26 de out de 2008

Na carona de Jack Kerouac


Depois de mais de 20 anos, volto a "visitar" esse autor, considerado o principal da Geração Beat - movimento contracultural tendo a literatura o seu principal veículo, iniciando-se nos Estado Unidos e influente até hoje no mundo todo. Dito também o criador da "prosa espontânea", “imitando o jazz”, tendo redigido sua mais conhecida obra, On the Road [foto acima - divulgação - uma das edições nos EUA] de, em três semanas quase ininterruptamente (reza a lenda que usou um rolo de telex para não precisar trocar as folhas na máquina). Li o Pé na Estrada – conforme foi traduzido o título para a edição brasileira – numa espécie de corrente nos meados dos anos 80; o livro ia passando de amigo para amigo e empolgando a nós todos.

O grande propagandista de Kerouac, e demais do “bando betnick” – Ginsberg, Burroughs, Cassady, Corso, etc. –, era justamente o jovem tradutor do On the Road, Eduardo “Peninha” Bueno. Verborrágico, apaixonado, inteligentíssimo, polêmico, Bueno usava o programa Pra Começo de Conversa, da Televisão Educativa gaúcha (TVE-RS), como seu púlpito. E nós nos contagiamos daquela ânsia e energia “beatífica” e só não pegamos as mochilas e “saímos por aí” porque nossa caretice e encagaçamento eram (são?) ainda demasiados. Os efeitos das leituras e conversalhadas sem fim se deram de forma homeopática, digamos assim – e ainda estão em ação nas posturas existenciais de muitos desses meus velhos companheiros, jamais sendo bois na boiada.

Coincidentemente (ou não!), no mesmo momento que retomei as leituras de Kerouac, fiquei sabendo (eu poderia ter calculado) que a “bíblia” está completando 50 anos da primeira publicação nos EUA, em 1957. Considero-o um clássico da literatura – desses que são (até para quem não os leu) marcos ou "divisores de água", influenciando (além de ser um resultado de acontecimentos) direta e indiretamente os comportamentos, as artes, a própria sociedade. Um fenômeno sociológico, pode-se considerar sem muito exagero.

O diretor Walter Salles, do premiado Diário de Motocicleta, vai fazer um filme a partir do Pé na Estrada. Pela matéria que li em um jornal de São Paulo, soube que, antes do filme, Salles e um pequeno grupo saíram pelos EUA “seguindo pegadas” do Kerouac e conversando com os betniks sobreviventes, além de gente que foi influenciado pela “batida”, como Lou Reed e David Byrne. Disso sairá um documentário (prévio ao filme).

Outra coisa interessante dessa reportagem: “descobri” que o personagem Japhy Ryder, que é um dos protagonistas do romance Os Vagabundos Iluminados – tão bom ou melhor de que o Pé na Estrada – é um histórico ecologista norte-americano, também poeta e escritor versado em zen-budismo, Gary Snider. E aí está uma ligação direta desse pessoal com o ambientalismo e toda uma nova forma de encarar o planeta e a própria vida, fazendo emergir novos comportamentos. No campo da escrita, é um impacto estético, metodológico, de conteúdo e de influências para as quais muitos “literatos” empinam seus narizes, dão de ombros e, aí, resvalam ridiculamente na casca da banana.

Não é pouco o que significaram e significam esses “malucos-beleza”!

*Redigido em julho 2007.

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