17 de out de 2008

A história comprova: o Inter é mais povão (Hehe!!)





Além de obras perturabadoras de Camille Paglia, voz dissonante do (pós)feminismo, andei pegando esses dias uns livrinhos “menos intelectuais” para me divertir: falam da história do Esporte Clube Internacional, o “Co-co-cororado!”, como dizia o negro apelidado Charuto, torcedor fanático, que, curiosamente, “assistia” aos jogos do seu “Cororado” de costas para o campo, andando para um lado e outro, proferindo uma espécie de exortação ininteligível (a não ser a expressão de júbilo “Co-co-cororado!”) ao pessoal da arquibancada – no tempo do Eucaliptos. (A expressão “Cororado” é obviamente uma variante de “Colorado”. A “troca” do “lo” por “ro” advém de um sotaque derivado de línguas ou dialetos da África, cuja reminiscências-resquícios mantinha-se na “colônia africana” de Porto Alegre dos anos 1930 e 40, situada em partes do Bom Fim e Cidade Baixa.)

Pois achei nessas obras apologéticas e nostálgicas elementos para “referendarem” o meu vínculo com o Internacional. O inegável Campeão Mundial foi fundado por iniciativa de três irmãos, os gajos Henrique, José e Luís Poppe Leão, vindos de São Paulo. Ao contrário de outros clubes portoalegrenses, eles queriam criar uma agremiação que fosse aberta a brasileiros de várias origens e estrangeiros. “Uma clara alusão à política de discriminação dos outros clubes de futebol de Porto Alegre”, diz Rui Carlos Ostermann, em Meu Coração é Vermelho, da editora Mercado Aberto, publicado em 1999. O comentarista esportivo e filósofo complementa: “Não será outra razão que o Internacional [alusão a esta integração de nacionalidades], a partir da década de 20, abrirá a sua sede e dará lugar no seu time aos jogadores que pertenciam às muitas ligas que organizavam competições entre clubes representativos de negros (a famosa Liga da Canela Preta, por exemplo [jocosa alusão racista, demonstrado que o apartheid à brasileira vigorou – e vigora ainda em certa medida – na capital do Estado e aqui na região também, como se vê nos clubes sociais “diferenciados”]), de funcionários públicos, de empregados do comércio e de estivadores.Ou seja, gente bem mais “povão” do que, por exemplo, o Grêmio Futebol Portoalegrense, “assim dito um clube de alemães, o que se evidenciava de fato nas escalações dos times desse início de século [XX]”, atesta o professor Ruy.

Luis Fernando Veríssimo, no livro Internacional: Colorado ou Autobiografia de uma Paixão – de 2004, coleção Camisa 13, da Ediouro –, fala assim, racionalizando a sua escolha colorada, já que seu pai, Erico “O Tempo e o Vento” Veríssimo, não se ligava em futebol e não induziu (eufemismo para “obrigou” ou “impôs”) a identificação clubística lá nos meados de 1940: “O Grêmio era o clube dos grã-finos, não aceitava jogadores negros. O Inter era o ‘Clube do Povo’, a maioria dos seus jogadores era de negros. Não que, aos dez anos, eu me preocupasse muito, a ponto de me revoltar. Com divisão de classe e racismo. Só achava mais simpático aquele time dos pobres que regularmente batia o time dos ricos.”

O cronista multitalentoso Veríssimo, conta como – vivendo à época na Califórnia (onde o seu pai lecionava Literatura Brasileira) – era afetado pela “mobilização guerreira” dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, sintetiza assim sua simpatia transladada para as disputas interclubes no Rio Grande do Sul: Era “O negrinho contra o alemão. Talvez eu continuasse mobilizado para a guerra.”

Mas não chega a cair em muita parcialidade. O cara que aprendeu a gostar de jazz – e depois tocar sax –, freqüentando bares vinculados à comunidade negra americana (demonstrando que lá continuavam as divisões racistas), pondera que “Na verdade, o preconceito com o preconceito do Grêmio era injusto.” O Colorado também mantinha uma política anti-negros (embora aberta a outros grupos étnicos), segurando ainda a idéia de que futebol era coisa para moços “de boa família”, ressaltando, assim, ainda mais o pensamento tremendamente degradante, de que jamais alguém de pele escura poderia ser de “família de bem”.

A partir dos anos de 1920, o Inter começa a buscar jogadores na tal Liga da Canela Preta, atraindo, também, cada vez mais a população negra pra sua torcida. O Grêmio manteve a segregação até 1952 (ou seja, 30 anos de racismo a mais do que o Colorado, “título” nada glorioso...), quando contratou Tesourinha, vindo do Vasco – antes consolidado como craque “cororado”, legendário jogador, que recebia um litro de leite por dia, a modo de pagamento no início da sua carreira...

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*A expressão “Cororado” é uma variante de “Colorado”, obviamente. A “troca” do “lo” por “ro” é um sotaque que deriva-se de línguas africanas, cuja reminiscência/resquícios mantinha-se na “colônia africana” de Porto Alegre dos anos 1930 e 40, situada em partes do Bom Fim e Cidade Baixa.

**Erico, Luis Fernando e Eduardo Peninha trabalharam como tradutores, jornalistas e um monte de outras funções ligadas à cultura, história e artes. Todos eles “não tinham faculdade”. Veríssimo, abertamente, depois de fazer o high school, já de volta ao Brasil, diz que não lhe interessava fazer faculdade; foi trabalhar – no Rio de Janeiro (onde se casou e já teve a primeira filha), na Livraria Globo, no então minúsculo jornal Zero Hora (mas o “grosso” vinha mesmo é de seu emprego em agência de publicidade).

***Não sabia que coréia – o lugar no estádio onde fica a torcida em pé – se refere à guerra da Coréia com os EUA, no final dos anos 40. O nome “aludia” à desgraceira que era o espaço, sempre em conflagração, à semelhança do “cenário bélico” onde se engalfinhavam coreanos, americanos e chineses. Se fosse no tempo do Vietnã, a coréia se chamaria provavelmente vietnã...

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