX, início do XXI. Estradas em cada vez melhores condições de tráfego, popularização do automóvel, expansão do transporte urbano, telefonia e comércio imobiliário (quase ia dizendo “especulação”...) são também elementos que fizeram da Linha Santa Cruz um bairro, ou seja, uma região citadina.

Mas mantém-se, ainda, uma zona de transição e intersecção urbano-rural. Ruas asfaltadas, centenas de casas, comércios variados etc. convivem com caminhos de carroça e estradas de chão, lavouras de milho, mandioca e potreiros onde pacatos bois e vacas pastam em sua pachorra atávica. A igreja, o salão comunitário, os cemitérios, a velha escola, o sotaque “carregado” e a “típica” desconfiança ao “de fora” também anunciam a manutenção da "germanidade” local – dada por antigos moradores e outros migrantes de outras comunidades interioranas, todos agora se urbanizando necessariamente (fenômeno geral, tal a massividade dos meios de comunicação: a tecnologia e a indústria cultural de mãos dadas).

Sem dúvida, estamos num lugar histórico. Não só para a região, mas para todo o Rio Grande do Sul. É aqui que começa o segundo grande projeto de assentamento estatal, agora a cargo do governo provincial, em 1849, após a consolidação do projeto imperial na Linha Cânhamo, mais tarde município de São Leopoldo.

Os primeiros assentados recebiam cerca de 72 hectares. Possivelmente, no processo de partilha entre filhos e sucessão das heranças (netos, bisnetos, genros, noras etc.), acabamos por morar, após algumas gerações (quatro ou cinco, suponho), no que foi, primeiro, território de circulação e assentamentos nômades de diversos povos indígenas; depois, apossamentos (das terras devolutas) pelos estados – respectivamente – espanhol, português e brasileiro, repassados gratuitamente aos primeiros imigrantes, configurando comunidades agrícolas de colonos (não necessriamente agricultores) da norte da Europa (além de avulsos e pequenos grupos de outras regiões, não esquecendo os pequenos quilombos de fugidos da escravidão da então gigantesca área do município de Rio Pardo, afastando-se cada vez mais para os ermos, na medida que as “linhas” são definidas e ocupadas).

A transformação da Linha Santa Cruz em um bairro de classe média e operária também sinaliza o quanto e como o município de Santa Cruz desenvolveu-se, tornando-se cada vez mais diversificado populacionalmente. Aqui estão famílias com várias referências culturais, sociais e geográficas, miscigenadas em amplo sentido – embora negros e negras ainda continuem uma raridade, ou seja, o “apartheid” ainda está por ser superado e afro-descendentes estão fixados em zonas social e economicamente “desvalorizadas”.

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