29 de jan de 2010

Sim, brinco é coisa de gaúcho!


Acho que há um certo ridículo nas posições francamente preconceituosas dos autodenominados tradicionalistas, que se pretendem guardiões da “autêntica identidade gaúcha”.

Ou desconhecedores, ou leitores limitados a manuais de CTGs, reproduzem idéias que nada tem a ver com “usos e costumes” tradicionais. Têm a ver com uma normativa conservadora, arbitrária e datada, estabelecida por um grupo com padrões moralistas e estéticos desligados de "real passado", ou seja, do que se tem de documentação fidedigna da formação da população pampiana – do sul do Brasil, e regiões platinas do Uruguai e Argentina – alcunhada de gaúcha.

Só um exemplo: o uso de brincos por homens. Sem conseguir disfarçar a homofobia latente – às vezes, parece, tentando exorcizar fantasmas de sua própria orientação sexual, que não consegue seguir convenções sociais –, proíbe-se o uso deste tão antigo adereço corporal, que, pela ignorância e preconceito mencionados acima, associa-se unilateralmente como algo "de mulher" ou "de maricas".

Pois vejamos a ilustração (de Raimond Quinsac Monvoisin, pintor francês, retirada do livro de Véra Stedile Zattera, Cone Sul – Adereços Indígenas e Vestuário Tradicional,1999) que acompanha este texto. Um garboso “Estanciero” do “Rio de La Plata”, com indumentárias tipicamente gauchas – chiripá, esporas, laço, lenço etc. –, apresenta em sua orelha uma argola metálica, de provável uso habitual e elemento que reforçava a masculinidade do portador - bem ao contrário do que julgam certos senhores macanudos, que se escandalizam, porque presos em seu parco conhecimento histórico e abertura às mudanças culturais inerentes à dinâmica social.

(Lembremos também dos mais que machescos piratas, retratados com suas argolas nas orelhas e faca entre os dentes, em cruentas lutas para espoliar embarcações em alto mar.)

Então, não seria ao menos prudente, para não se sair a dizer mentiras e evitar “cagar lei”, proibindo estupidamente isso ou aquilo em nome de asnices? Paremos e busquemos sempre saber mais, refletir, informar-se – e não nos guiarmos por concepções e emocionalismos cujo fundo é tão frágil, tão débil, que só se sustenta numa infeliz indigência intelectual.

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