26 de out de 2008

Afundaram 35 navios brasileiros, matando mais de 1400 pessoas


O livro Corações sujos, do jornalista Fernando Morais – uma extensa reportagem escrita com especial maestria – fala sobre os imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Entre a imensa colônia nipônica concentrada principalmente em São Paulo, fundou-se a Shindo Renmei, organização terrorista que assassinou várias pessoas atuantes nas comunidades nipo-brasileiras que “desonravam o Japão”, “espalhando boatos” de que o país do “Divino Imperador Hiroíto” havia perdido a guerra, seguindo a capitulação da Itália e Alemanha. Um fanatismo quase inacreditável.

A obra de Morais é excelente, entre outras razões, porque vem muito bem contextualizada. Seria impossível, aliás, compreender a ação da Shindo Renmei sem se referir ao que estava acontecendo no mundo. Assim, “de lambuja”, o leitor recebe alguns dados muito interessantes sobre este terrível conflito com desdobramentos planetários. Pela lista de entrevistados, arquivos consultados, bibliografia, créditos das ilustrações, entre outros elementos, se vê que é um trabalho exaustivo e que implicou muita gente. Ele agradece especialmente a historiadora Ângela da Costa e Antonio Ribeiro, dizendo que os mesmo já haviam colaborado nas pesquisas para outros dois “clássicos” deste consagrado escritor: os best-sellers Olga e Chatô.

Algo que me chamou a atenção foi o número das embarcações brasileiras afundados pelos alemães [na reprodução acima, capa do jornal O Globo]. Morais informa: “Ao todo, entre novembro de 1939 e julho de 1945, eles [os alemães] afundariam 32 navios mercantes e três vasos de guerra brasileiros, sacrificando um total de 1439 vidas, entre tripulantes, passageiros e militares – três vezes mais baixas que as sofridas pela Força Expedicionária Brasileira (FAB) na Itália.”

Os afundamentos, destruições, ferimentos e mortes iam sendo noticiados nos jornais e rádios do Brasil à época. À medida que a população recebia as informações, juntadas com as internacionais, formava-se um crescente clima de hostilidade em relação aos que se identificavam ou eram identificados como “alemães”, ou seja, os “inimigos cruéis”! Mesmo quem se sentia brasileiro, para além da teuto-descendência e longe de qualquer soberba arianista, não devia escapar ao escárnio, antipatia e, até, raiva dos que se consideravam os legítimos patriotas do Brasil – ainda mais quando “a coisa” começou a degringolar para o lado das forças militares pró-Hitler.

Somando-se a “agressão à nação brasileira” através das embarcações postas a pique, confirmava-se que havia, sim, os famigerados “quinta colunas”. A espionagem nazi no Brasil era real. Morais, discorrendo sobre as desconfianças da polícia brasileira sobre a existência de arapongas japoneses, assevera: “Como a história se encarregaria de confirmar [...], a única colônia de ‘súditos do Eixo’ que de fato justificava vigilância rigorosa da polícia era a alemã. Ao contrário do que desconfiavam as autoridades paulistas, as informações sobre posições de navios brasileiros não eram transmitidas aos submarinos alemães pelos imigrantes japoneses, mas por uma monumental rede de espionagens montada pelo Reich alemão no Brasil. Apesar da má vontade de Filinto Müller [chefe de polícia do Distrito Federal, ‘germanófilo’, conforme as palavras de Moraes, cargo de confiança de Vargas e notório simpático às idéias hitleristas] com as investigações, um delegado do DOPS paulista, Elpídio Reali, acabaria contando com o apoio de Oswaldo Aranha [da ‘ala pró-Aliados’ dentro do governo Getúlio] para desbaratar o maior complexo de espionagem nazista no hemisfério sul. Poderosas estações de rádio instaladas pela Alemanha no Rio e em São Paulo, com decidido apoio de empresários alemães residente no Brasil, eram responsáveis pelas mensagens enviadas aos submarinos alemães”.

Ou seja, não dá para negar que havia concretíssimas razões para a formação de um “clima anti-germânico”. Em Santa Cruz do Sul não haveria de ser diferente a vários outros lugares de todo o Brasil, onde as mobilizações partiram da indignação e iniciativa de organizações populares, forçando a declaração de guerra aos países do Eixo por parte do titubeante governo brasileiro da época. Considerando que em meio à comunidade santa-cruzense havia até célula do Partido Nazista (a partir de 1933), entre outras manifestações explícitas de adesão à ideologia nazi-fascista, indisposições e retalhamentos – embora, muitas e muitas vezes, movidas por lamentáveis equívocos, emotividades e mesquinharias – não podem ser consideradas atitudes incompreensíveis e injustificadas dentro desse contexto de agudas oposições, onde elementos como origem nacional e etnia, enfim, xenofobia e racismo opuseram seres humanos de forma radical. A matança planejada de pessoas judias (crianças, idosos, mulheres grávidas, não importava), por exemplo, demonstra o tamanho da demência.

Incrivelmente, há quem persista chocando o “ovo da serpente”, pensando tratar-se de saudável “cultivo das raízes” e outras identificações que não conseguem esconder uma auto-atribuição de superioridade racial.

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