15 de out de 2008

Um novo templo para uma Santa Cruz que se quer “germânica”

Com o seu prédio inaugurado solenemente em 1939, a imponência neogótica da atual catedral de Santa Cruz do Sul pode ser vista como uma afirmação do caráter germânico ideologicamente construído no município. A edificação anterior, que abrigou o primeiro templo católico santa-cruzense, foi inaugurada em 1863 (portanto, 76 anos antes da catedral) e localizava-se bem em frente ao atual templo, seguindo as linhas do que poderíamos chamar de “padrão luso-brasileiro”, derivado da herança estético-arquitetônica da colonização portuguesa, como ainda bem se vê em igrejas como as de Santo Amaro, Rio Pardo e até na do distrito local de Cerro Alegre.

Diferente dos protestantes, que vieram à região do Vale do Rio Pardo trazendo “de fora” (direto da região que depois se tornou a Alemanha) seus rituais e expressões religiosas (inclusive no molde dos templos, quando assim era possível), os católicos santa-cruzenses viam – pelo menos parte dos membros – o seu máximo monumento à fé cristã “demasiado brasileiro” para um grupo étnico que já havia alcançado uma integração cultural e hegemonia econômica e política dentro da comunidade e, ao que parece, queria demonstrar isto com veemência. Ou seja, a origem lusitana estava ainda muito explícita em uma cidade que, a partir de certo momento, queria se caracterizar como “tipicamente alemã”. Ainda em outras palavras: o máximo templo da comunidade católica santa-cruzense transparecia a presença marcante da cultura de base portuguesa em Santa Cruz do Sul, não mais condizente com o “espírito teuto” que dominava o município. “Germanizar” era preciso...

A nova igreja, erguida nos fundos da “velha”, não apenas estava substituindo o pesado prédio, cujo empreiteiro foi o inglês Guilherme Lewis, casado com a famosa Dona Carlota – uma das primeiras famílias a se estabelecer no povoado com suas simétricas ruas e logradouros recém demarcados (sob a direção do Capitão Tenente da Armada Francisco Candido de Castro Menezes). A majestade dada à nova edificação, desenhada pelo austríaco Simão Gramlich lá por 1925 (que acabou se impondo numa escolha conturbada, onde o primeiro lugar no concurso oficial ficou, na verdade, com o projeto em estilo barroco, característico da Itália e países latinos, do arquiteto Vitorino Zani), com suas duas pontiagudas torres de 80 metros, não apensas substituiu, mas suplantou de forma acachapante o templo católico dos primórdios do pequeno burgo projetado no modelo ortogonal pombalino (adjetivo derivado do famoso ministro de Portugal, o Marques de Pombal), ofuscando, assim, as possibilidades de vislumbre de um passado onde os luso-descendentes – entre outras grupos étnicos e personalidades “não-alemãs” – tiveram um papel fundamental.

Em 1940, ao derrubar-se o que restava do primeiro templo católico santa-cruzense, derrubava-se também mais um pouco dos registros históricos explícitos da multiculturalidade do município. Vai-se pouco a pouco constituindo simbolicamente a germanidade santa-cruzense, a ponto de tornar-se, cultural e politicamente, quase totalitária. Santa Cruz do Sul transfigura-se no imaginário, paulatina e deliberadamente, numa “pequena Alemanha”. E a catedral, erguida nos escombros do “arcaico” templo original “modelo luso-brasileiro”, torna-se por excelência o “cartão-postal” desta estereotipada “cidade ariana”.

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Complementos:

*No artigo “A corrente imigratória alemã e a formação urbana” publicado na revista Ágora, do Departamento de História e Geografia da Unisc, a professora de arquitetura Maria da Graça Sebbem faz uma análise das características das aldeias alemãs donde vieram os imigrantes e os assentamentos aqui no Brasil, destacando Santa Cruz, Venâncio Aires, São Leopoldo, Novo Hamburgo e outros. Ela conclui que “as colônias [a ocupação no meio rural] alemãs do RS foram planejadas por técnicos de origem lusa, baseadas na concepção da cultura lusitana. No último parágrafo arremata: “a forma das cidades [os assentamentos urbanos] de imigração alemã no RS herdaram poucas influências (ou nenhuma) das cidades alemãs de onde vieram os imigrantes.” Ainda sobre o urnbanismo de influência lusa, em outro artigo mencionei que no livro O urbanismo Português: séculos XIII-XVIII/Portugal-Brasil (editado em Portugal) fica reforçada a evidência da inserção de Santa Cruz do Sul num projeto de urbanização/ocupação territorial de raízes lusitanas, adotado nos anos de 1700, e “herdados” pelos governos brasileiros já no período pós-colonial. Na página 226 desta obra é dito que “A maior parte das vilas e cidades brasileiras do século XVIII têm por base uma quadrícula ortogonal regular e organizam-se em torno de uma praça, quadrada ou rectangular, localizada centralmente. É sobre esta estrutura ortogonal e a partir da praça que se define o traçado das ruas e a estrutura dos quarteirões, também de forma quadrada ou rectangular.” Segue adiante: “A associação da formosura da cidade à regularidade do traçado [...] são expressão da influência de princípios renascentistas na concepção dos traçados destas cidades” adotados pelo governo de Portugal da época, seja na metrópole, seja em suas colônias, o que inclui o Brasil e países do continente africano.

**Após 76 anos de uso, a destruição da antiga matriz, erguida praticamente junto com o núcleo planejado e executado pelo governo provincial (urbanificando o que era um povoado – o Faxinal do João Faria) e várias vezes ampliado, carregando em suas estruturas a estética, o trabalho e a devoção de inúmeras personalidades e grupos étnicos dos primórdios da região de Santa Cruz – lusos, negros (os trabalhadores por excelência na época, que até os tijolos fizeram – vários, provavelmente, “transferidos” paulatinamente para a atual catedral e outras edificações locais), teutos (já chegados na localidade), mestiços (índios arranchados pela região e no aldeamento de São Nicolau, em Rio Pardo) e até ingleses, como o empreiteiro Guilherme Lewis e seu filho pintor (responsável pelas pinturas internas do templo original), além de sua esposa, Dona Carlota, notória liderança comunitária (como ressalta Avé-Lallemant) –, essa sólida construção, pronta para durar séculos, é simplesmente eliminada. A prova da sua fortaleza está nos trabalhos finais de demolição, que consumiram oito meses e demandaram técnicas mais sofisticadas para o seu solapamento completo. Sendo que havia alternativas à eliminação da “entroncada e enraizada” edificação. Mas mesmo com esforços de pessoas e manifestações de parcelas da comunidade, a igreja, quase octogenária, esfumaçou-se para a “total glória” do projeto original do alemão Simon Gramlich, modificado pelos engenheiros Schütz e Matheiz. Um ato que hoje seria considerado bárbaro, irresponsável, escandaloso e até criminoso. Mesmo tendo se passado 57 anos do final da destruição do antigo templo, tal fato deveria nos constranger ou ao menos ser motivo de reflexão – enquanto munícipes santa-cruzenses. Afinal, que tipo de valorização do passado, dos antepassados, dos documentos e outros elementos históricos nós em verdade queríamos e queremos preservar e difundir? Em que medida e qual significado e dimensão político-ideológico se insere a substituição da antiga matriz “brasileira” pela catedral “alemã”?

***No livro Catedral São João Batista, de Ronaldo Wink, diz assim: “No dia 04 de março de 1940, dois meses após a ocupação definitiva da nova igreja, foi iniciada a demolição da antiga matriz [parcialmente iniciada já em 1928, pela parte da sacristia], cujas atividades prolongaram-se por oito meses, dada a solidez da edificação. [...] Para pôr abaixo a pesada estrutura, o engenheiro-arquiteto [responsável] determinou o escoramento da torre [última parte restante] por todos os lados e posteriormente a escavação da base junto a sua face Sul. [...] a grande torre cedeu e se inclinou para trás em direção a nova matriz, ocasionando um grande estrondo e uma espessa nuvem de poeira.” Noutra parte, Winck anota: O Padre Alfredo Blay, em defesa da não demolição da antiga matriz – já à época por várias vezes ampliada, mantendo, entretanto, o seu estilo arquitetônico – que “O povo católico sentiria muitíssimo a demolição desta igreja ainda sólida com a qual estão ligados tantos sentimentos sagrados e felizes recordações” (p. 49). Blay também comunica ao arcebispo Dom João Becker que, por consulta a fiéis, 5/6 (cinco sextos) decidiram-se pela construção da nova edificação num terreno no que seria o final da rua Ramiro Barcelos (numa linha reta à saída da Estação Férrea, o “portal” da cidade naqueles tempos), desejando, assim, “conservar a matriz atual”. Porém, a argumentação do padre, o clamor da comunidade e mesmo o resultado da consulta não sensibilizaram os grupos e as autoridades com decisão final. Percebe-se uma dissonância no seio da comunidade – revelando que o consenso não existia, havendo posições conflituosas em luta, buscando influenciar as decisões. Ao final, ao que parece, o grupo “neogótico” e pela destruição da antiga igreja impôs sua vontade.

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