15 de out de 2008

Impressões de viagem: excursões pelo Uruguai

MONTEVIDÉU, maio de 2008

Olá, Rafael e Rita!

Enfim, escrevo para agradecermos (eu e a Nenê) a gentileza de vocês. Muito obrigado!

A viagem para o Uruguai, no feriadão de Corpus Christi, foi muito boa e só não foi melhor porque o tempo é curto para ver e conviver com tantas coisas que estão pelo caminho. Mas foi uma amostra boa o suficiente para reforçar o quanto é bacana conhecer (ou “re”conhecer) lugares. E, no caso, localidades e cidades de um outro país – mesmo que aqui perto e com muitas ligações históricas e sociais com o Brasil. Muita beleza e “fausto” em Punta del Leste. Piriápolis também é linda e comemos o melhor chivitos da “tour” junto a um simpático restaurante na avenida que beira o sempre impressionante Rio da Prata. Colônia do Sacramento é uma “aula ao vivo” de história e política internacional em torno do século XVIII, e uma amostra de como o turismo pode impulsionar o desenvolvimento de uma comunidade, desde que se preserve e qualifique o acesso a referências do passado. Mas o mais encantador, para mim, foi mesmo Montevidéu. Achei um charme a “cidade velha” e os bairros da adjacência. Os guias foram muito importantes para entendermos melhor essa importante capital sul-americana, que ainda mantém um ar europeu e é tão ligada ao rio e seu porto movimentadíssimo – e onde não se escapa de ver contradições, como a pobreza nas “favelas” daquela zona. Muitos recantos, museus, cafeterias, restaurantes, livrarias, praças, monumentos, prédios e ruas, suas casas, os plátanos outonais, parques...

Além das “visitas de praxe” (o museu e Estádio Nacional, da primeira Copa do Mundo, as praias, o mercado, o show no Milongón, o shopping “ex-presídio” Punta Carretas, etc.), fizemos questão de passar em vários cafés, comermos o pancho no trailer e o sorvete na sorveteria da esquina, experimentar a cerveja, o “refresco” de pomelo, provas do “medio y medio”, vinhos, chocolates e outras coisas saborosas que não necessariamente constam do “roteiro oficial” (galerias, lojas, exposições, igrejas – tudo feito com rapidez, porque o tempo é escasso). Não dá para esquecer das pessoas, nem mesmo dos mendigos – que, como boa parte dos uruguaios, não largam de suas pequenas garrafas térmicas (levada em baixo do braço) e cuias de mate. “Chicas” lindíssimas e “hombres”, conforme minha esposa considerou, igualmente galantes.

Nos sentimos muito bem. Hotel muito bom. Tivemos a sorte de pegarmos uma “habitacion” com janela direto para a Av. 18 de Julho. Relax na banheira e mais um pouco de Uruguai por seus canais de televisão – além dos jornais que comprei, como o excelente El Pais.

No caminho de ida e volta, vimos povoados e pequenas cidades. Até tropeiros de gado e colegiais de uniforme (muito semelhantes ao que eu usava nos anos de 1970) conseguimos observar bem de perto; aquelas raças bovinas tão bonitas e fortes, que é uma pena saber que logo adiante virarão os famosos grelhados uruguaios – as “parrilladas”. Os automóveis, motonetas e bicicletas também podem ser um mundo aparte para quem gosta de detalhes sobre modelos e hábitos de transporte em relação ao Brasil.

E essas coisas foram ainda melhor proporcionadas por outro “golpe de sorte”: estávamos confortavelmente “arranchados” na primeira fila de poltronas, em frente daquela enorme moldura que era o vidro da frente da parte superior do super-ônibus que viajamos. Jamais um veículo particular permitira tal tranqüilidade e amplidão de visão.

Por último, a volta e parada no Chuy. A “corrida às compras”. O negócio é ainda curtir o restinho do Uruguai e aquela cultura sui generis de fronteira e free-shopp. Comer uma boa “hamburguesa napolitana”, beber a última Coca-cola “indústria uruguya” e o último picolé de “dulce de leche” da Conaprole. No começo da madruga do domingo para segunda-feira já estávamos de volta em casa, cheios de histórias e mais de 300 fotos na máquina.

Segue umas poucas para vocês darem uma olhada.

Abraços do

Iuri (a Nenê também manda!).



CABO POLÔNIO, fevereiro de 2007

Amigos,

De volta de Cabo Polônio... Na verdade, de volta de um monte de lugares por demais interessantes. Para mim, “abaixo” de Pelotas, foi tudo novo. Nem mesmo Rio Grande eu conhecia direito – daquelas excursões de escola! Que magnífico aquelas planuras sem fim daquela região vastíssima! É impressionante como aos poucos a arquitetura também vai se transformando. Os povoados e suas casas em formato de caixote é um exemplo, que se radicaliza no Uruguai. E que sensação transpor a fronteira! É, de fato, entrar num outro mundo, mesmo que seja tão ao ladinho do Brasil. Placas de trânsito, estradas, os carros, as pessoas, a língua, as praias, a cerveja... tudo é diferente! Imagino que as casas “quadradas” sejam alguma herança hispânica, assim como de resto o que conforma esse país vizinho – irmão, pode-se dizer – mas cheio de peculiaridades. E isso que nem o adentramos muito! Mas já foi um “aperitivo” mui gostoso a uma viagem mais longa, para Montevidéu e etc.

Depois de atravessarmos a Reserva do Taim, aonde vimos jacarés, capivaras e uma quantidade de pássaros migrantes (de toda a América do Sul, praticamente), que vivem em banhados, chegamos a Santa Vitória do Palmar. Uma cidade antiga, vê-se pelo casario. Eu simpatizei e dei várias voltas pela larga rua central – com a inusitada denominação Campos Neutrais – olhando as residências, as pessoas, as vitrines, a antiga padaria, os bares e restaurantes. Uma pena que não deu para contemplar melhor a praça central, onde, ao redor, estão vários prédios históricos, incluindo um antigo teatro, onde, conforme informou a sempre prestativa Rita, podem se acomodar até 1000 espectadores. Para uma cidade com pouco mais que 30 mil cidadãos, um espaço assim demonstra a importância que teve – e talvez tenha – os espetáculos. Aliás, estávamos em pleno carnaval, e curti como um estrangeiro que via aquela movimentação de fantasias, algazarras, batucadas e a excitação dos jovens em busca de diversão e amores na cidadezinha.

Cidade espantosa é Chuí. Nunca tinha visto uma cidade tão radicalmente de fronteira. Na verdade são duas: Chuí e Chuy, Brasil e Uruguai, respectivamente. Onde o canteiro de uma larga avenida divide os países, vês-se toda a sorte de contrastes e de integrações. Do lado dos hermanos, pode-se andar de motocicleta sem capacete; do “nosso” lado, precisa-se colocá-lo. Evidente que o desrespeito é grande quanto a isso, mas é um paradoxo que pode fazer pensar em como os nossos regramentos são arbitrários. Dou um mínimo passo, e sou um estrangeiro e estou submetido a outras leis. É mesmo incrível! Havia um formigueiro de gente entrando e saindo de lojas, galerias, supermercados, barracas de ambulantes... Como não sou afeito a compras (até acho isso um pouco detestável), após um passeio de cima abaixo por aquele “mercado persa pós-moderno”, sentei-me em uma mesa na calçada de um simpático bar, e pedi um imenso café preto, e fiquei ali bebericando e observando os grupos de brasileiros e uruguaios. Veio a chuva de súbito e tornou aquela atmosfera fronteiriça mais irreal ainda.

Antes de pararmos em Chuí/Chuy, visitamos o Fortín de San Miguel. Que estrutura! Que localização, num alto de coxilha, estratégica para o domínio militar da região. Construído inicialmente pelos portugueses, foi tomado pelos espanhóis, dentro das longas escaramuças entre lusitanos e hispânicos pelo domínio desse sul da América do Sul. Hoje funciona como um museu e há lá uma miríade de informações, que seria necessário ao menos um dia inteiro de visita – considerando que ainda há a exposição de antigos carros de boi, charretes, os ranchos originais, mapas, fotos, objetos indígenas – meus Deus! – uma infinidade de coisas bacanas, que apenas passamos os olhos, já que a viagem prosseguia.

No domingo de manhã, partimos para o ponto mais distante que chegaríamos no Uruguai. Cabo Polônio. Não apenas o mais distante, mas o mais pitoresco, na falta de uma palavra mais adequada para expressar “o que é aquilo”. Demoramo-nos na aduana, papelada, burocracia de fronteira. Nada de aflição! Aproveita-se para andar pela rua, ver o outras pessoas que chegam em excursões, de motos, famílias em automóveis apinhados, jovens namorados em alguma lua de mel. De tudo havia, até colorados que assistiriam uma partida do Campeão do Mundo em Montevidéu (que frustração tiveram!). A bela bandeira del Uruguay flanava ao sol da manhã, numa espécie de reprodução em suas faixas brancas e azuis e a figuração de um sol, quase exatamente como estava o céu, as nuvens e a luz amarela e branca emanada do grande astro da nossa Via Láctea. Enchi-me de folders e mapas no guichê onde se lia Información Turística.

Após percorrermos mais de 100km, passando por povoados e paisagens pampeanas, chegamos no último ponto onde é possível chegar de ônibus antes do Cabo Polônio (sem o acento, em espanhol). Dali adiante, só no caminhão do tipo militar “off-road”, que já nos aguardava. E que coisa mais boa andar no alto da cabine, com o vento na cara e aquele caminho arenoso, abanando para as outras turmas que iam e vinham do cabo. Uma grande festa! Chegamos a uma espécie de aldeia hippie, com casinhas quadradas, parecendo precárias, mas simpáticas e até aconchegantes, cheias de adereços – bandeiras, pinturas, esculturas, tapeçarias, enfim, sinais de anúncio de que ali se vivia uma vida libertária, ligada à natureza, à arte, ao mistério e diversidade humanas. É difícil descrever como é o lugar: o mar, as ilhas de pedra, as praias onde em alguns lugares ao invés de areia, há bilhares de pedaços de conchas; os lobos marinhos, as pessoas que estão ali... O farol! Muitos de nós subiram lá no alto e – pela alma dos mortos dos muitos navios naufragados por lá! – que visão! Que medão!! Mas, ao mesmo tempo, que prazer estar assim na ponta desse gigante cilíndrico de um olho só! Em baixo, as pessoas diminutas; mas, na lonjura do horizonte, da massa de águas e ondas, das dunas enormes, da vegetação, das praias, da cúpula celeste e as poderosas nuvens... como somos ínfimos... barquinhos à deriva num oceano sem fim chamado Cosmos! O que nos salva são alguns faróis que de vez em quando avistamos quando tudo já parece miragem...

Minha aventura no cabo também foi gastronômica, incluindo um prato – a paella de mariscos e um copo da cerveja Patrícia, degustados num restaurante rústico, simpático, que seguia a risco o “espírito” do lugar, a dois passos da água do mar que lambia a areia à nossa frente. Quanto prazer outros humanos são privados! É quase uma injustiça tão poucos poderem desfrutar momentos assim!

Retornando, houve várias outras surpresas. O Parque Nacional Santa Teresa, a praia, a gentarada toda no camping, o refrigerante de Pomelo que há Marilene me deu para experimentar (até isso coloquei na minha lista particular de “experiências inéditas”). Tudo em marcha acelerada, já que temos uma programação e os dias restantes são demasiado pouco para tudo que ainda há à frente.

Em Rio Grande, muita história concentrada na cidade, revelada pela nossa simpática guia “nativa”. E o hotel? Bah! Que vista eu tive daquelas enormes janelas do quarto! O Porto Velho, a Praça dos Franceses, a Lagoa dos Patos... Superbacana! Travessia de barco para São José do Norte, passeio de charrete, passei de vagonete nos moles, siri na casca na praia do Cassino. Bem... poderia ficar falando sobre inúmeros detalhes que vão me passando pela cabeça. Mas é melhor ir parando. Estava na hora de voltar, mesmo. Além do cansaço, a melancolia do “fim de linha”. Em casa e nos dias que se seguem, ainda rumino as passagens e me pego pensando em vários acontecimentos destes quatro dias e três noites de um carnaval completamente fora do comum!

Santa Cruz do Sul, 27 de fevereiro de 2007.

P.S.: Uma coincidência mui interesante! Há dias estou escutando uma composição - Milonga del Moro Judío - do músico uruguaio Jorge Drexler, tornado mundialmente famoso por sua canção - Al Otro Lado del Río - premiada com o Oscar de melhor canção original em 2005, no filme Diários de Motocicleta. Pois nesta calorenta terça-feira (27/02/07), baixo no YouTube alguns vídeos com sua entrevista sobre o seu último disco - 12 Segundos de Oscuridad - para um programa numa TV da Espanha.

E vejam só o que ele fala: Que o disco, a começar pelo título e a canção de abertura, tem tudo a ver com... Cabo Polônio! – onde estivemos na semana passada!!

Poxa! Não é muito legal?! Até a capa do disco é uma belíssima foto do farol do Cabo, fora outras várias referências e outras ilustrações no encarte e na caixinha do CD! Duas canções foram compostas diretamente lá!

Mais abaixo, vai a letra da canção, que fala do farol. Os 12 segundos de que fala a canção é o tempo em que a luz leva para fazer toda a volta na cúpula lá no alto, como o próprio Drexler menciona na entrevista. E foi exatamente isso que nos disse o rapaz uruguaio, da Marinha, que cuidava do farol, quando lá em cima estivemos no dia 18/02! (Na face interna da caixa onde se engata o CD, há outra belíssima foto do farol com a seguinte legenda: Faro Del Cabo Polônio/Uruguay – Oceano Atlântico – S/W 34º24’19”/53º46’39” – Um destello cada 12 segundos – 3:45 AM.)

*Como já disse, a minha viagem continua... Através deste CD, das letras, melodias, arranjos das canções do 12 Segundos de Oscuridad, vou apreciando, do alto do meu farol de lembranças e imaginações, um universo que não para de se desdobrar como um caleidoscópio construídos de fragmentos de revelações neste caminho de Cabo Polônio – que significou, também, um encontro muito particular com o músico Jorge Drexler. Eu não voltei o mesmo.

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12 Segundos de Oscuridad

Gira el haz de luzpara que se vea desde alta mar.Yo buscaba el rumbo de regresosin quererlo encontrar.Pie detrás de pieiba tras el pulso de claridadla noche cerrada, apenas se abría,se volvía a cerrar.Un faro quieto nada seríaguía, mientras no deje de girarno es la luz lo que importa en verdadson los 12 segundos de oscuridad.Para que se vea desde alta mar...De poco le sirve al naveganteque no sepa esperar.Pie detrás de pieno hay otra manera de caminarla noche del Caborevelada en un inmenso radar.Un faro para, sólo de día,guía, mientras no deje de girarno es la luz lo que importa en verdadson los 12 segundos de oscuridad. (Letra: Jorge Drexler / Música: Vitor Ramil)

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