1 de mar de 2011

Alemanha faminta


Há uma novela do Stephen King publicado no seu livro Quatro Estações onde um menino prototípico norte-americano, loiro, saudável, inteligente, ativo, curioso, classe média envolve-se com um ex-comandante nazista que está tentando passar despercebido, vivendo pacatamente numa cidade também tipicamente americana. A relação vai deteriorando a vida do jovem; na medida em que ele vai crescendo, seus piores impulsos vão lhe sugando inclusive a sanidade mental, acabando tudo numa grande tragédia. Mas o que interessa no momento é que na história de King, o personagem nazi, já um velho senhor naquela altura (anos de 1970), usava nos campos de concentração (e extermínio) técnicas para “persuasão” de judeus, jogando com a fome imensa que debilitava, deprimia e punha os presos num permanente estado de desespero por comida; a promessa de uma refeição levava as pessoas a se submeterem de uma maneira aviltante, delatando companheiros de primeira hora; uma canalhice de primeira grandeza, nojenta.


Já para o término da Segunda Guerra, a população alemã – entre outros países envolvidos direta ou indiretamente na guerra (foi o caso da Índia) – estava a passar fome pelo desabastecimento, provocado pelos óbvios estragos na produção, beneficiamento e distribuição agrícolas, entre outras carência que atingiram milhões de pessoas como sub-produtos violentos de uma guerra já por demais violenta.

Mesmo com toda a ojeriza à nação alemã, associada – mais uma vez – a arrogância e barbarismos cometidos em nome de seu “direito” de dominar a humanidade por sua auto-suposta superioridade moral e racial, mobilizações pelo mundo todo foram feitas para salvar a Alemanha de uma desgraça ainda maior. No Rio Grande do Sul, nasceu uma organização, o Comitê de Socorro à Europa Faminta (SEF), que, apesar do termo mais geral, estava concentrada em alcançar alimentos e outros subsídios de sobrevivência à Alemanha exclusivamente. A iniciativa e liderança partiu de notórios germanófilos/germanistas, caso do gaúcho Pe. Balduíno Rambo, jesuíta, professor e pesquisador de geografia e botânica, além de liderança comunitária, escritor, enfim, um educador, cientista e intelectual engajado na sociedade gaúcha dos anos de 1930 até sua morte em 1961.

É interessante notar-se que a derrocada do governo alemão, capitaneado por Hitler, após tantas afrontas e sandices, acaba por receber a solidariedade – mesmo que pelo empenho de teuto-descendentes – de um país de mestiços e negros, antes colocados como degenerados, sub-humanos, passíveis de banimento.

Ao mesmo tempo, parece que não ocorreu a SEF socorrer populações não-alemãs atingidas igualmente de maneira terrível. Em meio a celeumas internas entre católicos e protestantes, a massa de judeus famintos emigrados, mesmo que alemães de nascimentos, parece que não foram considerados. Assim é que, num esforço “solidário” pós-guerra, o antissemitismo e outros preconceitos continuaram vigorando, demonstrando que o Ovo da Serpente continuava em seu ninho...


SURDINA

Toda a mobilização da SEF era feita à surdina. Sabiam que estavam lidando com rejeições. Rejeição a ajuda à população de um país por hora detestado, culpabilizado por uma guerra horrível e ainda perdedores humilhados do conflito. Rejeição, sobretudo, porque o Brasil, o Rio Grande do Sul vivia uma crise de carestia e desabastecimento de alimentos, levando a revoltas, incluindo Novo Hamburgo, “terra de alemão”, onde o tumulto popular envolvia a falta de farinha de trigo, implicando a demissão de autoridades municipais. Como se poderia ajudar os famintos da Alemanha quando, além de tudo, aqui mesmo na pátria brasileira tudo estava um caos – por conta, também, da guerra recém finda, onde milhares de brasileiros foram mortos pela forças armadas alemãs!

Padres, pastores e outras personalidades germanistas se empenhavam em minorar sofrimentos no além-mar, esforçando-se para reerguer um país há pouco inimigo e ameaçador a soberania de outras nações e francamente hostis a etnias “não-arianas” (além de buscar facilitar a deportação de cidadãos brasileiros retidos na Alemanha – possivelmente, entre eles, colaboracionistas ao regime nazista). Não era uma tarefa fácil, tranquila. E esses homens sabiam disso e tiveram perspicácia suficientes para agir com descrição e “jogo de cintura” (católicos e luteranos juntos, presença de lideranças luso-brasileiras, politicagens etc.), começando com a própria denominação apelativa e se referindo a toda a Europa, de Portugal a Áustria, mas, na prática e intencionalmente, dedicada exclusivamente à população alemã, como informa o artigo. Até o final dos anos 1940, conseguiram embarcar muita coisa, milhares de toneladas em alimentos e outros artigos como roupas e calçados, o que demonstra que obtiveram sucesso.

Hoje temos gente “bem posicionada” criticando o governo brasileiro por ajuda e perdão de dívidas a países subdesenvolvidos na África. Sem considerar a solidariedade entre povos (uma recíproca), ligações históricas com o continente africano (quase 400 anos de uso do trabalho escravo) e outros tipos de retornos ao Brasil, com o fortalecimento de vínculos políticos e econômicos com as nações “auxiliadas”; sem considerar tudo isso, tenho certeza que a mesma gente que faz tal crítica ao “paternalismo” e “incoerência” brasileira (quando temos tantos problemas sociais por aqui) apoiariam com entusiasmo a iniciativa de ajuda aos alemães em petição de miséria no pós-guerra – e assim o Brasil mais uma vez se tornando a tábua de salvação de milhares de famílias germânicas, como aconteceu com as assentadas em projetos de colonização estatais e particulares, como houve as centenas aqui no Vale do Rio Pardo. Óbvio que isso teve “retorno” ao Brasil também. Assim como há direta e indiretamente com o ajuda externa a países hoje em grandes dificuldades – mesmo que o Brasil tenha problemas, como outrora tinha e mesmo assim, mostrou-se solidário.


GRATIDÃO...

Pe. Rambo e os intelectuais orgânicos da germanidade e outros difusores desta ideologia argumentavam que – ainda mais numa situação de penúria da Alemanha pós-guerra (1945) – havia uma “dívida de gratidão” dos teuto-descendentes no Brasil a ser resgatada. Forçava um elo com a designada “pátria-mãe”. Mas quando refletimos que, na realidade, a esmagadora maioria dos imigrantes foi praticamente defenestrada, expurgada, expulsa economicamente de suas regiões por conta da concentração de renda, de terras, de bens de produção na mão de nobres e grandes proprietários rurais e burgueses, seria mais adequado se dizer que a Alemanha agia não como uma boa mãe, e sim como um padastro violento, egoísta, que não considerava autênticos filhos aqueles pobres coitados; para a sua segurança, era melhor vê-los pelas costas, pois nada mais detestável que reclamações, revoltas e outras ameaças as suas benesses de patrão... Passados anos, depois dos dialetos e hábitos profundamente transformados pelo convívio em outra nação, com outros povos locais e estrangeiros (outros imigrantes), então vem germanófilos, quase sempre privilegiados economicamente (e até viajados para a Alemanha) pedir reverência ao padastro! Por favor...

Em nome de uma germanidade postiça, patrocinada por ideólogos vivendo longe do cotidiano do trabalhador urbano ou rural teuto-descendente remediado ou empobrecido (veja-se o número de pessoas com sobrenomes tipicamente germânicos entre os sem-terras e assentados da reforma agrária, por exemplo), se busca produzir uma identidade ligada com uma Alemanha de hoje ou de um passado utópico de onde teriam partido os “intrépidos”. Enquanto isso, a riqueza etno-cultural da teuto-brasilidade perverte-se em oktoberfestes e aprendizado do alemão padrão – jamais falado por antepassados do século XIX (se fosse um estudo dos dialetos, sua evolução na interação com outros dialetos germânicos e o Português, seria excelente, mas aprender o alemão contemporâneo, qual é o objetivo? Rememorar e homenagear quem jamais falou tal língua?). Por favor...


SIMPATIAS

Pe. Rambo parece que além de um erudito, pesquisidor de botânica e fisionomia geográfica do Rio Grande do Sul, foi um infatigável germanófilo e germanista, crente na superioridade dos povos germânicos e numa espécie de missão divina a ser desempenhada pela Alemanha no mundo e que ele acreditava presenciar antes do final da sua vida. Rambo, se não aderiu diretamente ao nazismo, parece ter nutrido uma simpatia ao regime de Hitler; tinha uma expectativa positiva pelo regime liderado por Hitler e manifestou um pesar pela derrocada do nazismo, mas anunciando uma esperança profética de, no futuro, a Alemanha mostrar à humanidade a que veio...


FLORESTA

Ao mesmo tempo, Rambo amava as florestas. Visitou parques nos EUA e foi por sua iniciativa que o Aparados da Cerra se tornou uma realidade no RS. Em seu romantismo, olhava as árvores como seres sagrados, presentes na história do mundo, merecendo reverência. A atmosfera em meio às matas formava um templo propício a se sentir a "presença de Deus".

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